domingo, 24 de maio de 2026

LEGADO DEUM REVOLUCIONÁRIO/15

Três meses depois, diante da Faculdade de Filosofia,
seria travada a
batalha da rua Maria Antônia
De 1979 a 1984 trabalhei em revistas de cinema e de música, quando fiquei conhecendo profissionalmente boa parte dos que atuavam em ambas as frentes. Mas houve apenas três nos quais o relacionamento se tornou mais profundo.

O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia para se discuti como o movimento estudantil daria seu poio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numerosos contingentes de policiais militares).

Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia que, como era frequente naquela época, não se iniciaria na hora marcada. Foi quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.

Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar?/ Quando é que vai se acabar?

A partir daí comprei um o último dos seus elepês, passei a acompanhar suas aparições na TV e torci por ele nos grandes festivais de MPB. Os companheiros que estavam comigo também gostavam de suas composições, embora com menos intensidade. 

Vendo-o naquela saia justa, o mais velho de nós, o Diego Perez Hellin, o convenceu a ir conosco oo bar da esquina para tomar umas cervejas. Seria uma saída honrosa para ele, ao invés de retirar-se como um cão escorraçado. 

Por que estava sendo desprezado daquela maneira? É que no recente primeiro de maio, o PCB convencera o governador Abreu Sodré a participar da comemoração do Dia do Trabalhador, mas os partidos e organizações mais à esquerda o apedrejaram tão logo tomou a palavra.  Alguém o acertou e um filete de sangue escorria da testa do governador.

Então o Vandré, surpreendentemente, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do  artista, os universitários passaram a xingá-lo de traíra

Bem mais tarde, um amigo confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão. 

O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando

Ou seja, por um destino insólito ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.

Quando a Caminhando  (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas

Nem eu poderia divulgar o episódio como merecia, pois, além do receio de ser novamente preso, construíra uma reputaçãozinha como crítico de rock e não tinha cacife para publicar na grande imprensa algo tão polêmico.  

Quando a abertura ampla, geral e irrestrita do ditador Geisel estava no auge, a Caminhando foi liberada e a cantora Simone a relançou em dezembro de 1979. Levei ao Vandré a proposta de escrever algo sobre ele para um pacote de revistas importantes e ele respondeu que, como não tinha disco para lançar, não tinha motivo para aparecer na imprensa. Mas acabamos conversando, novamente por duas ou três horas, no apartamento da rua Martins Fontes em que ele morava havia muito tempo. 

Ele pediu para manter em off tudo que rolou nesse papo e eu cumpri a promessa. Mas fiquei muito frustrado porque teria algo significativo a revelar:
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (e cumpriu, indo apresentar-se no Paraguai, nas proximidades da fronteira com o Brasil);

Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania. 

Mas, quando o Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equil´brio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos negando tal hipótese. 

Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes.  O que terá acontecido nesses 58 dias de incomunicabilidade?   

*  *  *

Com o Raul Seixas mantive um relacionamento fugaz, mas pitoresco. Eu tinha passado batido pelo lançamento, em julho de 1973, do seu primeiro e melhor disco, Krig-ha Bandolo! Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época  num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.

 Com a abertura ampla, geral e irrestrita do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente o fiquei conhecendo. E, ao escutar Raul Seixas interpretando Cachorro urubu, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby,  a gente ainda nem começou.

Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.

Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.

O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isto que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar). 

Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade careta e detestável.  

Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.    

Recordo também quando disse que ele e o Paulo Coelho, antes do sucesso, traduziam para próprio uso os livros de bruxos famosos, como o Aleister Crowley. Ambos aproveitaram de forma diferente tais ensinamentos: o Raul com a sociedade alternativa e o Paulo com suas lorotas sobre ser um mago.

                                                                          *  *  *

Finalmente, fiz uma entrevista adequada com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar a ditadura militar e a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.

Na hora de ir embora, mesmo com dificuldade para andar e corcunda por causa de um atentado terrorista que sofrera em qualquer país latino-americano (não disse qual), ele se levantou para acompanhar-me até o portão. 

Tentei dissuadi-lo, porque era uma caminhada longa do gabinete dele até a saída do mosteiro de São Francisco. Não adiantou. 

Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro. (por Celso Lungaretti)

sábado, 23 de maio de 2026

MUNICÍPIO DE SC ORGULHA-SE DE QUE TERÁ O METRO QUADRADO MAIS CARO DO BRASIL; É UM ACINTE AO MISERÊ DO POVO.

Leio no Estadão deste sábado (23) que o município catarinense de Itapema está investindo R$ 60 milhões  para alargar a orla de sua praia, tornando-se a cidade com metro quadrado mais caro do Brasil. 

Enquanto isto, 48,9 milhões de brasileiros, perfazendo 23% da nossa população, vivem abaixo da linha de pobreza. tendo de não morrer de fome com uma renda de aproximadamente R$ 700 mensais. Conseguirão adquirir um milímetro quadrado em Itapema? 

Já lá se vão 60 anos que Cesar Roldão Vieira compôs e Ary Toledo interpretou a canção Anúncio de Jornal (abaixo), mas o miserê continua o mesmo. No ranking global de nações do FMI estamos na 84ª colocação. 

Em 2024, só em São Paulo havia 1.840 mansões, cuja área seria suficiente para abrigar 107 mil famílias.

A situação gerada pelo capitalismo no Brasil é simplesmente pornográfica, se levarmos em conta o enorme potencial desperdiçado. (por Celso Lungaretti).  


sexta-feira, 22 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/14

A
s estranhas coincidências continuaram dando o ar de suas graças.

Assim é que, no final de 2008 recebi um telefonema do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pedindo minha ajuda na batalha de opinião contra a extradição do escritor italiano. A vitória conquistada no episódio dos quatro de Salvador  chamara a atenção desses seus apoiadores.

A prestação de solidariedade a perseguidos políticos é dever de todo revolucionário, embora a maioria tire o corpo fora. Eu não. Aceitei de imediato, sem ilusão nenhuma quanto a tão imensas seriam as dificuldades que enfrentaria. 

Não deu outra. Passei dois anos e meio correndo o Brasil para fazer palestras; participar de debates, mesas redondas e atos públicos em defesa do Cesare. Compareci às sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal para, se a decisão fosse pela extradição,  reagir imediatamente, pois deveríamos contrapor nossa verdade às mentiras que vinham da Itália e eram repercutidas caninamente pela imprensa brasileira.

No meio de tudo isso, um dia me lembrei do primeiro livro para adultos que lera na vida, lá pelos meus 14 anos: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast, que escolhi na Biblioteca Circulante da Mooca baseado apenas na orelha.

A história era a de dois anarquistas italianos acusados e executados em Massachusetts por um assalto à mão armada com duplo homicídio que, contudo, não haviam cometido. 
Parlamentares visitaram o Battisti na Papuda

Tratava-se apenas de um exemplo chocante para intimidar os imigrantes que chegavam aos EUA com ideais esquerdistas.

Embora a inocência de ambos estivesse mais do que provada e manifestações de protesto pipocassem por várias nações (até o Papa pediu pela vida deles), os assassinatos pela via judicial acabaram ocorrendo. Cinquenta anos depois o governador de Massachusetts reconheceu que havia sido cometido um erro jurídico, reabilitando-os postumamente.

Esse livro impactou muito em mim quando o li, mas tantos outros haviam depois passado por minhas mãos que eu esquecera dele. 

Quando afinal percebi que, de certa forma, estava tentando corrigir o passado, fiquei surpreso: estatisticamente, a possibilidade de um dia eu estar envolvido com um episódio semelhante era irrisória. Mais ainda pelo fato de eu nem sequer ser de esquerda quando retirei aquele livro da biblioteca.

Não foi esta a única coincidência inverossímil. Apesar de minhas famílias paterna e materna não terem interesse pela política, um antepassado meu, Angelo Longaretti, havia assassinado um fazendeiro truculento que espancava seu pai.

Haviam discutido pelo valor que o pai dele, um homem idoso, tinha a receber, pois estava de saída daquela fazenda. Isto se misturava com o assédio que a filha sofrera de um dos filhos do mandachuva, Finalmente, ao ver o seu pai agredido e aparentemente morto (tinha só desmaiado), Angelo o matou com um tiro fortuito de uma garrucha enferrujada. 
O Crítica Radical foi muito atuante em defesa do Cesare


A colônia italiana se mobilizou em peso, mas o julgamento foi de cartas marcadas. Não se providenciou sequer tradutor, de forma que as testemunhas de Angelo, também italianas de nascença ou de ambiente familiar, depuseram à toa. 

O morto era irmão de Campos Sales, o quarto presidente da República do Brasil, o qual tentou mudar a lei, com a introdução da pena de morte para que em seguida fosse aplicada retroativamente contra Angelo. Mas acabou desistindo dessa ideia de jerico por pressão da Inglaterra, que atuava como uma espécie de guardiã da aplicação correta da lei noutros países.

Sem vínculo comigo, mas igualmente repulsivas foram a decisão do STF favorável à extradição de Olga Benário Prestes para a Alemanha nazista, embora estivesse grávida de brasileiro; e a omissão do ditador Getúlio Vargas, que dava a última palavra em casos como esse e poderia ter impedido tal infâmia.

A esquerda perdoa alguns ditadores que passam para o seu lado, como Vargas, que em 1950 se tornaria nacionalista como retaliação aos EUA por terem, em 1945, apoiado sua destituição. Eu, que passei pelos porões de uma ditadura e quase morri, não perdoo ditador nenhum. 

Mas, voltemos ao Caso Battisti. Minha melhor contribuição foi haver lançado artigos praticamente todo dia, resgatando a memória: 
-- dos grandes atentados fascistas que ficaram impunes ou receberam sentenças ínfimas, começando pelo da Piazza Fontana em 1969 (16 mortos e 88 feridos) e culminando no Massacre de Bolonha ((85 mortos e mais de 200 feridos).;
-- da lei inacreditável que vigorou nos
anos de chumbo italianos, prevendo prisões preventivas de mais de 10 anos para os acusados de terrorismo, que bem poderiam ser inocentes;
-- pelo fato de que as acusações do governo do debochado Silvio Berlusconi contra o Cesare já estavam prescritas, mas o prazo foi escamoteado para justificar a perseguição ao escritor;
-- pela buffonata de atribuírem a Battisti quatro assassinatos, dois dos quais simultâneos, sem levarem em conta que era humanamente impossível ele percorrer em tempo a distância entre duas dessas cidades  (quando esse pequeno detalhe foi atirado na cara dos pubblici ministeri, eles alteraram a acusação para três homicídios cometidos pessoalmente e autoria intelectual do quarto),

Muitos exemplos semelhantes comprovam que na Itália perdurava um estado de guerra silenciosa, o que justificaria uma anistia aos envolvidos ao invés de penas rigorosíssimas para uns e benevolentes para outros.

O pedido de extradição feito apela Itália ao Brasil desembocou numa guerra de versões até então nunca vista, entre a grande imprensa e as redes sociais.

Num primeiro momento, prevaleceu o posicionamento do jornalista e escritor Mino Carta, muito paparicado pelo PT. Quem não estava a par do confronto repetia as diabretes do Mino, sem saber que ele, como os comunistas tradicionais, detestava a nova esquerda e, consequentemente, o Battisti.
O sátiro Berlusconi queria exibir a cabeça do Cesare 

Um episódio interessante foi eu logo ser convidado a entrevistar o Cesare sobre semelhanças e contrastes de dois guerreiros dos
anos de chumbo. 


O Gilmar Mendes jamais consentiria, então tratei de entrar na Papuda acompanhando uma pessoa que tinha o direito de estar lá. Entrevistei-o longamente, anotando apenas uma palavra de cada resposta dele, para não dar na vista.

Nunca havia feito isso, mas consegui lembrar a entrevista inteira. Ela foi publicada no Congresso em Foco, que me contratara o serviço, e, depois de uma semana, massificando-a para que atingisse maior público. Coincidência ou não, foi nesse período que Cesare começou a conquistar as redes sociais.

Quando entrei na batalha de opinião, trazendo a experiência das disputas encarniçadas do movimento estudantil, a coisa foi mudando de figura, Tentei várias vezes acelerar o processo desafiando o Mino a polemizar comigo, mas ele evitou o confronto. 

Escapou da derrota, mas não da corrosão de sua popularidade, Teve de abandonar o blog pessoal por não suportar os questionamentos que seu próprio público lhe fazia,

Numa noite em que vários veículos da grande imprensa levaram ao ar reportagens altamente desfavoráveis ao Cesare, deixando forte impressão de que se tratava de uma ação concertada, consegui redigir, em pouco mais de uma hora, e enviar para minha rede uma refutação que acabaria sendo copiada por um grande número de portais e blogs. Foi o melhor texto que escrevi durante a campanha toda, aproveitando ao máximo o que aprendera no jornalismo.


Doutro lado, deixo registrado que, como relator do caso no STF, Cezar Peluso conseguiu alinhavar  várias e várias dezenas de motivos para enviá-lo à Itália e uns 2 ou 3 que o favoreciam. Foi o relatório mais parcial que eu vi em toda a minha carreira e em toda a minha vida.

O empenho de Gilmar Mendes (presidente da Corte) e Peluso (relator) em crucificar Battisti era desmedido. E, quando terminou o período de Mendes como presidente, foi substituído por... Peluso! E quem foi indicado por Peluso para assumir a relatoria? Ele mesmo: Gilmar Mendes!

Apesar de termos contra nós um país do primeiro mundo cujo presidente era um depravado ultradireitista; quase toda a grande imprensa brasileira; e adversários ocupando o tempo todo as posições mais importantes do julgamento, vencemos.

O fator decisivo foi que jornalistas renomados, confiando em que eu respeitaria suas revelações em off, me transmitiram tudo que eu precisava saber sobre o Lula. Inclusive que ele dissera ao Gilmar Mendes que, se o STF decidisse extraditar o Cesare sem intervenção dele, Lula, repetiria a indignidade do Getúlio Vargas, deixando tal desfecho vergonhoso acontecer; mas, se fosse dele a palavra final, não extraditaria.

Graças a isso, a escritora francesa Fred Vargas, o ex-integrante da Anistia Internacional na Argentina Carlos Lungarzo, o Eduardo Suplicy e eu conseguimos impedir que apoiadores desatinados lançassem  uma campanha para o Lula retirar o processo das mãos do STF e decidir sozinho. Teria sido derrota na certa.
Cezar Peluso e Gilmar Mendes tudo fizeram contra Cesare 

E movemos céus e terras para que os 4x5 que vínhamos recebendo nas votações anteriores se tornassem 5x4 para nós no tópico principal: se o Supremo decidiria sozinho ou a palavra caberia ao condutor das relações internacionais do Brasil (o presidente da República).


Como nas outras situações nas quais tal dilema havia sido discutido prevalecera a prerrogativa presidencial, fizemos campanha cerrada para que os defensores da tradição repetissem o voto dado noutras ocasiões. 

Caso do Ayres Britto que, corajosamente, manteve seu posicionamento costumeiro, apesar de o Gilmar Mendes ter sido até deselegante no discurso irado com que tentou fazê-lo mudar o voto. (por Celso Lungaretti

quarta-feira, 20 de maio de 2026

DA RACHADINHA AOS 156 PEDIDOS DE IMPEACHMENT

Filme realizado com financiamento oriundo da corrupção,  Dark Horse será a confirmação de que a extrema-direita emburreceu  e mediocrizou-se mais ainda, caso o comparemos, p.ex., com o  Triunfo da Vontade, dirigido  por Leni Riefenstahl em 1935.

Por que? Porque Adolf Hitler, por pior governante e ser humano que fosse, era um personagem histórico, enquanto Jair Bolsonaro jamais passou de um personagem histérico que os ultradireitistas enfiaram goela do eleitorado adentro, ultrapassando todos os limites de propaganda enganosa, que era martelada dia e noite nas redes sociais.

Trinfo da Vontade é considerado um dos melhores filmes de propaganda politica já feito, enquanto  o abacaxi louvaminhasdo Bolsonaros de tem todo jeitão de que será uma insignificância, começando por tentar provar que a fakeada no celerado teria sido algo além da encenação mambembe que foi.

Uma curiosidade é ter Bolsonaro quebrado o recorde nacional de pedidos de impeachment: 156. E pensar que existem desmiolados dispostos a votar no seu filho 01. O Brasil não é mesmo um país sério!

De resto, os realizadores erraram  no título (deveria ser Ugly Horse), mas acertaram no dia de lançamento nos EUA:  31 de outubro. Hallowen tem tudo a ver com ele.

O lançamento no Brasil será em 11 de setembro. Desta vez ele não fugirá, como fez nos  Dias da Pátria de 2021 e 2022, quando agendou golpes de estado, mas, pusilânime que é, refugou. 


A tentativa de usurpação do poder só foi levada até o fim em janeiro de 2023 porque ele previamente fugiu e foi se esconder na Disneylândia.

.

Quanto ao Flávio Bolsonaro, como pode um candidato à presidência da República envolver-se pessoalmente com tal delito menor, uma ninharia no mundo da alta política? Uma vez ladrão de galinha, sempre ladrão de galinha! (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 19 de maio de 2026

BRASIL DESCLASSIFICADO DE NOVO!!!

O choro do menino torcedor em 1982 não
se repetirá: ninguém espera nada do Brasil
Ô
ps, desculpe a nossa falha. Esta será a manchete cá do blog no dia em que a seleção brasileira estiver disputando e perdendo mais uma partida de quartas de final (se chegar até lá, o que hoje é duvidoso). 

Para manter o alto nível do blog, tenho de antemão preparado algumas aberturas  sobre acontecimentos cujo desfecho é pra lá de previsível. Como este.

Agora falando sério, não vejo a menor chance de o Brasil ir longe neste Mundial após a convocação deplorável do Carlo Ancelotti, que: 
-- inclui um ex-futebolista que, além de não estar vendo a cor da bola, invariavelmente se contunde ou se esconde quando mais se precisa dele;  
-- exclui os melhores artilheiros do Brasil, Pedro e João Pedro, sabe-se lá se por miopia ou má fé;  
-- deixa de lado o principal pegador de pênaltis do Brasil, Hugo Souza, que poderia substituir o goleiro nos instantes finais de uma partida empatada;
-- dá toda pinta de que seu técnico italiano apostará, como sempre, em defesa fechada e contra-ataques rápidos, sem levar em conta partidas como PSG 5x4 Bayern, quando a modernidade no futebol esteve à mostra.

Anceiotti inclusive parece não ter aprendido nada com a goleada Barcelona 5x2 Real Madrid, embora já se tenham passado 16 meses. 

Foi o maior fiasco de uma temporada em que o timaço por ele treinado passou em branco, daí ter vindo para o Brasil como  saída honrosa, já que acabaria sendo demitido na Espanha.
Um conselho: consiga vídeos de nosso escrete em 1970 e assista-os quando o Brasil estiver maltratando a bola. 

Será um antídoto ao anacronismo futebolístico e  forma de evitar uma indigestão. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/13

Não só políticas foram as batalhas que enfrentei: na primeira metade da década de 2000 se juntaram tantos problemas e desafios que eu não sabia nem se sobreviveria a tudo aquilo.

A entrada no novo milênio me fez sentir uma necessidade imperiosa de construir uma vida diferente. Minha primeira esposa sofrera uma grande desilusão (não por minha causa) e, quando eu chegava do trabalho a encontrava sempre assistindo à TV no nosso quarto de dormir. Ela não ligava para mais nada.

Eu percebi que não aguentaria por muito tempo tais marasmo e prostração, mas não sabia como ajudá-la. A opção era ser tragado por aquele abismo sem fundo ou me salvar sozinho. 

A virada de milênio acrescentou a peça que faltava no quebra-cabeças: resolvi ser pai biológico. Por que uma mudança dessas da noite para o dia? Ignoro. Talvez ter-me tornado cinquentão quando havia aquele clima todo de um novo tempo.

O certo é que nós havíamos adotado uma nenê, fizemos tudo que podíamos para ela ter um bom futuro, mas aos 15 anos ela se tornou mãe. Ficara seduzida pelo modo de vida dos jovens que frequentavam a pracinha defronte o nosso prédio, na linha do seja marginal, seja herói. Em questão de um mês sua cabeça mudou para sempre.

Marcello Lavenère, autor do impeachment
do Collor, presidia a Comissão de Anistia
Eu não esperava tentar de novo a paternidade, biológico(a) ou adotivo(a). E, da noite para o dia, vi-me desejando-a ardentemente. 

Ao conhecer uma moça disposta a me acompanhar nessa aventura apesar da minha idade, não hesitei em botar o pé na estrada, deixando apartamento e um automóvel para minha ex.

Acabamos tendo a filha por mim sonhada, mas minha felicidade durou os 21 meses em que moramos juntos. Nossa separação foi um dos piores episódios pelo qual passei. Fiquei arrasado.

Sem que eu pretendesse, enquanto ainda estava lambendo as feridas, conheci outra moça que me quis como parceiro. Mas, a mudança de vida me deixara com pouca grana e para piorar, o mercado jornalístico estava em crise e logo fiquei desempregado. Os quase três anos seguintes foram um pesadelo.

A minha ex resolveu me processar, embora eu não tivesse as mais remotas condições de pagar-lhe pensão. Mas um juiz desatinado, sem eu saber que o processo estava rolando, me condenou à prisão. O argumento da minha ex foi de que um jornalista conhecido como eu deveria estar ganhando grana com frilas. Não apresentou prova nenhuma do seu palpite.

Foi o momento em que eu mais estive tentado a partir para o tudo ou nada. Se realmente me viessem prender, reagiria entrando imediatamente em greve de fome, e fosse o que o destino quisesse. Mas, sabe-se lá o motivo, não vieram.

Desde minha prisão em 1970 eu tinha a estranha sina de chegar à beira do precipício, mas algo me impedir de cair. Aconteceu de novo. Um velho amigo ressurgiu e me emprestou o necessário para eu e a minha namorada atravessarmos o temporal.

E a dona da imobiliária que cuidava do aluguel de nosso precário apê fez algo raríssimo na sua profissão: convenceu a proprietária a dar-me mais tempo antes da ação de despejo. Cheguei a ficar devendo três meses de aluguel.

Nessa fase, estava recebendo apoio legal de um conhecido que não estava à altura da gravidade da minha situação, mas fez o possível, morrendo de medo de que, por falha dele, eu acabasse preso. 

E foi ele que me contou que a estava sendo criada a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que era sob medida para um ex-preso político com tímpano estourado nas torturas.

Só que a audiência em que meu caso seria apreciado nunca chegava. Verifiquei as regras do programa e vi que o primeiro critério para a marcação de julgamentos era a condição de desempregado.

Por sorte, eu havia comunicado à Comissão a perda do meu emprego, então pela primeira vez acreditei que o milagre estava próximo.

No entanto os meses se passavam sem eu entrar na pauta de julgamentos e, ao saber da magnânima reparação concedida ao jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (um dos meus ídolos, por sinal), notei que as regras estavam sendo descumpridas no caso de famosos. De quantos mais? Era óbvio o favorecimento de alguns enquanto outros comíamos o pão que o diabo amassou.

Em desespero de causa, parti para a luta pública, endereçando mensagens às comissões da Câmara e do Senado, ao Ministério Público Federal, à Auditoria Geral da União e outros órgãos afins, além de comunicar amiúde a evolução de meu caso à imprensa.

Chegou então um momento em que minha luta começava a repercutir nos canais acionados e na mídia. Quando o Ministério Público pediu explicações à Comissão, esta  finalmente pautou meu julgamento, antes que o estrago ficasse maior.

Mas as pensões mensais vitalícias só eram concedidas a quem tivesse sofrido perdas financeiras irreparáveis (um critério absurdo, aliás, pois danos à integridade física eram muito mais graves), então num primeiro julgamento recebi apenas uma indenização em parcela única de R$ 50 mil. Não dava nem de longe para eu reconstruir a minha vida.

Apelei, apresentando prova de que eu estava com um emprego engatilhado quando caí na clandestinidade para não ser preso por um governo ilegal e ilegítimo.

Avaliando o meu e outros casos noticiados na imprensa, entendi depois o motivo de minha dificuldade em fazer o julgamento acontecer: simplesmente a Comissão ignorava que meu arrependimento havia sido forçado e que eu continuava um revolucionário, mesmo depois de ter passado pelo inferno do DOI-Codi. 

Mas o que eu escrevia e tinha passado a sair na imprensa mostrou-lhe o erro que estava cometendo. Quando finalmente lhe caiu esta ficha, marcaram de imediato minha data. 

O julgamento definitivo se deu em meados de 2005 e eu mais uma vez fui apresentar a minha causa sozinho. Não tinha grana para advogado, nem para pagar o voo de São Paulo para Brasília. Pegava ônibus mas os horários não me serviam, então era obrigado a pegar o último da véspera e a passar muito tempo fazendo hora até a abertura da sessão.

E veio o julgamento. O representante das Forças Armadas na Comissão faz tudo que pôde para me prejudicar, em vão. Eu sofrera muito para chegar àquele ponto e lutei com unhas e dentes para não vê-lo escapar entre os dedos.

E, como quase todos os anistiandos se faziam representar por advogados, a presença de um ex-guerrilheiro que os dispensava e defendia a própria causa despertava curiosidade.

Mas, tão ocupado estava em duelar com pessoas que tinham formação jurídica, que em nenhum momento eu percebi que os funcionários da casa torciam por mim.

Quando consegui a vitória, todo o cansaço acumulado desabou sobre mim. Saí daquela sala enfumaçada e desabei no primeiro banco que encontrei no saguão.

Aí uma meia-dúzia de funcionários veio me abraçar e festejar meu sucesso. 

Fiquei comovido como poucas vezes na vida. (por Celso Lungaretti)

TÉCNICO DECADENTE CONVOCA JOGADOR DECADENTE? É O QUE HOJE SABEREMOS.

A lembrança mais forte que tenho de Neymar na seleção brasileira é a da desclassificação diante da Croácia no Mundial de 2022: ganhávamos por 1x0 na finzinho da prorrogação, mas aí os croatas contra-atacaram e Neymar não deu um passo para ir ajudar os defensores. 

Ficou resmungando no ataque, com as mãos na cintura; o gol adversário se consumou e perdemos nos pênaltis.

Afora estar visivelmente acabado para o futebol e ter canela de vidro, Neymar se comporta como um reizinho, embora só tenha conquistado com a camiseta do escrete uma mísera Copa das Confederações

É pouco e o desperdício de uma vaga para ele no banco de reservas poderá custar-nos caro.  

Hoje o decadente Carlo Ancelotti mostrará se está lá para fazer o que é certo ou não tem personalidade para resistir a pressões descabidas. 

Não espero muito dele, pois os melhores selecionados já aprenderam a furar retrancas e a recompor  suas defesas ao perderem a bola. O Carletto já era. (por Celso Lungaretti)

domingo, 17 de maio de 2026

APÓS TORNAR INVEROSSÍMIL SUA SOBREVIVÊNCIA NA TERRA, PODERÁ A ESPÉCIE HUMANA SALVAR-SE EM MARTE?

Não existe plano B para sair deste planeta e sobreviver em Marte
, alertou o engenheiro Ivair Gontijo no início da palestra que fez na São Paulo Innovation Week, festival de inovação e empreendedorismo promovido pelo Estadão.

O mineiro Ivair trabalha num programa da Nasa, a agência espacial do governo dos EUAEstá envolvido principalmente com a coleta de amostras de rocha e solo de Marte, que futuramente serão trazidas à Terra e aqui estudadas. 

Indagado sobre a possibilidade de a espécie humana, que parece condenada a ser extinta nos próximos 100 anos, encontrar uma alternativa de sobrevivência no planeta vermelho, ele foi categórico:
É milhões de vezes mais barato e mais fácil resolver os problemas daqui. Para ir a Marte, precisamos resolver problemas gigantescos. Como produzir oxigênio? Comida? E os problemas de saúde, tecnológicos? Como se resolvem esses problemas? Não temos solução.
Estará totalmente descartada a possibilidade de o homem ir viver em Marte? Ele não foi tão longe, mas quase: 
Mesmo com o avanço da ciência e da exploração espacial, não se deve enxergar o avanço em outros planetas como um refúgio. 

Morar em Marte, por enquanto, só em histórias de ficção científica.

Contudo, deixou um fio de esperança para nós:

Uma missão tripulada para Marte vai demorar muito tempo, mas eu acredito que vai acontecer e que eu ainda vou ver no meu tempo de vida.

Infelizmente, dá para notarmos que foi só um agrado que ele fez para a plateia, dissonante das suas análises sérias. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 16 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/12

Venceslau, um homem decente até no visual.
Apesar das agressões explícitas e das armações de bastidores contra mim, tentei dali em diante manter uma coexistência pacífica com o PT. 

Decidi só entrar em choque com tal partido quando ele espezinhasse valores fundamentais da esquerda. As medidas governamentais das prefeituras petistas e, a partir de 2003, do Governo Lula, estas eu poupava de críticas públicas.

Mas, o diabo é que o PT estava sempre mandando às favas aquilo no que a esquerda acreditava, então não pude deixar barata a injustiça cometida contra o Paulo de Tarso Venceslau, muito parecida com a cometida contra mim em 1970. 

Continuavam vivas na minha memória as lembranças da excelente imagem da qual a esquerda desfrutava quando a ditadura militar foi atirada na lixeira da História 

Éramos convidados a todo momento para reuniões com a intelectualidade engajada e nelas recebidos com muito respeito, por termos aceitado o desafio de enfrentar o inimigo fardado mesmo sob um desembestado terrorismo de estado. Se não nossas propostas, pelo menos os enormes sacrifícios que fizéramos eram reconhecidos. 

Então, quando dirigentes do PT começaram a chafurdar na mesma lama dos políticos profissionais, foi a gota que transbordou o copo. 

Economista competente e petista abnegado, o PT Venceslau (como ele era apelidado) se revoltou com a vinda à tona de denúncias fundamentadas de conluios com a putrefata Odebrecht. 
Economista e ex-guerrilheiro, ele participou do sequestro 
de Charles Elbrick; acima os presos então resgatados.
E mais indignado ficou quando, em duas prefeituras comandadas pelo partido (as de Campinas e São José dos Campos) 
seu excelente trabalho como secretário das Finanças foi interrompido porque ele se recusava a compactuar com a podridão.

César Benjamin chegou a fazer, no 10º Encontro Nacional do PT, duras críticas às relações promíscuas do partido com a Odebrecht. 

Já Venceslau teve a paciência de aguardar durante dois anos que o Zé Dirceu, a quem ele recorreu, tomasse providências. 

As queixas consistiram em que seu afastamento das duas prefeituras se deveu a ele ter-se negado a pagar valores exorbitantes à CPEM, por serviços de consultoria não prestados. A CPEM pertencia a Roberto Teixeira, compadre do Lula, a quem fornecia gratuitamente um apartamento de cobertura no ABC para morar com a família. 

Aparentemente, tal desvio ilegal de verbas não se destinava aos bolsos de algum chefão do PT, mas servia para o financiamento de campanhas eleitorais. Mesmo assim, Venceslau tinha total direito de não envolver-se com falcatruas, ainda mais quando cometidas em pastas que estavam sob sua responsabilidade.

Cansado de esperar em vão, Venceslau botou a boca no trombone, em entrevista para o Jornal da Tarde. Como resposta ao escândalo, o partido criou uma Comissão Especial de Investigação, presidida por Hélio Bicudo (o homem que derrotou o Esquadrão da Morte). 
Teixeira: maçã podre até no visual

A salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser julgado como corruptor. 

Mexeram-se os pauzinhos e tai decisão foi virada ao avesso, com a punição do militante digno e a condescendência para com seu contrário. O boato que então circulou amplamente foi o de que, caso Teixeira fosse expulso como deveria, o Lula ameaçava sair do PT junto com ele.

Acreditando que sua decisão prevaleceria, a Comissão de Investigação incluiu no relatório final este trecho que acabou soando hilário: 
Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
Fui o único esquerdista a solidarizar-se com o Venceslau em artigo da grande imprensa (o JT), embora houvesse muitos militantes renomados que gostariam de fazer o mesmo, mas preferiram permanecer em cima do muro.

Daí o carinho que tenho por esse episódio em que dei uma pequena amostra do meu valor, por tantos negado durante tanto tempo.

Foi também o instante em que o PT se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar (e revolucionário!!!) para preservar uma maçã podre. 

Mesmo sofrendo perseguições, eu fiz o que era correto, além de ter acertado em cheio na previsão de que a abertura desse precedente escancararia a porteira para o desvirtuamento do PT. 
De resto, o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma delação premiada referente a corrupção. Vinte anos depois, continuavam os mesmos... (
por Celso Lungaretti)
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