sábado, 30 de maio de 2026

NÁUFRAFO DE UTOPIA 2 = MISCELÂNEA

 O ROCK GERMÂNICO NO BRASIL: 
ESTRADA PARA LUGAR NENHUM

O rock n’roll, coroamento de uma longa evolução musical na terra de Tio Sam, dificilmente poderia gerar desdobramentos criativos no continente europeu. No inicio dos '60, entretanto, os jovens músicos ingleses perceberam que havia grande identidade entre o protesto candente do rhythm’ blues e a angústia que eles próprios sentiam. Assim, mergulhando na raiz negra do rock, os Beatles, Stones, Animals, etc., começaram a sua aclimatação na Europa.

A Alemanha não participou sequer dessa evolução. Só foi tocada, mesmo, com a eclosão do rock progressivo. Por quê? Ora, devemos lembrar, antes de mais nada, que a Alemanha e o Japão foram os grandes derrotados da 2ª Guerra Mundial. As feridas custaram a cicatrizar. Ambos se atiraram compulsivamente ao trabalho - os japoneses para exorcizarem os horrores nucleares, os boches para esquecerem os genocídios nazistas - afinal, em seu caso, a humilhação do fracasso somou-se à vergonha pelos crimes contra a humanidade.

Além disso, a Alemanha emergiu do conflito dividida, como um dos palcos principais da guerra Fria. Nena (cantora pop), em 99 Luftballons, dá uma ideia do que significava o muro de Berlim para os germânicos - símbolo tangível da derrota, obstáculo ao congraçamento de irmãos e, pior, farol que iluminava os temores/presságios de uma nova e definitiva contenda entre as potências nucleares (pois é lá que capitalismo e comunismo se encontravam frente a frente; é lá que os riscos eram mais evidentes e que, por várias vezes, parecia estar coneçandoo duelo apocalíptico).

Que tal ser jovem num país que vive em ritmo de usina e se assemelha a um paiol, onde o fósforo aceso descuidadamente pode mandar tudo pelos ares? Os alemães respondem com sua arte: discos e filmes, o que mais nos chega, têm como ponto comum uma frieza de enregelar. 

A sociedade que se adivinha por trás deles é extremamente tecnológica, espantosamente robotizada e miseravelmente desumana. Neles não há piadas. Há uma total falta de perspectivas, mitigada pelas drogas e por remotos sonhos de evasão. A estrada é um símbolo primordial - escapar para longe, onde não existem fronteiras nem muros (vide os filmes de Wim Wenders; vide o LP Autobahn, que popularizou o Kraftwerk).

COMPETITIVIDADE DOENTIAEntende-se então porque os alemães só curtiram o rock dos anos 70, o rock da raiva e do desencanto. Antes havia alegria demais, e todos aqueles projetos de mudança do flower power. Se o psicodelismo assumiu nos EUA e Inglaterra as feições risonhas do paz e amor, na Alemanha tudo foram bad trips. A distância entre ambos é a que vai de Woodstock a Christiane F.

Não por acaso, a primeira leva de expoentes mais notórios do rock alemão veio na esteira dos LPs de 1969 do Pink Floyd e King Crimson (Ummagumma e In The Court of The Crimson King), discos-manifestos do rock progressivo.

Seus atrativos: ofereciam também vias de escape, já não através das prosaicas estradas de asfalto, mas sim pelas lisérgicas rotas do firmamento: e começavam a desvelar o mundo moderno como palco de dominação tecnológica (enfoque familiar aos germânicos, que já haviam vivenciado o sutil totalitarismo da sociedade regida pelo deus computador).

Um dos traços mais característicos do rock progressivo alemão seria exatamente a denúncia da tecnologia. E, bons estrategistas, eles voltariam contra o inimigo as armas do mesmo: abusariam ao extremo da parafernália eletrônica, como a enfatizar a artificialidade do ambiente transfigurado pela tecnologia.
Nunca se ouviu tanto sintetizador, mas também nunca os sintetizadores foram acionados para produzir sons tão desagradáveis: estática, goteiras, serrotes, o diabo. 

Herdeiros de grandes experimentadores como Stockhausen e Kagel, os alemães criariam uma música destinada quase que exclusivamente ao cérebro, e que na melhor das hipóteses servia para embalar viagens por paisagens etéreas -- na maioria dos casos, parece trilha sonora de pesadelos ou de bizarros filmes undergrounds.

São Paulo, julho de 2011.

IDENTIDADE

Em cada encontro
me perco,

em cada palavra
me calo.

Sou eu, ainda?
Sou outro, já?

É o mesmo sangue
na veia
ou borra vermelha?

É a mesma raiva
altaneira
ou pálido esgar?

É o mesmo amor
guerrilheiro
ou tesão outonal?

As ruas não levaram
às praças,
os rios não chegaram
aos mares.

Restamos nós
com a lucidez,
restamos sós
com a altivez,
restamos pós
com a aridez.

A CERTEZA NA FRENTE,
 A  HISTÓRIA NA MÃO.

No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas  setembradas  de 1966, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. 

Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficar! Com  a certeza na frente, tentando tomar  a História na mão, marcaram fortemente sua presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para o mercado.

Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se anti-autoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de  derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim!

E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância.

Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu  corpo cheio de estrelas e tendo  el cielo como bandera.

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.

A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

GLOBALIZAÇÃO DA INSANIDADE - A dificuldade extrema que os estudantes encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição insana que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado.

Então, é tempo de os estudantes começarem a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho, com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.

Desde a onda de ocupações iniciada pela tomada da reitoria da USP em setembro de 2007, passando pela sua reedição em setembro de 2017, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, uma década depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido.

Mas, Zuenir Ventura está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e os arco-íris, depois deste inverno da desesperança que nos foi imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.

O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump agora nos tenta enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.

E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima é encarnada pelas novas gerações, pela juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutar: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.

São Paulo, maio de 2009

POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA   

A última segunda-feira de maio é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007.

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.

Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de vândalos, baderneiros e arruaceiros.]

A diferença mais marcante com relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e rádio livre. De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da Greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres José Serra, nada mais nos U.N.E. (alusão ao tempo em que ele era presidente da UNE) Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma excursão como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas?! Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? [De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as consequências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]

Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público. Até permitem que os faxineiros continuem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o inimigo possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de sem dinheiro. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário. Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. 

São Paulo, maio de 2007

 NO DIA QUE A LIBERDADE
FOI-SE EMBORA

Eu tinha 13 anos em 31 de março de 1964.

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo dê ouro para o bem do Brasil!

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.

Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar tão bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.

De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

E, na preparação do clima para a quartelada, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.

Minha família era kardecista e, quando eu tinha oito, nove anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era extremamente anticatólico.

A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do tempo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas designavam os excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que "no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "senti apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro -- seja o 31 de março do calendário dos tiranos, seja o 1º de abril em que a mentira tomou conta da Nação -- não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual não nos livraríamos por 21 intermináveis anos.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados.

O FILME QUE RESGATOU
 NOSSAS ESPERANÇAS 

Um dos filmes com intenções políticas mais poéticos da história do cinema, Jonas que terá 25 anos no ano 2000  mostra uma Suíça que, em meados da década de 1980, retornara à plena normalidade capitalista, nada restando dos ventos de mudança que sopraram fortes em 1968, com exceção de um ou outro indivíduo isolado que representava alguma faceta das utopias cultivadas pela geração anterior.

Já não existia um projeto coletivo a imantar tais vertentes, mas os pequenos profetas (como o ótimo diretor Alain Tanner  os qualificou em entrevistas) continuavam tentando levar adiante, isoladamente, aquilo em que acreditavam. Eram oito, todos com os nomes iniciados por M (de maio, o mês das barricadas francesas).

Uma teia de circunstâncias inesperadas os vai colocando em contato, até que os oito se reúnem numa única ocasião, congraçando-se na fazenda do personagem que se dedica ao cultivo de vegetais sem contaminação química. É quando almoçam exultantes, numa sequência, belíssima, que simboliza a
Santa Ceia

Bem naquela fase e sob tais auspícios, o casal de fazendeiros gera um filho, que terá o simbólico nome de Jonas. 

A alusão é ao profeta que foi engolido pela baleia mas sobreviveu, assim como o filme acena com a esperança de que a criança sobreviverá à gordura capitalista para, no ano 2000, corporificar uma nova e definitiva síntese dos ideais dos pequenos profetas.

Embora o filme não esclareça como isto se dará, parece destacar sobretudo a via representada pelo personagem Mathieu (São Mateus?), que Rufus interpreta.

Ele quer educar as crianças de forma que não percam sua bondade natural, escapando ilesas aos condicionamentos ideológicos que uma sociedade corrupta lhes tenta impor, mais ou menos como Jean-Jacques Rousseau preconizou em Emílio, ou Da Educação

Hoje, quando as melhores esperanças da humanidade parecem ter ficado para trás, substituídas pelos piores augúrios quanto à própria sobrevivência da nossa espécie, Jonas... é um filme simplesmente obrigatório. 

Até por colocar em questão algo que realmente vale a pena discutirmos: se 1968 foi uma primavera que passou em nossas vidas ou o ensaio geral de uma revolução que ainda chegará. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

HOMENAGEANDO O FLÁVIO BOLSONARO E TODOS OS BONS VASSALOS DO BRASIL

CORINGA
Ser bom vassalo o que é?
Me responda quem souber.

CORO
Ser bom vassalo é esquecer
aquilo que a gente quer,
aquilo pelo que um dia lutamos,
aquilo em nome do qual  
companheiros estimados 
morreram e sofreram.

CORINGA
Só quer ser um bom vassalo,
quem vive seu bom viver,
quem explora e não é explorado,
quem tem tudo pra perder!
(trecho da peça Arena conta Tiradentes    

FLÁVIO BOLSONARO PRESTA VASSALAGEM A DONALD TRUMP: ATÉ QUANDO ESSE CLÃ REPULSIVO ENVERGONHARÁ O BRASIL?

O MORDOMO DA CASA BRANCA

O senador Flávio Bolsonaro empenhou-se em conseguir uma foto ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, com o objetivo de provar, aos que duvidam de sua candidatura no campo da direita, que é forte o bastante para ter acesso à Casa Branca (espécie de Meca dos reacionários de todo o mundo), mesmo sendo apenas um parlamentar brasileiro medíocre. 

Nesse sentido, pouco importa se o encontro durou um minuto ou uma hora, conforme diferentes versões. O que interessa, para o clã Bolsonaro, é que aconteceu e foi registrado numa imagem que pode dar sobrevida a uma candidatura questionada mesmo por alguns dos mais fiéis adeptos do bolsonarismo, graças aos enroscos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista de um dos maiores escândalos da história recente do País.

Dito isso, a imagem vale muito mais do que mil palavras. Fora os fanáticos seguidores de Jair Bolsonaro, ninguém consegue enxergar ali alguém que pretende ser chefe de Estado no Brasil. Pelo contrário: na pose de mordomo da Casa Branca, Flávio transpira subserviência a Trump. Tal comportamento é o exato oposto do que se espera de um presidente da República, que representa o Estado brasileiro nas relações internacionais e, por isso, deve ser sempre altivo.

Mas ali Flávio Bolsonaro não representava o Brasil e, caso seja eleito, continuará sem fazê-lo. O único propósito de Flávio é representar sua família, sobretudo seu pai, hoje em prisão domiciliar em razão de uma tentativa de golpe de Estado. 

Por isso se comportou como um orgulhoso sabujo de Trump: para deixar claro que, uma vez presidente, colocará o Brasil a serviço do trumpismo. 

Coisas assim deveriam horrorizar os bolsonaristas que se dizem patriotas.

Mas o bolsonarismo que Flávio herdou do pai e que tenta manter, de maneira um tanto atabalhoada, não hesita em sacrificar os interesses brasileiros se isso representar a manutenção do poder do clã Bolsonaro. 

Ao lado de Flávio no encontro com Trump estava o irmão Eduardo, certamente o responsável pela visita. Deputado que perdeu o mandato por faltas, Eduardo, autoexilado no Texas, há tempos trabalha para envenenar as relações entre Brasil e EUA com o objetivo de fustigar Trump a intervir aqui em favor de Jair Bolsonaro.

Como se recorda, a traição dos Bolsonaros ao País funcionou num primeiro momento, quando Trump impôs draconianas tarifas comerciais ao Brasil como forma de pressionar o País a rever a condenação de Jair Bolsonaro. Depois, no entanto, o instinto transacional de Trump falou mais alto e ele percebeu que faria melhor negócio se dialogasse com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva – a quem chamou de presidente dinâmico

Mas esse revés não parece ter desanimado a família Bolsonaro, que continua empenhada em envergonhar e prejudicar o Brasil usando suas relações com a extrema direita americana para ter acesso a Trump e usar essa suposta proximidade com o presidente americano como trunfo eleitoral.

Todo esse esforço, contudo, resultou apenas numa foto que rapidamente serviu de matéria-prima para todo tipo de piada nas redes sociais. Não poderia ser diferente, considerando-se que nada a respeito desse encontro deve ser levado a sério, pois só serviu para dar um respiro a Flávio em meio ao escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro. 

Se a campanha de Flávio tivesse produzido a imagem com inteligência artificial, ou se o aflito senador tivesse posado com um Trump de papelão, teria obtido o mesmo resultado e ainda pouparia o dinheiro da viagem a Washington.

Mas Flávio adicionou pilhéria à bazófia.  Considerando-se que o senador mentiu seguidas vezes sobre suas relações com Daniel Vorcaro, é muito difícil acreditar em qualquer coisa que ele diga a respeito do encontro com Trump – ainda mais porque só temos a sua versão sobre a reunião. 

A julgar pelo que ele relatou aos jornalistas pouco depois do encontro, Flávio falou de tudo com o presidente americano, desde terras raras até crime organizado, passando por tarifas e a saúde do pai. E ainda deu dez minutos de lambuja para Trump comentar sobre as obras para o salão de baile na Casa Branca. Já a julgar pelo site da Casa Branca ou pelas redes sociais de Trump, que ignoraram o encontro, a coisa toda se resumiu mesmo à imagem embaraçosa de Flávio. (editorial d'O Estado de S. Paulo de 20/05/2026)

quarta-feira, 27 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/16

Gostaria de deixar como legado, para os que virão depois, o fim da exploração do homem pelo homem. 

Agora; entretanto, me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como o que sonhavam. Nem mesmo algo duradouro. Desde a Comuna de Paris nossas vitórias são temporárias e nossas derrotas, devastadoras. 

Mesmo assim,  não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil. 

Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil  dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, ainda que seja em enorme desigualdade de forças; menos dp que isto seria vergonhoso.

Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha, e até obtivemos êxito em alguns momentos. 

A partir daí, os rompimentos de paradigmas foram se sucedendo:
**  oito jovens, com idades entre 17 e 21 anos, terem partido para a luta armada, exatamente quando os quadros  mais velhos e mais experientes dela se distanciavam, por ter-se tornado quase kamikaze a partir da decretação do ato institucional número 5;
** minha surpreendente designação, aos 18 anos, para a posição de comandante estadual daVPR e meu papel do racha da VPR, iniciado por mim e pelo José Raimundo da Costa (Moisés);
** eu ter resistido a uma proposta de reingresso num partido de esquerda, em meados da década de 1970, desde que desse uma entrevista a jornalistas do Brasil e correspondentes do exterior, relatando as torturas a mim infringidas mas omitindo que a VPR consentira na minha estigmatização, mesmo sabendo que eu sequer conhecia a localização da área 2 de treinamento, estourada pela repressão (ao contrário de muitos outros militantes que aceitaram fazer mea culpa insinceras para serem readmitidos como coitadinhos, esperei  34 anos mas resgatei a verdade e o respeito dos companheiros).

Cedo percebi que, depois de destruída a VPR, não havia mais dirigentes que fizessem questão de que eu fosse mantido como bode expiatório de fatos ocorridos em 1970. O problema era eu não aceitar a infalibilidade dos comandantes. Minha reabilitação implicaria o reconhecimento de uma injustiça dos mandachuvas, ainda que de outra organização, e era isto que os incomodava.

Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando, finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.

Para encurtar a história, conclui então que, até o esmagamento da Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo haviam sido o que Marx sonhara: uma onda revolucionária varrendo o mundo. 

Depois de derrota tão amarga, ingredientes autoritários foram sendo aos poucos acrescentados, até a época atual, quando a esquerda humanista quase desapareceu e as
nomenklaturas brotaram como cogumelos, incapazes de forjar regimes duradouros e sucumbindo, mais dia, menos dia, às armas, ao consumismo e à lavagem cerebral do capitalismo. 

Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo no seu estado terminal de hoje em dia.

Tantos espertinhos á se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então, entre a extrema pobreza e a pobreza em países de renda média, cerca de 44% da população mundial é pobre. Os ricos são aproximadamente 10%.

Há como tornar 44% igual a 10%? É óbvio que não! E, para piorar, é o percentual dos ricos que cresce, não o dos pobres. Então, os exploradores têm um poder de fogo cada vez maior para a preservação de sua condição privilegiada, e não se vexam de utilizá-lo.

Aproximamo-nos de outra grande depressão, que tende a ser mais grave ainda do que a iniciada em 1929 A forma de evitá-la seria colocar o atendimento às necessidades  humanas como prioridade máxima da economia, ao invés do lucro.

Com uma organização diferente da sociedade, hoje é possível proporcionar a cada ser humano o necessário para uma existência digna. Os 
avanços científicos e tecnológicos o possibilitam. 

Mas, como chegarmos a isto se, por exemplo, há canalhas no Brasil que movem céus e terras para evitar a introdução da escala 5x2, já insuficiente e abandonada por vários países?!

A crise do subprime, em 2008, já deveria ter servido para alertar os donos de gado e gente que há um tsunami econômico em gestação. Mas, nada consistente está sendo feito para evitá-lo. 

Pelo contrário, o presidente estadunidense Donald Trump torna o mundo cada vez mais desigual e desumano, revivendo as práticas mais sórdidas do capitalismo selvagem, afora esforçar-se em estimular a arrogante imposição da vontade dos países mais forte sobre as nações mais fracos. 

Mas, desde a crise dos mísseis cubanos em 1962, parece afastada a hipótese de extermínio da espécie humana devido a uma guerra nuclear, como se houvesse um acordo de cavalheiros no sentido de os países mais poderosos não guerrearem entre si com força total. Quanto muito mandam tropas para ajudarem os mais fracos que entram em confronto com os mais fortes.

Mesmo Trump, a despeito de toda palhaçada, recua quando a situação começa a tornar-se perigosa demais. Não passa de um fanfarrão copiando os blefes de Adolf Hitler na década de 1930.

Uma hipótese mais viável é a de que, como tem acontecido quando há oferta excessiva e insuficiente procura, pipoquem guerras destinadas não a suprimir a espécie humana como um todo, mas sim o excesso de pessoas em situação de miserabilidade impedindo o bom funcionamento da economia capitalista.

Quem abandona a África à fome e às pestes é capaz de tudo.  (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 25 de maio de 2026

ALÉM DE FABRICAR QUEIJO E CHOCOLATE, A SUÍÇA AGORA PRODUZ NEONAZISTAS

rui martins
A SUÍÇA QUER FECHAR AS PORTAS
Dia 14 de junho, o povo decidirá por voto secreto se a Suíça deve limitar sua população a 10 milhões de habitantes. 

Tal votação foi provocada pelo partido da extrema direita, UDC, com o objetivo de impedir a entrada de novos imigrantes na Suíça. A sondagem mais recente mostra uma pequena vantagem dos conservadores favoráveis a um limite da população.

A Suíça é um raro país governado pela democracia direta. Isso significa a possibilidade dos suíços proporem modificações nas leis do país nas esferas municipais, cantonais ou estaduais e federais. Não é fácil, mas diversas leis vigentes tiveram sua origem por iniciativa popular, aprovada pela maioria dos votantes em todos os cantões.

Desde sua criação em 1891, já houve mais de 200 iniciativas federais propondo modificações na Constituição suíça, das quais 26 foram aprovadas e entraram em vigor.  

A mais recente foi a criação e aprovação pelo povo, em 2024, de um décimo terceiro pagamento anual para os aposentados. Nisto o Brasil antecipou a Suíça em 61 anos, pois o décimo-terceiro salário brasileiro foi criado em 1962, incluindo também a aposentadoria em 1963, no governo João Goulart.

Existe hoje na Suíça uma preocupação com as consequências negativas, caso a iniciativa popular prevaleça, com o
Não a uma Suíça de 10 milhões sendo aprovado pelo povo.

Experiências parecidas, vividas por outros países, reforçam as más previsões econômicas para uma Suíça de fronteiras fechadas. Mesmo porque a dita cuja seria obrigada a romper compromissos e tratados com a União Europeia garantindo a livre circulação de pessoas.

O primeiro-ministro inglês Keir Starmer, após sua derrota eleitoral no mês passado, reconhecia os prejuízos da política isolacionista do Brexit e falava numa reaproximação com a União Europeia, embora evitasse tocar num retorno com anulação do brexit pelas complicações políticas e econômicas decorrentes.

Na verdade, o brexit foi um tiro no pé, mas a União Europeia não acredita num breturn depois da vitória, nas eleições municipais, do partido Reform UK, de Nigel Farage, o arquiteto do brexit, juntamente com Boris Johnson e David Cameron. 

Um swissexit, provocado por um voto popular suíço isolacionista, não teria o mesmo efeito negativo do referendo brexit?

Outro exemplo de contenção do aumento da população foi o da
política do filho único na China, de 1979 a 2015, com o objetivo de garantir o desenvolvimento chinês. 
Uma iniciativa popular pode jogar no lixo esta bandeira...

Isto acabou criando um desequilíbrio de gênero na China, pois a maioria dos casais, obrigados a ter um só filho, preferia ter menino.

A população foi se tornando idosa sem ser gradativamente substituída por jovens, isso que gerou uma diminuição da força de trabalho.

Desde 2021 os casais podem ter três filhos, mas agora são eles mesmos que decidem ter um ou dois filhos provocando baixa taxa de natalidade e um desequilíbrio demográfico.

Para complicar ainda mais a situação, a China enfrenta uma explosão de casos de demência (síndrome designativa de funções cognitivas que incluem o Alzheimer) na sua enorme população de idosos. 

Sem esquecer da falta de cuidadores dentro da família chinesa para zelar pelos avós e pais envelhecidos. A política do filho único criou para os jovens a responsabilidade de assumir, durante a vida, os cuidados dos quatro avós e dos dois pais.
...substituindo-a por esta. As cores se parecem

O cronista Yves Petignat, do jornal suíço Le Temps, destaca o paradoxo de que o partido UDC, autor da iniciativa popular, tem sua força justamente na Suíça rural, longe dos centros urbanos, onde a população está envelhecendo, existe desequilíbrio demográfico e a maioria dos jovens prefere ir viver nos .centros urbanos. 
(por Rui Martins)  
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