terça-feira, 12 de maio de 2026

GOLPE DO BANCO MASTER VAI ACABAR EM PIZZA COMO O DA BOI GORDO?

 Megafazenda da Boi Gordo no
Mato Grosso: o princípio do fim.
 

O golpe do Banco Master terminará em pizza e Daniel Bueno Vorcaro vai rir da nossa cara, enquanto estiver tomando seu uísque à beira-mar de um resort de renome, curtido só por milionários?

Ao seu lado, poderá estar gargalhando até do nosso Judiciário um de seus prováveis inspiradores, Paulo Roberto de Andrade, famoso por um golpe de mais de 2,5 bilhões, não em ministros, políticos e bancos, mas em 34 mil pequenos investidores da classe média.

Segundo o professor Marcos Assi, na revista Exame, o golpe do Banco Master tem uma diferença marcante: os maiores lesados não foram apenas pequenos e médios investidores, mas fundos de pensão, municípios, Estados e empresas de capital aberto, com envolvimento direto ou indireto de políticos e até de importantes juristas, num total astronômico calculado em 10 bilhões de dólares.

O trambiqueiro Paulo Roberto de Andrade (foto à esquerda), criador e gestor da pirâmide ou safadeza das Fazendas Reunidas Boi Gordo nunca foi preso, graças a um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal de Justiça. Depois da programada delação, Daniel Vorcaro também sairá livre e poderá comemorar com os amigos que viajavam no seu avião?

Mais de vinte anos depois da falência da Boi Gordo, a Justiça se arrasta na venda das fazendas tomadas de Andrade, cujo total serviria para indenizar parcialmente os investidores lesados. O pessimismo é do advogado de muitos dos lesados, Aurélio de Almeida Paiva.

E, embora grande parte dos investidores tenha enviado seus investimentos em dólares para Miami, até hoje a Justiça brasileira, encarregada da falência, não pediu aos Estados Unidos o retorno total desses recursos ao Brasil.

Diante do escândalo do Banco Master, lembrei-me de um artigo sobre a falência da Boi Gordo que escrevi em 2009, com descrença e pessimismo na Justiça brasileira, bem evidente já no título: Dono da Boi Gordo rico, feliz e livre.

O empresário Paulo Roberto de Andrade tinha sido processado por crime falimentar e condenado a três anos de prisão pela 13ª Vara Criminal de São Paulo. Mas seu advogado entrou com um habeas corpus para Andrade aguardar em liberdade o fim do processo. E o ministro Og Fernandes, da 6ª Turma do STJ, concedeu a liminar alegando que o TJ paulista não podia determinar a prisão antes do trânsito em julgado da sentença.

Enfim, o STJ anulou a ação penal contra Andrade e reconheceu a prescrição do processo. Mas acrescentou um parágrafo elucidativo, segundo o promotor Eronildes Rodrigues dos Santos, da Vara de Falências de São Paulo: 
É a pizza. Fazer o quê? Lamento a anulação de um caso emblemático como esse. Houve um golpe, milhares de pessoas foram lesadas e não haverá responsabilização penal
É o cowboy fora da lei cantado pelo Raulzito?
Procurado. o ministro Nilson Naves, responsável pela decisão do STJ, está ocupado e não tinha tempo para atender.

Vai ser assim com Daniel Vorcaro? Quem viver verá! 

A lei, ora a lei, dizia  Getúlio Vargas. (por Rui Martins)

domingo, 10 de maio de 2026

HOJE É O DIA EM QUE AS MÃES SÃO USADAS PARA ALAVANCAR VENDAS E ENDINHEIRAR OS SALAFRÁRIOS DO CAPITALISMO

O Brasil, com sua industrialização tardia, foi poupado do pesadelo em que se constituiu a criação da infra-estrutura básica do capitalismo na Europa, com destaque para o trabalho massacrante nas minas de carvão inglesas, em que mulheres e crianças cumpriam jornadas às vezes superiores a 14 horas diárias!

Em nosso país, até a década de 1960 os homens da casa (o pai e os filhos, estes pegando no batente tão logo atingiam a idade de 14 anos) geralmente obtinham remuneração suficiente para o sustento, mesmo que precário, da família.

Foi quando os avanços no processo produtivo, tornando cada vez mais desnecessária a força física para a maioria dos desempenhos, possibilitaram o ingresso em massa das mulheres no mercado de trabalho.

O chamariz do consumo e a perspectiva de serem donas dos próprios narizes (sem se darem conta de que estavam apenas trocando o mandonismo do marido pela tirania impessoal do sistema) levaram as mulheres a disputarem entusiasticamente posições com suas iguais e com os próprios homens, mesmo recebendo paga inferior à deles pelas mesmas funções. Como consequência desse aumento exagerado da oferta da mão-de-obra, as remunerações de todos foram aviltadas.

As famílias de classe média, principalmente, passaram a depender do trabalho dos dois cônjuges para manter seu padrão de vida. Ficaram em cacos, com pais fatigados demais para cumprirem realmente seu papel e crianças crescendo aos cuidados de terceiros. O resultado são os jovens problemáticos, egoístas e imaturos de hoje em dia.
Nestes tempos em que as mulheres veem a si próprias mais como profissionais do que como mães, paradoxalmente, o Dia das Mães é festejado como nunca. Mas, também aí prevalecem os malfadados interesses monetários, a necessidade que o sistema tem de datas festivas que alavanquem as vendas.

Então, o grande exemplo a ser lembrado nesta data é o de Anna Jarvis, estadunidense que batalhou incessantemente para que fosse instituído um dia de homenagem a todas as mães, vivas ou mortas, visando fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.

O governador do seu estado, a Virgínia Ocidental, acabou oficializando essa celebração em 1910, no que foi logo imitado por congêneres, até que o presidente Woodrow Wilson unificou em 1914 as várias datas estipuladas, fixando o Dia Nacional das Mães no segundo domingo de maio.

Os comerciantes se atiraram sofregamente à exploração do lucrativo filão, horrorizando Ana Jarvis, que desabafou em 1923 para um repórter: Não criei o Dia das Mães para ter lucro. No mesmo ano ela tentou cancelar a celebração por meio de uma ação judicial, inutilmente.

E teve sorte de morrer antes que o desvirtuamento do Dia das Mães se tornasse avassalador na atual sociedade de consumo. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 9 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/10

No início de abril finalmente foi relaxada a última das minhas prisões preventivas por haver militado na VPR e na VAR-Palmares, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Um dos juízes auditores considerou desnecessária a medida., os outros três seguiram a diretriz oficial.

Mas eu me encontrava lá para sofrer e continuaria sofrendo até o momento de recuperar a minha liberdade. Estava no DOI-Codi/SP e, certo dia, me mandaram juntar a tralha que tinha, pouca coisa, e ir esperar a soltura na entrada daquela unidade. 

Passei uma tarde inteira no que seria um estacionamento, vendo viaturas chegarem e partirem, à espera do fim do pesadelo. Em vão. No final da tarde me encaminharam de novo para a cela, porque faltava resolverem algum detalhe burocrático.

Dia seguinte, a mesma coisa. Mas, depois da algumas horas, fui finalmente libertado. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, sem a mínima ideia do que faria dali em diante. 

Decidi-me pelo vestibular de jornalismo e comecei a fazer o cursinho que levava um semestre. Mas, no meu primeiro julgamento, fui sentenciado a seis meses de prisão e o juiz não quis aceitar que o tempo já havia sido cumprido nas prisões preventivas. Argumentou que não fora ele quem as decretara. 
Voltei para o DOI-Codi/RJ, tendo de aguentar as piadas sem graça dos torturadores, tipo o bom filho à casa torna.  

De quebra, estava livre das torturas, mas obrigado a escutar os berros de presos sendo torturados, móveis tombando ou sendo arrastados, gritos dos algozes para amedrontá-los, etc. Não há palavras para relatar quanto me machucou ter retornado àquele local maldito.

Depois de umas duas semanas o advogado consegui dobrar o juiz teimoso e voltei para a rua. Curiosamente, entre a prisão e o repique, acabei totalizando um ano exato de encarceramento.

Retomei o cursinho, sendo aprovado na ECA-USP e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria  se tornando a minha primeira esposa.  E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.

Estavam prestes a se formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.

Sem grana nem vontade de fazer análise, a comuna foi minha salvação. Acabei exorcizando sozinho meus fantasmas, mas vivendo novamente em grupo, num momento em que a bestialidade da ditadura grassava solta. Passei pelas experiências que me faziam falta, como ter um amor incandescente com uma das meninas, a V.

Quando ela viajou a Minas Gerais para visitar os pais e decidiu ficar por lá, fui atrás quase sem grana, numa última tentativa de convencê-la a mudar seus planos. João, meu melhor amigo naquela comunidade, fez questão de ir junto, temendo algum descontrole da minha parte. Fomos de carona em caminhões e voltamos com um empréstimo do pai dela, após passarmos uma tarde inteira tentando, em vão, descolar uma carona.

Depois de passar vários meses sendo sustentado pelos companheiros da comunidade que tinham emprego, quando eles ficaram desempregados praticamente o aquele que foi o primeiro de uma longa lista 
em assessoria de imprensa, suficiente para pagar sozinho o aluguel do casarão.

Como principal tarefa, eu fazia a divulgação do primeiro congresso de mastologia que teria lugar no Brasil. Mas a diretora de relações pública e a diretora de congressos e convenções competiam pelo dono da empresa, então a minha chefe me colocou sozinho para fazer o trabalho de umas três pessoas, exatamente para que eu fracassass: 
-- saber o que rolava nas várias sessões, 
-- escrever sobre o que surgisse de interessante, 
--receber jornalistas e colocá-los em contato com quem pudesse falar sobre o tema por eles escolhido,
-- redigir os press-releases, tirar cópias, envelopá-los, encaminhá-los.

Foi a primeira vez em que a minha tenacidade foi testada. Fazendo das tripas, coração, cumpri todas as funções e tive o faro jornalístico de perceber a importância do discurso do ministro da Saúde na abertura dos trabalhos. Trouxe dados comprovando que o câncer de mama, do qual pouco se falava, era um grave problema no Brasil. 

Praticamente arranquei da mão dele o discurso que acabara de pronunciar e do qual não havia trazido cópia. Fiz uma apresentação de umas 10 linhas e enviei a íntegra discurso para a imprensa do País inteiro. Saiu como água, inclusive sendo manchete do dia de jornais importantes.

Mal sabia que estava inaugurando uma prática que muitas vezes repetiria depois, tanto profissionalmente quanto nas batalhas idealistas.  No lançamento do meu livro, um dos críticos escreveu (no bom sentido) que eu era um homem muito teimoso. E era mesmo.

Como quase todos nessas comunidades, experimentei as drogas. A maconha e os remédios que davam barato (como o Artane) não me entusiasmaram, mas o LSD sim. Não pelo início da
viagem, que chegava a ser desagradável, mas pelo seu final. 

Conforme o efeito ia passando, eu sentia uma calmaria extrema, como se fosse um espírito observando a faina insensata dos vivos. Anotava a esmo o que me vinha à cabeça e mais tarde transformava os apontamentos em poesias, algumas boas, outras más. 

Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.

Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma revivi o drama histórico de Stálin contra Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade.

Finalmente, uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. 

Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. 

A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.

A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, da qual me reaproximara. 

Esgotado pelo frenesi em que levara a minha vida nos últimos anos, decidi conceder-me o repouso do guerreiro. 

Desinteressei-me da realidade sufocante da ditadura, que grassava lá fora, e passei a me restringir  ao aqui dentro da minha toca, dividindo a existência entre o trabalho alienado durante o dia e, á noite, os rocks de terceira geração que preferia: King Crimson, Pink Floyd, Yes, Focus, Genesis, Moody Blues, etc.

Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha muitas páginas a escrever no livro da vida. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O MOVIMENTO ESTUDANTIL ERGUE-SE CONTRA O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Para matar as saudades das ocupações estudantis de 1968 e da tomada da reitoria da USP em maio de 2007, republico abaixo minhas impressões de quando visitei a segunda. Já com 56 anos, fiz questão de levar  minha solidariedade à moçada que ficou lá por 50 dias e acabou sendo vitoriosa contra a truculência policial e fulminando os quatro decretos autoritários do governador José Serra.

Gostaria de estar publicando aqui um texto sobre a ocupação atual, mas as pernas não me ajudam.

Transmito, ainda assim, meu abraço aos que vieram depois mas honram a combatividade de minha geração, a de 1968. 

Um dos maiores orgulhos da minha vida é ter-me mantido fiel à opção revolucionária que fiz entre dezembro de 1967 e janeiro de 1968.  Muitos da minha geração abandonaram os seus ideais e foram enriquecer ou empoderar-se. 

Lamento por eles, mas tomo a liberdade de citar-lhes  Marcos 8:36: de que vale alguém ganhar o mundo inteiro se perder a sua almaMemória não morrerá. (CL) 
POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA
A última segunda-feira de maio [dia 28] é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.
Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de vândalos, baderneiros e arruaceiros.]

A diferença mais marcante com relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e rádio livre

De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.
Aqui foi travada a batalha da Maria Antônia

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres José Serra, nada mais nos UNE. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma excursão como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? 

[De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as consequências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]
Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público. 

Até permitem que os faxineiros continuassem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o inimigo possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de sem dinheiro. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário.
José Serra, ex-presidente da UNE. Pode?

Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MAIO É UM BOM MÊS PARA LEMBRARMOS O LIBERTÁRIO 1968 FRANCÊS

Não existe unanimidade quanto ao dia em que começou a chamada Primavera de Parismas um certo consenso quanto às manifestações unicamente estudantis terem se iniciado em 2 de maio de 1968; se avolumado com a entrada de outros segmentos na semana seguinte; e erguido barricadas no dia 10.

São acontecimentos de 58 anos atrás, mas nossa história começa ainda mais longe, em 1871, ano da Comuna de Paris.

O avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

ancién régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
A liberdade guiando o povo (versão 68)
Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de 
quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista.

Necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.

Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. 

Em momentos críticos, poucos são os militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes. 
Esses poucos, contudo, pesam bem mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central.

O certo é que a União Soviética foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 
— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;
— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;
— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
 Invasão da Tchecoslováquia desiludiu socialistas do mundo inteiro
— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a URSS  tendo de, em 1918/1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, do Judiciário ou do Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.

Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando o século atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. 

Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. 

Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como em 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com o Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados mais de meio século depois, por que não? (por Celso Lungaretti)  

quarta-feira, 6 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 9)

Quando eu me encontrava preso
na cela de uma cadeia
foi que eu vi pela primeira vez
as tais fotografias
em que apareces inteira.
Porém lá não estavas nua
e sim coberta de nuvens
Caetano Veloso/Terra, música que
 compôs na solitária do DOI-Codi/RJ,
pela qual eu também logo passaria

Eu contava os dias transcorridos desde que eu havia sido preso. Não posso precisar exatamente quando quebraram a minha incomunicabilidade, mas tinham se passado dois meses e meio. 
.
Na Lei de Segurança Nacional que eles próprios  inventaram, os militares limitaram a fase operacional (sem visitas de parentes nem de advogados) a 30 dias. Ou seja, eles próprios desrespeitavam as regras do jogo que impunham pela força.

Meus pais puderam enfim me visitar. Ficaram estarrecidos com minha magreza; perdera uns 30 quilos. Mais tarde me disseram que eu estava parecendo os esqueléticos prisioneiros soltos dos campos de extermínio nazistas.

De lá até a libertação eu estaria salvo das torturas, a menos que algum companheiro recém preso lhes dissesse que eu conhecia uma informação importante. Não foi o caso.

O desafio para mim passou a ser o de suportar dias e mais dias sem nada para fazer. Procurava esticar as minhas lembranças o máximo que conseguia. Cada hora que passava era uma hora ganha contra a depressão que me assediava,

Hoje me recordo mais da fase operacional do que desse período intermediário, no qual as novidades eram apenas a de ser levado a São Paulo para comparecer às audiências nas auditorias militares e ser devolvido para o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, eu permanecia até que os milicos tivessem outro companheiro para enviar ao Rio de Janeiro. Então, me mantinham ou na sede do DOI-Codi ou no quartel da Polícia do Exército.

Do quartel, uma das minhas principais lembranças é a de que, quando estava sendo transportado para alguma das duas auditorias da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, o carro ficou preso num congestionamento exatamente diante de uma banca de jornais. 

Nela estava exposto para os transeuntes um que destacava a morte de mais integrantes do Movimento Revolucionário Tiradentes que supostamente tinham reagido à prisão.

O oficial que comandava o destacamento disse que eu tinha sorte de haver sido preso no semestre anterior, caso contrário  dificilmente escaparia com vida. Era o que eu deduzira da sequência de óbitos dos militantes do MRT. Mas serviu como confirmação de que havia prisioneiros sendo executados já no segundo semestre de 1970. Depois a prática se generalizou.

Quando cheguei pela primeira vez na central de torturas paulista, quem a comandava era o coronel Audir Santos Maciel, antecessor do coronel Brilhante Ustra. O Santos Maciel me recebeu dizendo de imediato que eu poderia ficar tranquilo, pois era prisioneiro do DOI-Codi/RJ, que proibira torturas contra mim (provavelmente por ainda temer que eu infartasse).

Mas fez questão de me conduzir num tour por aquele local maldito. Percebi que ele queria era me mostrar o trono do dragão, uma cadeira metálica na qual os prisioneiros eram atados para receber choques.  Irônico, disse algo na linha de olha aí do que você escapou

Recriminou-me, brincalhão sem graça, por ter ido ser preso no Rio de Janeiro, depois de todo esforço que seu órgão fizera para me agarrar. Inclusive, sabendo que eu frequentava a Biblioteca Central, designou agentes para me esperarem lá. Terão aproveitado para ler algum livro? Duvido,

Mas, fiquei desolado ao saber exatamente quem dera tal informação para o inimigo, ajudando-o a me perseguir. Tratava-se de  um dos integrantes da minha base secundarista 

Outra recordação marcante foi a de que dois prisioneiros cuja libertação já estava decidida concordaram em levar mensagem para meus pais, que sabiam da minha saída da Vila Militar, mas foram mantidos na ignorância de para onde eu fora transferido.

Até duvidei de que eles, após passarem por aquele inferno, arriscassem sua liberdade para me fazerem tal favor. No entanto, meu pai contou que haviam cumprido o prometido, visivelmente assustados, mas com muita coragem.

Também lembro com enorme respeito dos recrutas que, mesmo escutando os urros dos companheiros torturados, ousavam trazer-me sobras das refeições quando eu mais precisava desses reforços para ir recuperando o peso perdido. Não o faziam por convicções revolucionárias, apenas por compaixão.

No DOI-Codi paulista era pouco o espaço livre, daí terem amiúde  me colocado na mesma cela de prisioneiros ainda submetidos à tortura. 

Era muito deprimente eu ouvir os gritos lancinantes de quando levavam choques, insuportáveis, apesar da distância que existia entre as celas no térreo e as torturas no primeiro andar. 

Certa vez o coronel Brilhante Ustra mentiu que nunca havia escutado os ruídos da pancadaria e os berros dos torturados. Respondi que isto só seria possível se ele fosse surdo, pois aquela barulhada se ouvia até na rua.  

Lá fiquei conhecendo a triste história do sargento Kogi Kondo, cuja cela ficava próxima da minha. Ouvia os oficiais indo até as celas para xingá-lo de covarde e vergonha da farda, então perguntei qual era o motivo desse tratamento.

O pobre coitado era da Intendência e levava víveres e munição para as tropas durante o cerco de Registro, quando o veículo foi dominado pelos companheiros fugitivos e os militares tiveram de ceder suas fardas. 
Eu estava só com  recos  [recrutas] inexperientes. Os terroristas nos renderam, obrigando-nos a transportá-los, no nosso caminhão, para fora do cerco. Disseram que nos matariam se não colaborássemos. Então, passamos as barreiras calados, sim. É graças a isso que estou vivo. Prefiro aguentar ofensas e zombarias do que morrer.
Acabou servindo, claro, como o principal bode expiatório do fiasco da operação que mobilizou inutilmente quase três milhares de militares. O sargento ficou preso por algum tempo e depois o libertaram, expulsando-o do Exército.
Já no DOI-Codi/RJ, nauseava-me  escutar o relato das indignidades a que eles haviam submetido Caetano Veloso e Gilberto Gil. Não lhes perdoavam a fragilidade, comparada ao comportamento mais firme dos militantes. E se orgulhavam, p. ex., de terem arrancado lágrimas de um deles ao tosar-lhe a cabeleira com máquina zero, por pura maldade.

Levando uma rotina tediosa, velhos sargentos adoravam ter os subalternos e nós presos como ouvintes compulsórios de seus  causos  e bravatas.

Um deles contou que a PE/RJ estava incumbida do policiamento do bairro em que se localizava a Vila Militar. Então, ao prender um estuprador de menores, o matou batendo nas solas dos seus pés com uma palmatória e obrigando-o a correr. 

Após tal procedimento ser repetido várias vezes, ele teria expirado. Eu nunca consegui confirmar se uma pessoa poderia ou não ser executada dessa maneira,

Por último, um episódio pitoresco. Cumprindo sua missão de policiar a área de Deodoro, na véspera de uma data festiva qualquer os bravos soldados aprisionaram perigosas... prostitutas. Duas ou três dezenas delas foram trazidas para onde estavam nossas celas. 

Então ouvi uma boa alma propondo que alguma delas fosse colocada na minha cela e o sargento respondendo que seria arriscado. Caso eu contraísse uma doença venérea, como iriam explicar isso para os oficiais? (por Celso Lungaretti)

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