De 1979 a 1984 trabalhei em revistas de cinema e de música, quando fiquei conhecendo profissionalmente boa parte dos que atuavam em ambas as frentes. Mas houve apenas três nos quais o relacionamento se tornou mais profundo.Três meses depois, diante da Faculdade de Filosofia,
seria travada a batalha da rua Maria Antônia
O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia para se discuti como o movimento estudantil daria seu poio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numerosos contingentes de policiais militares).
Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia que, como era frequente naquela época, não se iniciaria na hora marcada. Foi quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.
Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar?/ Quando é que vai se acabar?
A partir daí comprei um o último dos seus elepês, passei a acompanhar suas aparições na TV e torci por ele nos grandes festivais de MPB. Os companheiros que estavam comigo também gostavam de suas composições, embora com menos intensidade.
Vendo-o naquela saia justa, o mais velho de nós, o Diego Perez Hellin, o convenceu a ir conosco oo bar da esquina para tomar umas cervejas. Seria uma saída honrosa para ele, ao invés de retirar-se como um cão escorraçado.
Por que estava sendo desprezado daquela maneira? É que no recente primeiro de maio, o PCB convencera o governador Abreu Sodré a participar da comemoração do Dia do Trabalhador, mas os partidos e organizações mais à esquerda o apedrejaram tão logo tomou a palavra. Alguém o acertou e um filete de sangue escorria da testa do governador.
Então o Vandré, surpreendentemente, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do artista, os universitários passaram a xingá-lo de traíra.
Bem mais tarde, um amigo confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão.
O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando.
Ou seja, por um destino insólito ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.
Quando a Caminhando (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas.
Nem eu poderia divulgar o episódio como merecia, pois, além do receio de ser novamente preso, construíra uma reputaçãozinha como crítico de rock e não tinha cacife para publicar na grande imprensa algo tão polêmico.
Quando a abertura ampla, geral e irrestrita do ditador Geisel estava no auge, a Caminhando foi liberada e a cantora Simone a relançou em dezembro de 1979. Levei ao Vandré a proposta de escrever algo sobre ele para um pacote de revistas importantes e ele respondeu que, como não tinha disco para lançar, não tinha motivo para aparecer na imprensa. Mas acabamos conversando, novamente por duas ou três horas, no apartamento da rua Martins Fontes em que ele morava havia muito tempo.
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (e cumpriu, indo apresentar-se no Paraguai, nas proximidades da fronteira com o Brasil);
Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania.
Mas, quando o Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equil´brio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos negando tal hipótese.
Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes. O que terá acontecido nesses 58 dias de incomunicabilidade?
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Com o Raul Seixas mantive um relacionamento fugaz, mas pitoresco. Eu tinha passado batido pelo lançamento, em julho de 1973, do seu primeiro e melhor disco, Krig-ha Bandolo! Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.
Com a abertura ampla, geral e irrestrita do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente o fiquei conhecendo. E, ao escutar Raul Seixas interpretando Cachorro urubu, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby, a gente ainda nem começou.
Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.
Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.
O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isto que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar).
Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade careta e detestável.
Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.
Recordo também quando disse que ele e o Paulo Coelho, antes do sucesso, traduziam para próprio uso os livros de bruxos famosos, como o Aleister Crowley. Ambos aproveitaram de forma diferente tais ensinamentos: o Raul com a sociedade alternativa e o Paulo com suas lorotas sobre ser um mago.
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Finalmente, fiz uma entrevista adequada com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar a ditadura militar e a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.
Na hora de ir embora, mesmo com dificuldade para andar e corcunda por causa de um atentado terrorista que sofrera em qualquer país latino-americano (não disse qual), ele se levantou para acompanhar-me até o portão.
Tentei dissuadi-lo, porque era uma caminhada longa do gabinete dele até a saída do mosteiro de São Francisco. Não adiantou.
Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro. (por Celso Lungaretti)