Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola
Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"
(B. Marques/D. Bezerra)
Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde d'água fria no nosso ânimo. Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por já estar disputando seu quarto Mundial consecutivo (acabaria fechando a conta em cinco).
| Pelé fora de combate |
Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.
Zagallo cruzou rasteiro para Amarildo empagar.
Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa descomunal, depois de rebater um cruzamento, dividindo a bola com um avante espanhol.
Parêntesis 1: o ponta-esquerda Gento não só era um fora de de série como tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.
Parêntesis 2: também errou a arbitragem de Brasil x Espanha, ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.
Só bem mais tarde vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, dois anos antes do Mundial, mas o dirigente Carlos Dittborn conseguira evitar a mudança de sede, pronunciando então tal frase, que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, reerguer tudo em tempo hábil.
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Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de servir um companheiro!
Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Em mais uma jogada genial daquele que vinha sendo desde o início o melhor atacante brasileiro, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico em direção à segunda trave, onde Amarildo, desmarcado, esperava para cabecear. O possesso nem precisou pular. 2x1
Apesar do folclore, Garrincha era simplório, mas estava longe de ser um retardado ou desmiolado. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.
Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e com a perna esquerda, que geralmente só lhe servia de apoio, acertou um chute perfeito, no ângulo. [Ele fazia suas diabruras também com a perna esquerda, seis centímetros mais curta!]
De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.
Parêntesis 5: o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencial ou premeditadamente, não entregou a súmula em tempo, Garrincha escapou da suspensão e pôde disputar a final.
A Tchecoslováquia, com seu bem montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, desta vez, lhe seria madrasta.
A Tchecoslováquia, com seu bem montado esquema de formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, desta vez, lhe seria madrasta.
Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), ambos surgindo como elementos-surpresa, marcaram.
Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol (1x1) que fizera.
E o empolgante Djalma Santos alçou a bola sem maiores pretensões para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.
Parêntesis 6: chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62.
Sob a conturbada liderança dos cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só entraram no clima do já ganhou!, como deixaram que ele contagiasse os jogadores.
Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado e faltoso zagueiro Bigode que não abrisse a caixa de ferramentas na final, pois o mundo inteiro estaria olhando. Com Bigode domesticado, o hábil ponta Gighia fez a festa, levando o Uruguai à vitória.
E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva , contra a Hungria, que era realmente melhor.
Aí assumiu Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa no quesito motivação dos jogadores.
| O marechal: um raro dirigente estimado pelos jogadores |
P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal da vitória o levou ao bar e, para surpresa do jogador, pediu duas pingas.
Didi hesitou, mas o velho disse: Comigo você pode. Bebe!
Copo do craque vazio, ele foi além: Beba a minha também!.
Finalmente: Agora, vá à luta e arrebenta! Nós precisamos de você. Assim era o homem.
Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.
O comandante vitorioso só disparou uma frase: Engoliu mais essa, Pedro Luís?
O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.
Em vão: tinha ido a nocaute e, como os pugilistas sonados, não se dera conta disto. (por Celso Lungaretti)
