A entrada no novo milênio me fez sentir uma necessidade imperiosa de construir uma vida diferente. Minha primeira esposa sofrera uma grande desilusão (não por minha causa) e, quando eu chegava do trabalho a encontrava sempre assistindo à TV no nosso quarto de dormir. Ela não ligava para mais nada.
Eu percebi que não aguentaria por muito tempo tais marasmo e prostração, mas não sabia como ajudá-la. A opção era ser tragado por aquele abismo sem fundo ou me salvar sozinho.
A virada de milênio acrescentou a peça que faltava no quebra-cabeças: resolvi ser pai biológico. Por que uma mudança dessas da noite para o dia? Ignoro. Talvez ter-me tornado cinquentão quando havia aquele clima todo de um novo tempo.
O certo é que nós havíamos adotado uma nenê, fizemos tudo que podíamos para ela ter um bom futuro, mas aos 15 anos ela se tornou mãe. Ficara seduzida pelo modo de vida dos jovens que frequentavam a pracinha defronte o nosso prédio, na linha do seja marginal, seja herói. Em questão de um mês sua cabeça mudou para sempre.
| Marcello Lavenère, autor do impeachment do Collor, presidia a Comissão de Anistia |
Acabamos tendo a filha por mim sonhada, mas minha felicidade durou os 21 meses em que moramos juntos. Nossa separação foi um dos piores episódios pelo qual passei. Fiquei arrasado.
Sem que eu pretendesse, enquanto ainda estava lambendo as feridas, conheci outra moça que me quis como parceiro. Mas, a mudança de vida me deixara com pouca grana e para piorar, o mercado jornalístico estava em crise e logo fiquei desempregado. Os quase três anos seguintes foram um pesadelo.
A minha ex resolveu me processar, embora eu não tivesse as mais remotas condições de pagar-lhe pensão. Mas um juiz desatinado, sem eu saber que o processo estava rolando, me condenou à prisão. O argumento da minha ex foi de que um jornalista conhecido como eu deveria estar ganhando grana com frilas. Não apresentou prova nenhuma do seu palpite.
Foi o momento em que eu mais estive tentado a partir para o tudo ou nada. Se realmente me viessem prender, reagiria entrando imediatamente em greve de fome, e fosse o que o destino quisesse. Mas, sabe-se lá o motivo, não vieram.
Desde minha prisão em 1970 eu tinha a estranha sina de chegar à beira do precipício, mas algo me impedir de cair. Aconteceu de novo. Um velho amigo ressurgiu e me emprestou o necessário para eu e a minha namorada atravessarmos o temporal.
E a dona da imobiliária que cuidava do aluguel de nosso precário apê fez algo raríssimo na sua profissão: convenceu a proprietária a dar-me mais tempo antes da ação de despejo. Cheguei a ficar devendo três meses de aluguel.
Nessa fase, estava recebendo apoio legal de um conhecido que não estava à altura da gravidade da minha situação, mas fez o possível, morrendo de medo de que, por falha dele, eu acabasse preso.
E foi ele que me contou que a estava sendo criada a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que era sob medida para um ex-preso político com tímpano estourado nas torturas.
Só que a audiência em que meu caso seria apreciado nunca chegava, Verifiquei as regras do programa e vi que o primeiro critério para a marcação de julgamentos era a condição de desempregado.
Por sorte, eu havia comunicado à Comissão a perda do meu emprego, então pela primeira vez acreditei que o milagre estava próximo.
No entanto os meses se passavam sem eu entrar na pauta de julgamentos e, ao saber da magnânima reparação concedida ao jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (um dos meus ídolos, por sinal), notei que as regras estavam sendo descumpridas no caso de famosos. De quantos mais? Era óbvio o favorecimento de alguns enquanto outros comíamos o pão que o diabo amassou.
Em desespero de causa, parti para a luta pública, endereçando mensagens às comissões da Câmara e do Senado, ao Ministério Público Federal, à Auditoria Geral da União e outros órgãos afins, além de comunicar amiúde a evolução de meu caso à imprensa.
Chegou então um momento em que minha luta começava a repercutir nos canais acionados e na mídia. Quando o Ministério Público pediu explicações à Comissão, esta resolveu finalmente pautar meu julgamento, antes que o estrago ficasse maior.
Mas as pensões mensais vitalícias só eram concedidas a quem tivesse sofrido perdas financeiras irreparáveis (um critério absurdo, aliás, pois danos à integridade física eram muito mais graves), então num primeiro julgamento recebi apenas uma indenização em parcela única de R$ 50 mil. Não dava nem de longe para eu reconstruir a minha vida.
Apelei, apresentando prova de que eu estava com um emprego engatilhado quando caí na clandestinidade para não ser preso por um governo ilegal e ilegítimo.
Avaliando o meu e outros casos noticiados na imprensa, entendi depois o motivo de minha dificuldade em fazer o julgamento acontecer: simplesmente a Comissão ignorava que meu arrependimento havia sido forçado e que eu continuava um revolucionário, mesmo depois de ter passado pelo inferno do DOI-Codi.
Mas o que eu escrevia e tinha passado a sair na imprensa mostrou-lhe o erro que estava cometendo. Quando finalmente lhe caiu esta ficha, marcaram de imediato minha data.
O julgamento definitivo se deu em meados de 2005 e eu mais uma vez fui apresentar a minha causa sozinho. Não tinha grana para advogado, nem para pagar o voo de São Paulo para Brasília. Pegava ônibus mas os horários não me serviam, então era obrigado a pegar o último da véspera e a passar muito tempo fazendo hora até a abertura da sessão.
E veio o julgamento. O representante das Forças Armadas na Comissão faz tudo que pôde para me prejudicar, em vão. Eu sofrera muito para chegar àquele ponto e lutei com unhas e dentes para não vê-lo escapar entre os dedos.
E, como quase todos os anistiandos se faziam representar por advogados, a presença de um ex-guerrilheiro que os dispensava e defendia a própria causa despertava curiosidade.
Mas, tão ocupado estava em duelar com pessoas que tinham formação jurídica, que em nenhum momento eu percebi que os funcionários da casa torciam por mim.
Quando consegui a vitória, todo o cansaço acumulado desabou sobre mim. Saí daquela sala enfumaçada e desabei no primeiro banco que encontrei no saguão.
Aí uma meia-dúzia de funcionários veio me abraçar e festejar meu sucesso.
Fiquei comovido como poucas vezes na vida. (por Celso Lungaretti)
