segunda-feira, 1 de junho de 2026

Náufrago da Utopia 2 = texto de abertura

celso lungaretti

NÁUFRAGO DA UTOPIA 2:
memória e legado


PARTE 1: memória

"...não é de hoje que este povo
vem dando demonstração,
alfaiates na Bahia, balaios no Maranhão,
cabanadas no Pará e Palmares no sertão!

Não só contra os de fora foi o povo justiceiro:
contra a fome e a miséria levantou-se o garimpeiro, 
contra os fortes desta terra levantou-se o Conselheiro.
De pé, contra toda tirania, 
sempre de pé está o povo brasileiro!" 
(Theo de Barros, "Espanto")




prólogo: por um destino insólito

Fui leitor de biblioteca circulante desde cedo e, em 1967, aos 16 anos de idade, eu sonhava com um dia escrever  livros como os de Sartre, Dostoiévski, Kafka e Camus. Cuidado com o que você deseja, pode tornar-se realidade...

Não sabia o preço que teria de pagar para tanto. Nem imaginava que os meus livros seriam tão cheios de acasos e coincidências que pareceriam histórias inventadas, não vividas.

A primeira coincidência foi, quando eu tentava encontrar um desígnio na vida que fosse além das ambições banais dos jovens de classe média, o Eremias Delizoicov, que eu conhecia desde o primário, ter-me apresentado sua nova colega de classe, Maria das Graças Lima. 

Era filha de  militante do partidão  que teve de sair da Bahia porque corria o risco de ser preso. Mal chegada a São Paulo ela se enturmou com ativistas do movimento universitário e deles recebera a tarefa de de garimpar secundaristas promissores para sua causa. 

Sentindo-me atraído por ela, passei a ler os escritores brasileiros engajados que a Maria recomendava, como o Jorge Amado, o Graciliano Ramos e o Guimaraes Rosa.  Conclui que minha praia deveria ser aquela, pois queria fazer parte de uma turma com interesses semelhantes, mas  de nada adiantaria seguir no Brasil os passos dos existencialistas europeus., meus favoritos.

Mudei muito a minha vida. Fazendo exames de adaptação, transferi-me nas férias escolares para o segundo ano Clássico. Herdei o jornal do colégio, já que o editor se cansara da tarefa. Comecei a fazer a cabeça da moçada com iniciativas como um concurso de poesias e uma enquete sobre se os EUA ajudavam ou prejudicavam o Brasil

Em dezembro, participei, com o Eremias e dois outros recrutas, de uma semana de estudos do marxismo. No final, fomos todos  convidado a ingressar numa entidade que estava sendo formada e atuaria principalmente como força auxiliar da Dissidência do PCB. Aceitei. Tal opção revolucionária acabou sendo uma decisão para a vida inteira.

Meu ano de 1968 foi ´o de quase todos: passeatas, ocupações, descobertas como as de que eu levava jeito para falar em público e que era veloz quando se tratava de escapar da polícia: duas vezes correram atrás de mim mas não me alcançaram,

Percebendo que haveria um endurecimento do regime, os oito que liderávamos o movimento secundarista na zona Leste discutimos se iríamos adiante ou desistiríamos. A votação foi unânime em favor de partirmos para a luta. Então começamos a dialogar com quatro organizações, acabando por optar pela Vanguarda Popular Revolucionária, uma das duas mais poderosas do Brasil. A outra era a Aliança Libertadora Nacional, do Carlos Marighella.

Os acasos continuaram. Havia bem poucos dirigentes  revolucionários com a minha idade (acabara de completar 18 anos), mas acabei o sendo por acaso: nosso grupo foi convidado a escolher  um integrante para comparecer como observador ao congresso que a VPR estava prestes a realizar em Mongaguá. Fui eu. E mal começavam os trabalhos, os 12 delegados decidiram me conceder direito de voto. Tornei-me informalmente um delegado a mais.

Escolhido o novo Comando Nacional, tive a surpresa de, no dia seguinte, ser designado  comandante estadual, incumbido de criar um setor de Inteligência. 

Poucos meses depois, aflorou uma incompatibilidade entre nós, comandantes estaduais, e os dois comandantes nacionais que faziam o meio de campo entre a guerrilha urbana e o campo (preparação da guerrilha rural). 

Parecia-nos que ambos  tentavam exumar a tendência massista (a integração da VPR com os movimentos de massa urbanos).  Justificável na teoria, tal integração nos vulnerabilizaria em termos de segurança, tornando-nos presas fáceis da repressão.

Começávamos a cogitar a anulação da recente fusão entre a VPR e o Comando de Libertação Nacional, da qual resultara a VAR-Palmares, mas sabíamos que nos faltava força política para  tanto.

Aí o acaso mais uma vez interveio Ao receber o documento com a proposta para o congresso elaborada por um militante que não estava sendo valorizado desde que voltara depois de vários anos na Europa, percebi que continha a resposta perfeita de todos os desafios que a VPR enfrentava. Eram as Teses de Jamil

Redigi um documento de circulação interna para explicar à companheirada o que o Jamil (Ladislau Dowbor) propunha com sua retórica sofisticada. Foi assim que eu e o José Raimundo da Costa (Moisés) iniciamos uma luta interna que culminaria no racha da VAR-Palmares e recriação da VPR.

Após quase um ano fui preso e, em meio àquele pesadelo, a mão do destino me salvou do pior. Numa reunião de uns 30 oficiais para planejarem a Operação Registro, um deles suspeitou que eu estivesse passando mal, chamou o enfermeiro e constatou-se que a minha pressão estava extremamente elevada. Fui medicado e passei alguns dias em paz, sem torturas.

Mas, o acaso não foi tão benéfico assim. Após quase dois meses e meio de incomunicabilidade (licença para torturarem à vontade), quando as investigações terminaram e eu deveria ser transferido a uma unidade civilizada para finalização do inquérito, escolheram a Polícia do Exército da Vila Militar. Fui da pior unidade do RJ para a segunda pior, onde me estouraram o tímpano e me impuseram o arrependimento forçado.

Injustiçado e estigmatizado, passei o restante do século limitado a lutas e atividades menores, mas sonhando, como o Augusto Matraga do João Guimarães Rosa, que ainda chegaria meu dia e minha hora.

Depois da tempestade veio a bonança. Desempregado desde o início de 2002, percebi que a única chance de dar a volta por cima era a reparação que o Ministério da Justiça estava concedendo aos militantes que haviam sofrido graves prejuízos durante aquele governo ilegal, pois resultante de um golpe de estado.

Como o julgamento do meu caso nunca era pautado, li toda a documentação referente à instituição da Comissão de Anistia e descobri que o regulamento estava sendo descumprido escandalosamente: o primeiro requisito para priorização dos casos era a condição de desempregado e eu, ao perder o emprego, tinha anexado uma comprovação disto ao processo. Só depois vinham danos físicos, intelectuais e morais. 

Tanto em lutas idealistas quanto nas que travara  administrando crises dos clientes em agências de comunicação empresarial, eu aprendera a lidar sozinho com esses trâmites. E denunciei as irregularidades que estavam cometendo contra mim em órgãos oficiais, na imprensa e nas redes sociais.

Mais uma coincidência valiosa surgiu em meu favor: graças às ferramentas de busca, encontrei na internet uma edição antiga do Coojornal  na qual estava publicado o relatório de atuação do Exército na Operação Registro, um documento secreto que o valente jornal gaúcho obtivera e havia publicado na íntegra por sua conta e risco. 

Não deixava nenhuma dúvida quanto a que quem entregou à repressão a localização exata da área 2 da VPR havia sido presa no sábado, dois dias após minha queda.

Levei essas provas ao melhor historiador da luta armada, o Jacob Gorende que, após consultar outros documentos secretos que possuía, enviou cartas aos jornais inocentando-me de tal acusação. A Folha de S. Paulo publicou.

Tanto barulho fiz e tão pertinentes eram minhas queixas que a Comissão de Anistia teve de pautar o julgamento do meu caso. Não só conquistei a pensão vitalícia que pleiteava por direito e por estar afundado em dívidas, como passei a ser visto como um homem que amargara 34 anos de estigmatização como consequência de uma acusação falsa.

Mas, de nada adiantaria ficar lamentando o tempo que haviam roubado de mim. Ainda pude defender no Orkut a memória da luta armada e dos que dela participaram; travar (e vencer) polêmicas com viúvas da ditadura como o Olavo de Carvalho e com jornalistas mal informados a meu respeito como o Marcelo Paiva; duelar na Justiça com o Boris Casoy. que me queria preso como difamador mas teve de engolir a exceção da verdade, etc. 

A convite do candidato a prefeito do Psol, concorri a uma cadeira de vereador em 2012. Ingenuamente, acreditei que aquele partido, como o antigo partidão, ajudasse  a se elegerem pessoas como eu, que poderia ser uma pedra no sapato dos partidos dominantes, devassando escândalos municipais e os trombeteando pela imprensa, com a ajuda de jornalistas que me apoiariam. 

Sofri uma derrota acachapante  e constatei que jamais conseguiria atingir os meus objetivos ao lado dos partidos reformistas. Foi a primeira e única eleição que disputei sob o jogo de cartas marcadas da democracia burguesa.

Minha grande cruzada depois de reabilitado acabou sendo a contribuição que dei à luta pela liberdade do escritor Cesare Battisti. Durou de 2008 e 2011 e o nosso comitê de solidariedade foi buscar a vitória na bacia das almas, quando tudo parecia perdido.

capítulo 1: os porões do inferno 
 
Dois ou três dias antes da minha queda, assisti num cinema poeira Frankenstein tem que ser destruído, da Hammer. E saí com o estranho pressentimento de que já tinha passado a hora de nossa guerrilha e marchávamos para a destruição.

Então, quando o Jamil e a Lia me contaram que o Lamarca exigira a presença de todos os comandantes operacionais no campo por desconfiar que a tarefa principal
(montagem da coluna móvel estratégica) estivesse sendo sabotada, senti uma pontada de calafrio.

Logo adiante, me informaram que o valoroso companheiro Wellington Moreira Diniz poderia ter caído no sábado, quando faltara a um ponto e à alternativa, horas mais tarde. Tinha uma ameaça cardíaca e fora afastado da militância, para morar e namorar com uma moça que não era politizada.

Aquele pressentimento voltou e passei mais de uma hora tentando convencer o Jamil e a Lia de que os comandantes deveriam permanecer a postos, para fazerem frente às quedas que decorreriam da eventual queda do Wellington, O Comando Nacional estava reduzido a três membros, então eles poderiam tomar imediatamente tal decisão. Mas não ousaram contrariar o Lamarca. Nosso pesadelo, as quedas em cascata, se materializou.

Torturado desde sábado, o Wellington resistira bravamente até quata-feira; aí, não aguentando mais, levou os agentes até o estúdio do fotógrafo que havia tirado fotos do Lamarca para botar nos documentos falsos. O fotógrafo entregou nosso maior fornecedor de aliados no RJ

O Wellington tinha mesmo sido preso no sábado, desde então sofria as piores torturas, mas aguentou bravamente  até a quarta-feira, quando acabou abrindo o fotógrafo ao qual conduzira o Lamarca para tirar fotos para documentos falsos após a sua operação plástica.

 O fotógrafo, por sua vez, entregou um médico que era nossa principal fonte de aliados e, ao mesmo tempo, a maior vulnerabilidade que tínhamos no RJ. Um dos dois, ou ambos, abriu(ram) porta(s) para outras prisões. O incêndio se alastrou.

Os comandantes que haviam se reunido no campo, foram sendo presos logo ao voltarem. A pior sequência de quedas da VPR varreu a organização em todos os estados nos quais atuava.

Era de manhã cedinho na quinta-feira, 16 de abril de 1970, quando fui preso (pelo modus operandi, melhor seria qualificar aquilo de sequestro).

Ao ser conduzido para a sede do DOI-Codi, no quartel da Polícia do Exército na Tijuca, eu quase sufocava por causa do capuz que me colocaram e de me forçarem a cabeça para baixo a fim de não ser visto da rua ou dos carros que passavam ao lado. 
Eu sabia que, mesmo se sobrevivesse, nunca mais seria o mesmo. E duvidava que valesse a pena sobreviver. 

Ao me retirarem o capuz,  vi-me no setor de registro dos novos prisioneiros que chegavam àquele quartel que, soube depois, era o da Polícia do Exército no bairro carioca da Tijuca. Nele operava o DOI-Codi, reunindo efetivos da repressão originários das três Armas.

Como silenciei, recusando-me inclusive a dizer quem eu era, fui logo encaminhado para a sala de torturas, no fundo do quartel. Durante dois meses e meio sofreria todo tipo de intimidação e sevícia, conforme relatei no primeiro volume desta duologia, bem como em vários artigos e entrevistas. 

Os torturadores tudo faziam para me desnortearem, impossibilitando-me de pensar. Assim, a primeira sessão de torturas foi com a sala lotada de oficiais, agentes, motoristas de viaturas, etc. Agrediam-me de todo lado, faziam perguntas ao mesmo tempo e desferiam murros e pontapés por eu não conseguir responder a todos. Além disto, recebia sucessivos choques elétricos.

Depois, já pendurado no pau-de-arara, começava a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo. 

Logo percebi que, ao contrário das fantasiosas bravatas a posteriori de muitos dos companheiros que haviam passado por tais horrores, era quase impossível um ser humano confrontar arrogantemente aquelas bestas-feras, nada respondendo do que queriam saber. Aí a tortura se prolongaria indefinidamente, até o ponto em que o torturado já não teria mais nenhum controle sobre o que revelava.

Felizmente não me perguntaram logo nas primeiras sessões de tortura o que eu mais temia deixar escapar. Estavam ocorrendo tantas quedas que os agentes precisavam tirar um prisioneiro do pau-de-arara para colocarem outro.

Ou, talvez, tenha sido mero acaso: companheiros que haviam participado da reunião com o Lamarca na área de treinamento não marcaram pontos comigo logo para o dia em que retornassem, pois tinham problemas mais urgentes para resolverem com outros quadros. A Inteligência podia esperar dois ou três dias.

Sou sincero: não consegui depois reconstituir boa parte  do que ocorreu comigo naqueles primeiros dias de sofrimentos dilacerantes. Mas recordo de, mal me recolocarem na cela, ter caído num sono profundo. E os sonhos eram belíssimos, além de intensamente eróticos, como fossem uma compensação pelo que eu estava sofrendo acordado.

Seja por ter conseguido trancar na minha mente os dados dos pontos que teria com os comandantes organicamente superiores a mim, bem como com os do mesmo escalão, seja porque não tinha nada para discutir de imediato com eles, o certo é que aqueles que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, o fizeram antes de quando eu os encontraria. Por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor quedas em cascata.

Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes algum calhau. O que me pareceu justificado naqueles  momentos terríveis. 

Passei o resto da vida lamentando a escolha que acabei fazendo, entre a prisão de algum comandante que poderia causar dezenas de quedas e a prisão de um aliado cujo único contato com a organização era comigo. 

Só que o aliado Roberto Macarini morreu, seja como consequência das torturas, seja escapando da escolta e atirando-se do Viaduto do Chá por não estar mais conseguindo suportá-las. Nunca soube ao certo. 

Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tarde.

Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.

Quanto à estigmatização que sofri,  às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que sempre obedece ao sargentão e não como o homem justo que procurava ser.  

capítulo 2: o dilema das 2 áreas

Transcorridos  dois meses de suplícios e tormentos, eu já antevia  o momento em que sairia da chamada fase operacional, passando à rotina enfadonha dos presos políticos que já não detinham informações  do interesse da repressão e, portanto, só voltariam a ser arrepiados caso viessem à baila fatos novos ou se outras capturas fizessem os torturadores perceberem que suas vítimas anteriores não haviam contado tudo que sabiam.

Se funcionasse a capsula de cianureto produzida por estudantes de química aliados da VPR, eu a teria usado, mas aqueles aprendizes de feiticeiro haviam falhado em algum detalhe, de forma que poucos dias antes o Juvenal me informara do fracasso colhido por quem a utilizara. Então, só restava preparar-me para o pior.

Embora eu houvesse, nos piores momentos, duvidado de que sobreviveria, o saldo até então era positivo, pois a minha culpa pelas quedas em cascata era quase nenhuma. 

Afinal, meu principal papel na organização era o de municiar os outros comandantes com informações e análises; e, como as prisões de alto escalão tiveram outras origens, a organização só poderia me recriminar a dissimulação a que eu recorria, sempre fingindo estar mais abalado pelas torturas do que realmente estava.   

Até onde eu conseguia enganar os torturadores e até que ponto eles às vezes não iam às últimas consequências comigo por temerem que eu morresse? Jamais saberei ao certo, mas, dois dias depois da minha prisão, um velho militar suspeitou que eu estivesse passando mal e chamou o enfermeiro. 

Minha pressão deveria estar assustadora, pois logo me entupiram de calmantes e escalaram aquele oficial para conversar comigo e me tranquilizar. 

Como nunca fui ingênuo, avaliei que, tendo a morte recente do jovem companheiro Chael Charles Schereier repercutido mal mundo afora, eles receavam uma ocorrência semelhante que. tendo como vítima um militante mais jovem ainda, provocaria outra onda de indignação com a ditadura no exterior. J[a existiam estivadores se negando a embarcar mercadorias do ou para o Brasil nos portos europeus.

Mas, o alívio durou pouco e em maio já voltavam a me torturar com mão pesada.  A diferença era que já não esperavam descobrir grande coisa por meu intermédio, tanto que me transferiram da solitária ao lado da sala de torturas para uma cela para vários prisioneiros no andar de cima e a frequência com que me buscavam para interrogatórios diminuíra. 

Tudo me fazia crer que eu já estava prestes a ser transferido para finalização de inquérito em algum dos quartéis da Vila Militar quando, no dia 11 de junho, a VPR e a ALN sequestraram o embaixador alemão  Ehrenfried von Holleben.

Os analistas da repressão mandaram agentes do Deops me interrogarem para a finalização do que constava a meu respeito nos inquéritos da VPR e da VAR-Palmares

Bons burocratas, queriam deixar tudo prontinho para uma eventual retomada dos tais processos no futuro, pois havia companheiros que, após serem libertados por meio de sequestros, voltavam ao Brasil e à luta  (geralmente, acabavam executados pela Operação Condor, como aconteceu com Joaquim Cerveira, que tinha sido meu companheiro de cela no DOI-Codi/RJ)

Éramos obrigados a repetir sem torturas tudo que eles haviam arrancado de nós mediante torturas, sendo esta  versão indolor então encaminhada às auditorias militares. 

Se confirmássemos aquilo de que nos acusavam, tínhamos a incomunicabilidade  quebrada e ficávamos aguardando julgamento em unidades militares civilizadas, ou seja, não integrantes da estrutura de terrorismo de estado criada para o combate à subversão e à luta armada. 

Se nos negássemos a admitir o que já tínhamos admitido antes, nos mandavam de volta para o DOI-Codi e nos torturavam de novo até que nos conformássemos em jogar o jogo do jeito deles.

Geralmente a transferência para uma unidade não-torturadora antecedia a tomada de depoimentos para fins jurídicos, assim a farsa ficava completa. Os relatórios sangrentos produzidos pelo DOI-Codi permaneciam secretos e os depoimentos que embasavam nossas condenações não tinham manchas de sangue. 

Mas, com o sequestro do diplomata alemão em curso, nem se preocuparam em me transferir para outra unidade; pegaram meu depoimento no DOI-Codi mesmo. A própria repressão dava como favas contadas que meu nome estaria entre os 40 da lista de troca.    

O avião partiu no dia 15 de junho e eu fui deixado para trás, sendo alvo inclusive de zombarias dos torturadores (Levaram até lastro no seu lugar!). Como eu atendia aos critérios para inclusão entre os libertados e não fora responsável por nenhuma prisão de quadro importante, logo imaginei que o veto a meu nome tinha algo a ver com a queda da área de treinamento guerrilheiro.

A VPR estaria me atribuindo tal delação, embora eu nem sequer conhecesse a localização da dita área. Tinha sido um dos cinco integrantes da equipe precursora da instalação de uma escola de guerrilha na região de Registro, SP; mas, como o local se revelou inadequado para nosso propósito, após três semanas abandonamos o sítio que havíamos adquirido e o trabalho foi transferido para outro lugar, já sem minha participação e conhecimento.  

Então, por óbvia medida de segurança, os dois que decidimos não continuar no trabalho de campo fomos,  no dia da desativação da primeira área, trazidos de volta para a cidade: eu indo retomar a atividade de comandante de Inteligência noutro estado, o Rio de Janeiro; e o Massafumi Yoshinaga para desfiliar-se da organização. 

A localização da segunda área (a definitiva) por parte do DOI-Codi/RJ se deu em 18 de abril de 1970, um sábado, dois dias após minha prisão. Durante aquela tarde, houve uma reunião com a participação de uns 40 altos oficiais visitantes  e eu fui conduzido até ela. Quando chegava na sala onde o encontro se realizava, cruzei com integrante da VPR que dela estava saindo. Sua prisão ocorrera naquele sábado.

De mim queriam saber detalhes sobre a primeira área, a abandonada. Mas, o inusitado daquela reunião e a má ideia que tiveram de atar-me eletrodos nos dedos, criando a ameaça de choques elétricos, produziu efeito contrário. 

Foi quando um dos oficiais visitantes suspeitou que eu estivesse passando mal e fez com que viesse o enfermeiro. Acabei não lhes servindo para nada, mas, ao me retirarem da sala, um dos oficiais comentou com  outro que, de qualquer forma, eles já sabiam tudo que precisavam saber.

Ou seja: eu nunca ignorei quem entregara a área definitiva. A pessoa estava pálida como fantasma quando cruzei com ela no corredor, então não tive duvida de que durante algumas horas ela sofrera as piores torturas. 

Depois, na segunda-feira, fomos ambos levados até Registro num jatinho da FAB, para ficarmos à disposição dos responsáveis pela caçada aos companheiros. Quando aterrissamos, nos separaram e nunca mais falei com tal pessoa.

Tinha quase certeza de que eu fora preterido na lista de troca por estar servindo de bode expiatório da delação da área; já quem tinha realmente fraquejado decolava com o prestígio intacto para a Argélia. Fiquei perplexo e indignado. 

Continuei acreditando firmemente (até hoje!) na necessidade de uma urgente revolução anticapitalista, mas perdi para sempre a confiança cega nos companheiros. 

Levei muito tempo para compreender que, num instante em que a VPR sofria a pior de suas crises de segurança e precisava repor com urgência os quadros que perdera, a verdade sobre quem entregara ao inimigo as joias da coroa teria um efeito devastador, dificultando ainda mais seus esforços para dar a volta por cima. Compreendi adiante o porquê, mas aos 18 anos não se aceita facilmente uma arbitrariedade dessas. Quase fui destruído.   

Preso, não tinha como restabelecer a verdade. Solto, continuava tão descontente com os companheiros que haviam me condenado sem sequer procurarem conhecer a minha versão, que decidi não denunciar quem estava me deixando carregar em seu lugar  um fardo tão pesado Resolvi reagir à indignidade sendo mais digno do que todos que me atacavam.   

Só vim a levantar essa lebre no final de 2004, por ter surgido uma chance de provar a minha inocência sem necessidade de apontar a quem pertencia a culpa. 

capítulo 3: torturadores rapinantes

Outro episódio ocorrido em 1970 que afetou o meu destino foi o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben por meio de uma parceria entre a ALN e 
parte da estrutura da VPR no RJ que sobrevivera às quedas em cascata

Isto fez os torturadores do DOI-Codi notarem que eu omitira a existência de uma unidade de combate que permanecera incólume: a que era comandada pelo falecido Juarez Guimarães de Brito.

Eles acreditavam ter liquidado completamente a VPR naquele estado e devem ter ouvido poucas e boas dos superiores, pois tinham inclusive descoberto o plano para sequestrarmos o von Holleben e não lhe providenciaram proteção, provavelmente supondo que não havia mais ninguém para efetuar a proeza. Só que houve.

Um deles descarregou a raiva em mim. O oficial responsável pelo inquérito da VAR-Palmares viera tomar meu depoimento e um raivoso do DOI-Codi, ao passar pelo corredor, viu-me e perdeu a cabeça. Entrou na sala e esmurrou-me tão violentamente pelas costas que me derrubou da cadeira e jogou a mesinha em cima do oficial visitante.

Só que aquele oficial era superior a ele em termos hierárquicos e ficou furibundo por ter a patente duplamente desrespeitada (eu estava sob a guarda dele naquele instante e nenhum outro poderia intervir sem sua permissão).

Discutiram aos berros no corredor, quase chegando às vias de fato. Quando o visitante sentou-se de novo, disse-lhe que, se permanecesse no DOI-Codi, acabariam me matando. 

Bingo. Logo no dia seguinte fui transferido. Eu avaliara bem que, oferecendo uma oportunidade de revanche para o ultrajado, este mobilizaria suas influências, se as tivesse, na direção que me convinha.

Mas, trocar o DOI-Codi/RJ  pela PE da Vila Militar foi como sair do fogo para cair na frigideira.

*   *  *

Apesar dos espancamentos, o que realmente me abalava nas torturas eram os choques elétricos. Também pudera: desde a juventude eu tinha tal sensibilidade aos choques que, em dias de chuva, os sentia quando fazia uma ligação nos telefones públicos de ferro espalhados pela cidade e, ainda, quando viajava em ônibus elétrico. 

Pior ainda era quando recebia choques pendurado no pau-de-arara. O sentimento de impotência era detestável. Certa vez um capitão me mostrou um cabo de vassoura e disse que ia me penetrar com ele. Acabou ficando só na ameaça, mas o fato é que, se ele a cumprisse, eu não poderia fazer nada. Estava completamente  indefeso.

A falta de informações também me angustiava. Pensava que a eletricidade passando pelo pênis e escroto poderia me tornar impotente; e quando os fios eram pendurados nas duas orelhas e um raio quase que como atravessasse meu cérebro, receava ficar com problemas mentais. Bobagem.    

Meu arrependimento forçado se deu no final de junho, momento no qual  a equipe de torturadores da PE da Vila Militar que tinha sido afastada da caça os subversivos se ressentia muito da perda de tudo que roubava de nós e dos generosos prêmios em dinheiro concedidos por empresários ultradireitistas. Parecia o velho Oeste.

Mas a morte do jovem Chael Charles Schreier naquela unidade levou a repressão a unificar suas forças para evitar novos descontroles. No Rio de Janeiro só a  PE da rua Barão de Mesquita manteve o privilégio, enquanto os torturadores da Vila Militar ficaram chupando o dedo.

Aí o tenente Ailton Joaquim, que comandava tais torturadores, teve a ideia de jerico de arrancar informações inéditas  de mim e de outros presos da Inteligência da VPR, desrespeitando as ordens recebidas. Lá deveríamos apenas dar os depoimentos finais para a remessa do inquérito a alguma auditoria militar, mas um oficial ganancioso acreditou que, mostrando-se mais eficaz do que as equipes do DOI-Codi/RJ, poderia recuperar para sua unidade a boquinha perdida. 

Resultado: o gigantesco Marcio Antônio Povorelli (que pesava 140 quilos e praticava judô), num dia em que era o cabo da guarda, ao invés de me levar para a solitária, após uma sessão de torturas, no meio do caminho me desferiu  um violento tapa de mão aberta, estourando o tímpano do meu ouvido direito; enquanto isto, uma aliada da VPR cortava os pulsos, mas era socorrida em tempo.

O tenente Ailton decerto seria punido, então dobrou a aposta: inspirado no arrependimento voluntário de quatro presos políticos do Presídio Tiradentes e no arrependimento televisado do companheiro Massafumi Yoshinaga, exigiu que eu escrevesse uma carta aconselhando os jovens a não morrerem naquela luta perdida. 

Eu a redigi com a aliada recebendo choques e gritando na sala ao lado. Torturadores entravam e saíam o tempo todo, esmurrando-me de passagem.    

Pensei que seria apenas uma besteirinha pouco influente do setor de Guerra Psicológica do Exército, para ser distribuída impressa. Afinal, com as marcas de soco que eu tinha na cara, supunha que não fariam nada presencial comigo. 

Ledo engano. Acordaram-me de madrugada dizendo para me vestir porque ia ser fuzilado. No trajeto, o capitão Ailton Guimarães Jorge (futuro bicheiro e bingueiro) disse que eu estava sendo levado a uma tevê e teria de repetir fielmente o que constava na minha carta aos jovens, caso contrário nem voltaria para o quartel: seria executado no caminho e jogado embaixo da ponte. 

A TV era a Globo, no Jardim Botânico. E uma competente maquiladora conseguiu fazer desaparecerem quase  que por completo as manchas roxas no rosto. 

Estava livre das torturas, mas obrigado a escutar os berros de presos sendo torturados, móveis tombando ou sendo arrastados, gritos dos algozes para amedrontá-los, etc. Não há palavras para relatar quanto me machucou ter retornado àquele local maldito.

Fiquei confuso durante alguns meses, sem sequer ter certeza de que aquela gravação na TV Globo acontecera mesmo, mas o hábito da leitura me restituiu a racionalidade. O companheiro Wellington Moreira Diniz, que também estava preso na PE da Vila Militar, passou a ler os livros da biblioteca do quartel para desanuviar, já que era doente cardíaco. Consegui pegar carona nesse esquema e os dois lemos principalmente a coleção completa do Julio Verne, várias vezes cada volume, pois a alternativa eram os intragáveis manuais militares.

Quando foi derrubada a última de minhas prisões preventivas, pensei que logo estaria finalmente livre para recomeçar a minha vida. Mandaram embrulhar meus poucos pertences e, ainda antes do almoço, desci para o pátio. Passei o resto do dia vendo a chegada e partida de viaturas, depois me reconduziram à cela.

No começo da tarde do dia seguinte os serviços burocráticos dos fardados afinal cumpriram direito o seu dever e pude novamente respirar o ar puro da liberdade. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, nem a mínima ideia do que faria dali em diante.

Ao voltar a ser dono do meu nariz estava tão normal quanto possível, irritadiço como nunca e sem saber o que faria do resto da vida, já que meus melhores sonhos, mesmo sendo sólidos, haviam se desmanchado no ar.

Decidi fazer o vestibular de jornalismo e entrei num cursinho que durava um semestre. Mas, no meu primeiro julgamento, fui sentenciado a seis meses de prisão e o juiz não quis aceitar que o tempo já havia sido cumprido nas prisões preventivas. Argumentou que não fora ele quem as decretara, mas sim os outros três auditores. 

Tinha chegado livre e saí preso. Voltei para o DOI-Codi/RJ, sendo obrigado a  aguentar as piadas sem graça dos torturadores, tipo o bom filho à casa torna.  

Acabei permanecendo atrás das grades durante mais duas semanas, até meu advogado convencer o juiz teimoso de que seria uma iniquidade eu passar seis meses preso quando tinha o dobro de saldo positivo em meu favor. Curiosamente, meu tempo de prisão, com o acréscimo dessas duas semanas, passou a ser exatamente de um ano.

Não fiz acordo nenhum com a repressão nem fui libertado logo em seguida, como meus cinco antecessores. Um coronel chegou a me dizer que eu era um lobo em pele de cordeiro, pois parecia ter-me tornado inofensivo mas continuava sendo um inimigo irreconciliável do regime militar. Acertou na mosca.

Retomei o cursinho, sendo aprovado na ECA-USP e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria  se tornando a minha primeira esposa.  E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista. Estavam prestes a formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.

Sem grana nem vontade de fazer análise, a comuna foi minha salvação. Acabei exorcizando sozinho meus fantasmas, mas ao menos voltava a viver novamente em grupo, num momento em que a bestialidade da ditadura grassava solta. Passei pelas experiências que me faziam falta, como s de ter um tórrido amor (com uma das meninas, a V.).

Quando ela viajou a Minas Gerais para visitar os pais e decidiu ficar por lá, fui atrás quase sem grana, numa última tentativa de convencê-la a mudar seus planos. João, meu melhor amigo naquela comunidade, fez questão de ir junto, temendo algum descontrole da minha parte. Fomos de carona em caminhões e voltamos com um empréstimo do pai dela, após passarmos uma tarde inteira tentando, em vão, descolar uma carona.

Depois de ser, durante vários meses sustentado pelos companheiros da comunidade que tinham emprego, acabaram ficando todos desempregados ao mesmo tempo. avaliei que era meu dever tomar-lhes o lugar. Foi o primeiro de uma longa lista de trabalhos 
em assessoria de imprensa. Deu para pagar sozinho o aluguel do casarão.

Como principal tarefa, eu fazia a divulgação do primeiro congresso de mastologia que teria lugar no Brasil. 

capítulo 4: Cesare e os Brutus

No final de 2008 recebi um telefonema do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti pedindo minha ajuda na batalha de opinião para evitar a extradição do escritor italiano. A vitória que eu conquistei no episódio dos quatro de Salvador chamara a atenção do comitê.

A prestação de solidariedade a perseguidos políticos é dever de todo revolucionário, embora a maioria tire o corpo fora. Eu não. Aceitei de imediato, sem ilusão nenhuma quanto a tão imensas seriam as dificuldades que enfrentaria. 

Não deu outra. Passei dois anos e meio correndo o Brasil para fazer palestras; e participar de debates, mesas redondas e atos públicos em defesa do Cesare. Compareci às sessões de julgamento no Supremo Tribunal Federal para, se a decisão fosse pela extradição,  reagir imediatamente, pois deveríamos contrapor nossa verdade às mentiras que vinham da Itália e eram repercutidas caninamente pela imprensa brasileira.

No meio de tudo isso, um dia me lembrei do primeiro livro para adultos que lera na vida, lá pelos meus 15 anos: A tragédia de Sacco e Vanzetti, do Howard Fast, que apanhei na Biblioteca Circulante da Mooca baseado apenas na orelha.

A história era a de dois anarquistas italianos acusados e executados em Massachusetts por um assalto à mão armada com duplo homicídio que não haviam cometido. Tratava-se apenas de um exemplo chocante para intimidar os imigrantes que chegavam aos EUA com ideias esquerdistas.

Embora a inocência de ambos estivesse mais do que provada e manifestações de protesto pipocassem por várias nações (até o Papa pediu pela vida deles), os assassinatos pela via judicial acabaram ocorrendo. Cinquenta anos depois o governador de Massachusetts reconheceu que havia sido cometido um erro jurídico, reabilitando-os postumamente.

Esse livro impactou muito em mim quando o li, mas tantos outros haviam depois passado por minhas mãos que eu esquecera dele. 

Quando afinal percebi que, de certa forma, estava tentando corrigir o passado, fiquei surpreso: estatisticamente, a possibilidade de um dia eu estar envolvido com um episódio semelhante era irrisória. Mais ainda pelo fato de eu ainda nem sequer ser de esquerda quando retirara aquele livro da biblioteca.

Não foi esta a única coincidência inverossímil. Apesar de minhas famílias paterna e materna não terem interesse pela política, um antepassado meu, Angelo Longaretti, havia assassinado um fazendeiro truculento que espancava seu pai.

Tinhm discutido pelo valor que o pai dele, um homem idoso, tinha a receber, pois a família estava de saída daquela fazenda. Isto se misturava com o assédio que a filha sofrera de um dos filhos do mandachuva. Ao ver o seu pai agredido e aparentemente morto (tinha só desmaiado), Angelo o matou com um tiro anormalmente certeiro de uma garrucha enferrujada. 

A colônia italiana se mobilizou em peso, mas o julgamento foi de cartas marcadas. Não se providenciou sequer tradutor, de forma que as testemunhas de Angelo, também italianas de nascença ou de ambiente familiar, depuseram à toa. 

O morto era irmão de Campos Sales, quarto presidente da República do Brasil, o qual tentou mudar a lei, com a introdução da pena de morte para que em seguida fosse aplicada retroativamente contra Angelo. Mas acabou desistindo dessa ideia estapafúrdia por pressão da Inglaterra, que atuava como uma espécie de guardiã da aplicação correta da lei noutros países.

Sem vínculo comigo, mas igualmente repulsivas, foram a decisão do STF favorável à extradição de Olga Benário Prestes para a Alemanha nazista, embora estivesse grávida de brasileiro; e a omissão do ditador Getúlio Vargas, que dava a última palavra em casos como esse e poderia ter impedido tal infâmia.

A esquerda perdoa alguns ditadores que passam para o seu lado, como Vargas, que em 1950 se tornaria nacionalista como retaliação aos EUA por terem, em 1945, apoiado sua destituição. Eu, que passei pelos porões de uma ditadura e quase morri, não perdoo ditador nenhum. 

Mas, voltemos ao Caso Battisti. Minha melhor contribuição foi haver lançado artigos praticamente todo dia, resgatando a memória: 
-- dos grandes atentados fascistas que ficaram impunes ou receberam sentenças ínfimas, começando pelo da Piazza Fontana em 1969 (16 mortos e 88 feridos) e culminando no Massacre de Bolonha (85 mortos e mais de 200 feridos);
-- da lei inacreditável que vigorou nos 
anos de chumbo italianos, prevendo prisões preventivas de até mais de 10 anos para os acusados de terrorismo, que bem poderiam ser inocentes;
-- pelo fato de que as acusações do governo do debochado Silvio Berlusconi contra o Cesare já estavam prescritas, mas o prazo foi maquilado para justificar a perseguição ao escritor;
-- pela buffonata de atribuírem a Battisti quatro assassinatos, dois dos quais simultâneos, sem levarem em conta que era humanamente impossível ele percorrer em tempo a distância entre duas dessas cidades  (quando esse pequeno detalhe foi atirado na cara dos pubblici ministeri, eles alteraram a acusação para três homicídios cometidos pessoalmente e autoria intelectual do quarto),

Muitos exemplos semelhantes comprovam que na Itália perdurava um estado de guerra clandestina, o que justificaria uma anistia aos envolvidos ao invés de penas rigorosíssimas para uns e benevolentes para outros.

O pedido de extradição feito apela Itália ao Brasil desembocou numa guerra de versões até então nunca vista, entre a grande imprensa e as redes sociais.

Num primeiro momento, prevaleceu o posicionamento do jornalista e escritor Mino Carta, muito paparicado pelo PT. Quem não estava a par do confronto repetia as diatribes do Mino, sem saber que ele, como os comunistas tradicionais, detestava a nova esquerda e, consequentemente, o Battisti.

Um episódio interessante foi eu logo ser convidado a entrevistar o Cesare sobre semelhanças e contrastes de dois guerreiros dos 
anos de chumbo. 

O ministro Gilmar Mendes jamais consentiria, então tratei de entrar na Papuda acompanhando uma pessoa que tinha o direito de estar lá. Entrevistei-o longamente, anotando apenas uma palavra de cada resposta dele, para não dar na vista.

Nunca havia feito isso, mas consegui lembrar a entrevista inteira. Ela foi publicada no Congresso em Foco, que me contratara o serviço, e, depois de uma semana, massificada para que atingisse maior público. Coincidência ou não, foi nesse período que Cesare começou a conquistar as redes sociais.

Quando entrei na batalha de opinião, trazendo a experiência das disputas encarniçadas do movimento estudantil, a coisa foi mudando de figura, Tentei várias vezes acelerar o processo desafiando o Mino a polemizar comigo, mas ele evitou o confronto. 

Escapou da derrota, mas não da corrosão de sua popularidade, Teve de abandonar o blog pessoal por não suportar os questionamentos que seus próprios admiradores lhe faziam.

Numa noite em que vários veículos da grande imprensa levaram ao ar reportagens altamente desfavoráveis ao Cesare, deixando forte impressão de que se tratava de uma ação concertada, consegui redigir, em pouco mais de uma hora, e enviar para minha rede uma refutação que acabaria sendo copiada por um grande número de portais e blogs. Foi o melhor texto que escrevi durante a campanha toda, aproveitando ao máximo o que aprendera no jornalismo.

Doutro lado, deixo registrado que, como relator do caso no STF, Cezar Peluso conseguiu alinhavar  dezenas de motivos para enviá-lo à Itália e uns 2 ou 3 que o favoreciam. Foi o relatório mais parcial que eu vi em toda a minha carreira e em toda a minha vida.

O empenho de Gilmar Mendes (presidente da Corte) e Peluso (relator) em crucificar Battisti era desmedido. E, quando terminou o período de Mendes como presidente, foi substituído por... Peluso! E quem foi indicado por Peluso para assumir a relatoria? Ele mesmo: Gilmar Mendes!

Apesar de termos contra nós um país do primeiro mundo cujo presidente era um depravado ultradireitista; quase toda a grande imprensa brasileira; e adversários ocupando o tempo todo as posições mais importantes do julgamento, vencemos.

O fator decisivo foi que jornalistas renomados, confiando em que eu respeitaria suas revelações em off, me transmitiram tudo que eu precisava saber sobre as intenções do Lula. Inclusive que ele dissera ao Gilmar Mendes que, se o STF decidisse extraditar o Cesare sem intervenção dele, Lula repetiria a indignidade do Getúlio Vargas, deixando tal desfecho vergonhoso acontecer novamente; mas, se fosse dele a palavra final, não extraditaria.

Graças a isso, a escritora francesa Fred Vargas, o ex-integrante da Anistia Internacional na Argentina Carlos Lungarzo, o senador Eduardo Suplicy e eu conseguimos impedir que apoiadores desatinados lançassem  uma campanha para o Lula retirar o processo das mãos do STF e decidir sozinho. Teria sido derrota na certa.

E movemos céus e terras para que os 4x5 que vínhamos recebendo nas votações anteriores se tornassem 5x4 para nós no tópico principal: se o Supremo decidiria sozinho ou a palavra caberia ao condutor das relações internacionais do Brasil (o presidente da República).

Como nas outras situações nas quais tal dilema havia sido discutido prevalecera a prerrogativa presidencial, fizemos campanha cerrada para que os defensores da tradição repetissem o voto dado noutras ocasiões. 

Caso do Ayres Britto que, corajosamente, manteve seu posicionamento costumeiro, apesar de o Gilmar Mendes ter sido até deselegante no discurso irado com que tentou fazê-lo mudar o voto. 

São Paulo, maio de 2026 

capítulo 5: O DEBRAY BRASILEIRO

O Jamil (Ladislau Dowbor) era um militante brasileiro de ascendência polonesa que, após absorver novidades importantes em teoria revolucionária durante seus estudos acadêmicos em Israel e na Europa, voltara ao Brasil para participar da luta armada, ingressando na VPR.

Sua ´trajetória tem muitos pontos em comum com a do Régis Debray, igualmente pensador que aderiu à guerrilha e acabou preso pela repressão. Ambos tiveram grande êxito mais tarde, o brasileiro Dowbor como economista e o francês Debray como filósofo.

Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica das famosas teses do Jamil. Exatamente pela difícil compreensão, não haviam despertado o interesse da grande maioria dos militantes da VPR.

O que me pareceu um verdadeiro ovo de Colombo foi sua conclusão. Se não, vejamos. 

A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964,  acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democratico-burguesa. na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo. 

Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante a luta.

O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas empenhados em aprofundar os motivos da derrota infame diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).

O Jamil simplesmente quebrou o brinquedo predileto dos scholars de esquerda, que adoravam discutir se quem estava certo era Nelson Werneck Sodré com sua revolução inicialmente popular ou Caio Prado Jr. com sua revolução socialista desde o início.

Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, como o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante quase meio século, após vencer a disputa com os anarquistas na década de 1920 e incorporar parte deles às suas fileiras.. 

Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.

E seria também o próprio transcurso do processo revolucionário que daria a última palavra sobre se haveria ou não uma etapa democratico-burguesa. Os que a pregavam luta iriam batalhar por ela, mas certamente não se deteriam caso tal etapa fosse ultrapassada de passagem e o processo seguisse adiante; nem os adeptos do socialismo direto tinham motivo para ficar querendo comprovar sua estratégia no blablablá se poderiam fazê-lo na prática.

Assim, cada partido e organização de esquerda começaria perseguindo seus objetivos por si só, no seu território próprio e com os recursos que possuísse, depois alianças iram se forjando ao sabor da luta.

Os neo-massistas continuariam procurando atuar simultaneamente na luta armada e no trabalho de massas, embora a segunda tarefa ensejasse vulnerabilidades enormes para a primeira. Tanto que a VAR desempenhou papel secundário nas lutas travadas dali em diante. 

Seria ocioso relatar de novo, detalhadamente, como transcorreu este novo processo de luta interna nas fileiras da VPR (com o acréscimo dos quadros do Colina, durante aqueles poucos meses em que ambas as organizações estiveram unidas na VAR-Palmares). Já o fiz no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), então vou resumir:
-- a queda e morte sob tortura do quarto integrante do Comando Estadual de SP, João Domingos da Silva, o Elias, responsável pelas ações armadas, deixou nós outros três à volta com uma enorme crise de segurança, pois o bravo guerreiro não compartilhara com ninguém a localização de depósitos de armas, aparelhos de reserva, dinheiro para emergências, etc. Companheiros se amontoavam nos aparelhos ainda tidos como seguros;
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares na qual seriam escolhidos os dois delegados de SP, avocando a indicação (eu e o Moisés optamos por nós mesmos);
-- o terceiro comandante de SP se uniu, então, aos dois comandantes nacionais que víamos como néo-massistas, dando-lhes a justificativa para um contra-ataque em que fomos, eu e o Moisés, apresentados como golpistas e tivemos nossa delegação anulada;
-- no transcurso do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna guerrilheira e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o chamado
 racha dos sete (o Moisés e eu inclusos), que encampou as principais propostas de nós dois: a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses do Jamil como plataforma política.

No fundo, aquela nossa iniciativa apenas conseguiu direcionar um terço da VAR-Palmares para a única forma de atuação que possibilitava à esquerda armada continuar lutando depois das derrotas terríveis que estava sofrendo, enquanto os dois terços restantes, sem seus melhores combatentes, rapidamente seriam tragados pelas circunstâncias extremadas que a luta assumiu. 

Logo, a união de várias forças da esquerda se tornou não uma opção escolhida, mas um imperativo para a concretização das ações armadas mais ambiciosas que nenhuma delas conseguia mais realizar sozinha.

De resto, eu não poderia deixar de reivindicar o papel que desempenhei no racha dos sete. Ele foi geralmente escamoteado nas histórias contadas por outros autores, pois nada do legado que pretendo a duras penas deixar para a esquerda brasileira faria sentido sem levar-se em conta a origem da estigmatização que eu sofreria, nem o porquê de eu ter-me tornado uma espécie de lobo solitário.

Capítulo 6: Vandré. Raulzito e D. Arns

De 1979 a 1984 trabalhei em revistas de cinema e de música, quando fiquei conhecendo profissionalmente boa parte dos que atuavam em ambas as frentes. Mas houve apenas três nos quais o relacionamento se tornou mais profundo.

O primeiro ainda no tempo do movimento secundarista, quando fomos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para acompanhar uma assembleia para se discutir como o movimento estudantil daria seu apoio à greve de Osasco (a primeira com a tomada de fábricas, seguida pela ocupação da cidade por numeroso contingente de policiais militares).

Os quatro chegamos adiantados e estávamos esperando o começo da assembleia que, como era frequente naquela época, não se iniciaria na hora marcada. Foi quando vimos o cantor e compositor Geraldo Vandré no saguão de entrada, sendo hostilizado pelos universitários.

Era meu ídolo desde que ouvira pela primeira vez sua Canção Nordestina. Depois de descrever a situação de penúria de seu povo (é paraibano) ele lançou um grito que começava baixo mas ia crescendo até me fazer estremecer: E essa dor no coração/ aaaaaAAAAAAIIIIII, quando é que vai se acabar?/ Quando é que vai se acabar?

A partir daí comprei o último dos seus elepês, passei a acompanhar suas aparições na TV e torci por ele nos grandes festivais de MPB. Os companheiros que estavam comigo também gostavam de suas composições, mas nem tanto. 

Vendo-o naquela saia justa, o mais velho de nós, o Diego Perez Hellin, o convenceu a ir conosco ao bar da esquina para tomar umas cervejas conosco. Seria uma saída honrosa para ele, ao invés de retirar-se como um vira-lata escorraçado. 

Por que estava sendo desprezado daquela maneira? É que no recente primeiro de maio, o PCB convencera o governador Abreu Sodré a participar da comemoração do Dia do Trabalhador, mas os partidos e organizações mais à esquerda o apedrejaram tão logo tomou a palavra.  Alguém o acertou e um filete de sangue escorria da testa do governador.

Então o Vandré, para surpresa geral, ajudou o Sodré a escafeder-se, indo se abrigar na catedral da Sé. A foto dessa ajuda foi publicada na capa da Folha da Tarde e, por não saberem que o Sodré era velho amigo do  artista, os universitários passaram a xingar o Vandré de traíra

Bem mais tarde, um amigo confiável me contou que, quando trabalhava na Imprensa do governo paulista, constatara que o Sodré abrigava o Vandré em pleno Palácio dos Bandeirantes. Era raro um político profissional correr o risco de esconder alguém caçado pela repressão. 

O bate-papo com ele durou algo entre duas e três horas. Canções foram cantadas e o Vandré nos mostrou a que ele estava então criando, os versos escritos num papel grande de embrulhar pão, com várias palavras riscadas e substituídas por outras. Era a Caminhando

Ou seja, ficamos conhecendo previamente a canção que seria símbolo da luta contra a ditadura militar e faria os milicos destruírem a vida do Vandré.

Quando a Caminhando  (ou Pra não dizer que não falei das flores) se tornou quase um hino revolucionário, ninguém ou quase ninguém ficou sabendo que a música havia sido composta pelo Vandré para reafirmar suas convicções, tipo eu continuo o mesmo e ainda acredito nas mesmas coisas

Nem que quisesse eu poderia divulgar o episódio como merecia, pois, além do receio de ser novamente preso, construíra uma reputaçãozinha como crítico de rock e não tinha cacife para expor na grande imprensa algo tão polêmico. 

Naquele momento em que a distensão lenta, gradual e segura do ditador Geisel estava no auge, a Caminhando foi liberada e a cantora Simone a relançou em dezembro de 1979. Levei ao Vandré a proposta de escrever algo sobre ela para um pacote de revistas importantes e ele respondeu que, como não tinha disco para lançar, não tinha motivo para aparecer na imprensa. 

Mas acabamos conversando, novamente por duas ou três horas, no apartamento da rua Martins Fontes em que ele morava havia muito tempo. Ele pediu para manter em off tudo que rolou nesse papo e eu cumpri a promessa. 

Fiquei, no entanto, muito frustrado porque teria algo significativo a revelar:
-- que, embora passasse por louco, o Vandré falava coisa com coisa. Disse, p. ex., que a Caminhando poderia voltar a ser sucesso na voz da Simone, mas ele não deveria voltar junto. Ou seja, insinuava que poderia ser retaliado pela repressão ou alvo dos atentados terroristas de extrema-direita que estavam ocorrendo;
-- que só voltaria a cantar no território nacional quando aqui vigesse a plenitude democrática (e honrou sua promessa, indo apresentar-se no Paraguai, ainda que nas proximidades da fronteira com o Brasil);

Eu gostaria de haver lançado um texto atestando que o Vandré não estava biruta, mas a ocasião não se apresentou. Só o fiz após a devolução do poder à cidadania. 

Mas, quando o jornalista Vitor Nuzzi lançou uma biografia do Vandré, reacendendo a discussão sobre o equilíbrio mental do artista, eu publiquei uns 10 artigos negando tal hipótese. 

Um dos meus principais argumentos foi o de que, ao desembarcar no Galeão em 1973, policiais praticamente o sequestraram e o internaram numa clínica carioca na qual ele permaneceu 58 dias sem poder falar com parentes, advogado ou demais pacientes.  O que terá acontecido com ele nesses 58 dias de incomunicabilidade?   

O também músico Benito di Paula teve a mesma dúvida e a expressou nestes versos: O que fizeram com ele? Não sei./ Só sei que esse trapo, esse homem, foi um rei.

*  *  *

Com o Raul Seixas mantive um relacionamento fugaz, mas pitoresco. Eu tinha passado batido pelo lançamento, em julho de 1973, do seu primeiro disco, Krig-ha Bandolo! 

Em dezembro desse mesmo ano, Jards Macalé reuniu muitos dos melhores músicos da época  num show comemorativo dos 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A gravadora RCA tentou lançá-lo em 1974, com o título de O banquete dos mendigos, mas foi proibido pela censura e recolhido nas lojas.

Com a distensão do ditador Geisel, ele foi lançado em 1979 e eu finalmente fiquei conhecendo a canção Cachorro Urubu. E, ao escutar Raul Seixas a interpretando, foi como se um raio me atingisse. Os versos alusivos ao maio de 1968, a primavera de Paris, eram um arraso: Todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era/ que não é mais primavera/ oh, baby,  a gente ainda nem começou.

Depois fiz questão de ir numa coletiva de imprensa do disco Abre-te, Sésamo, e o Raul estava hilário. Então, ao escrever sobre o novo LP, gastei só umas 8 linhas com a parte comercial e umas 50 reproduzindo o que havia rolado no almoço com o Raul, a Kika (última namorada da vida dele) e o divulgador da CBS.

Os artistas quase nunca mandavam um obrigado! pelo que jornalistas tinham escrito sobre eles. O Raul foi uma exceção, ligando para me convidar a uma boca livre da CBS. Tornamos a nos ver mais duas ou três vezes, mas, como não se podia estar com o Raul sem tomar pelo menos metade do que ele bebesse, esqueci quase tudo que conversamos.

O que eu percebi dele é que, como eu, tinha 1968 como um grande referencial de sua vida. A coisa era exatamente como ele contou em Ouro de tolo: dera um duro danado para chegar onde estava e aí viu que não era exatamente isso que queria na vida (Eu é que não me sento/ no trono de um apartamento/ com a boca escancarada, cheia de dentes/ esperando a morte chegar). 

Na minha opinião, o Raul sonhara com sua consagração musical ocorrendo numa época igual a 1968, mas o que obtivera foi a necessidade de ajustar-se a uma sociedade aviltada e detestável.  

Quando estávamos nos embriagando, ele não fazia nenhuma das palhaçadas que ajudavam a vender discos. Era bem diferente de sua imagem pública.    

Recordo também quando contou que ele e o Paulo Coelho, antes do sucesso, traduziam para próprio uso os livros de bruxos famosos, como o Aleister Crowley. Ambos aproveitaram de forma diferente tais ensinamentos: o Raul com a sociedade alternativa e o Paulo com suas lorotas sobre ser um mago.                                                                                    *  *  *
Finalmente, fiz uma entrevista adequada com D. Paulo Evaristo Arns, a quem respeitava pelo seu destemor ao enfrentar a ditadura militar e a hierarquia católica conservadora. Mas em algum momento a parte formal deu lugar a um papo franco sobre nossas histórias de vida. Isto foi antes de minha reabilitação.

Na hora de ir embora, mesmo com dificuldade para andar e corcunda por causa de um atentado terrorista que sofrera em qualquer país latino-americano (não disse qual), ele se levantou para acompanhar-me até o portão. 

Tentei dissuadi-lo, porque era uma caminhada longa do gabinete dele até a saída do mosteiro de São Francisco. Não adiantou. 

Depois, digerindo na memória tudo que ocorrera, lembrei-me do seu olhar determinado, que brilhava ao falar sobre seus grandes momentos, como a missa de sétimo dia que ele rezou em memória de Vladimir Herzog, dividindo o púlpito com sacerdotes de duas outras confissões, sem deixar-se intimidar em nenhum momento. Tinha alma de guerreiro.      

                           capítulo 7: PT expulsa o PT

Constatai desde cedo que o Partido dos Trabalhadores era meramente reformista, mas, para não dividir as fileiras da esquerda, tentei manter com o PT uma coexistência pacífica. 

Resolvi só entrar em choque com o dito cujo quando ele espezinhasse valores fundamentais da esquerda. As medidas governamentais das prefeituras petistas e (a partir de 2003) do Governo Lula, estas eu poupava de críticas públicas.

Mas, o diabo é que o PT estava sempre mandando às favas aquilo no que a esquerda acreditava, então não pude deixar barata a injustiça cometida contra o Paulo de Tarso Venceslau, muito parecida com a cometida contra mim em 1970. 

Continuavam vivas na minha memória as lembranças da excelente imagem da qual a esquerda desfrutava quando a ditadura militar foi atirada na lixeira da História 

Éramos convidados a todo momento para reuniões com a intelectualidade engajada e nelas recebidos com muito respeito, por termos aceitado o desafio de enfrentar o inimigo fardado mesmo sob um desembestado terrorismo de estado. Se não nossas propostas, pelo menos os enormes sacrifícios que fizéramos eram reconhecidos. 

Então, quando dirigentes do PT começaram a chafurdar na mesma lama dos políticos profissionais, foi a gota que transbordou o copo. 

Economista competente e petista abnegado, o PT Venceslau (como ele era apelidado) já se indignara com a vinda à tona de denúncias fundamentadas de conluios com a putrefata Odebrecht. 

E mais inconformado ficou quando, em duas prefeituras comandadas pelo partido (as de Campinas e São José dos Campos) seu excelente trabalho como secretário das Finanças foi interrompido porque ele se recusava a compactuar com a podridão.

Venceslau teve a paciência de aguardar durante dois anos que o Zé Dirceu, a quem ele recorreu, tomasse providências. 

As queixas consistiam em que seu afastamento das duas prefeituras se deveu a ele ter-se negado a pagar valores exorbitantes à CPEM, por serviços de consultoria não prestados. A CPEM pertencia a Roberto Teixeira, compadre do Lula, a quem fornecia gratuitamente um apartamento de cobertura no ABC para morar com a família. 

Aparentemente, tal desvio ilegal de verbas não se destinava aos bolsos de algum chefão do PT, servindo para o financiamento de campanhas eleitorais. Mesmo assim, Venceslau tinha total direito de não envolver-se com falcatruas, ainda mais quando cometidas em pastas que estavam sob sua responsabilidade.

Cansado de esperar em vão, Venceslau botou a boca no trombone, em entrevista para o Jornal da Tarde. Como resposta ao escândalo, o partido criou uma Comissão Especial de Investigação, presidida por Hélio Bicudo (o homem que derrotou o Esquadrão da Morte). 

A salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser investigado como corruptor. 

Mexeram-se os pauzinhos e tai decisão foi virada ao avesso, com a punição do militante digno e a condescendência para com seu contrário. O boato que então circulou amplamente foi o de que, caso Teixeira fosse expulso como deveria, o Lula sairia do PT junto com ele.

Acreditando que sua decisão prevaleceria, a Comissão de Investigação incluiu no relatório final este trecho que acabou soando hilário: 
Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis.
Fui o único esquerdista a solidarizar-se com o Venceslau em artigo da grande imprensa (o Jornal da Tarde paulistano); havia muitos militantes renomados que gostariam de fazer o mesmo, mas permaneceram  em cima do muro. Daí o carinho que tenho por esse episódio em que dei uma pequena amostra do meu valor, por tantos negado durante tanto tempo.

Foi também o instante em que o PT se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar (e revolucionário!!!) para preservar uma maçã podre. 

Hoje considero que deveria ter expressado minha discordância bem mais cedo, ainda na década de 1990, quando o partido começou a expurgar as tendências revolucionárias que atuavam no seu interior.   

Mesmo sofrendo perseguições, eu agi como era correto, além de ter acertado em cheio na previsão de que a abertura desse precedente escancararia a porteira para o desvirtuamento do PT. 

De resto, o destino fez questão de dar um final diferente para essa história, pois em 2017 os mesmos personagens (Odebrecht, Lula, PT e Roberto Teixeira) foram emporcalhados por uma 
delação premiada referente a corrupção. Vinte anos depois, continuavam os mesmos... 

         capítulo  8: o lulu de madame 
Mais uma vez alguém entrou na minha vida para mostrar-me um caminho, como ocorrera em 1967, quando troquei a literatura europeia existencialista pelos autores brasileiros engajados.

Meu patrão era então o produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional

Num fim de uma tarde, o Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e me coube ficar fazendo sala para ele. 

Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para conhecer o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.

Depois o Mozart me contou que os dirigentes do partido ao qual ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria uma pessoa na base do disse-me-disse.

Acabamos nos dando bem e entrei para o grupo, participando de reuniões e edições, recitando uma poesia combativa para públicos de 40 pessoas, etc. 

Percebi que a convivência com companheiros me fazia muita falta. Ainda bem que tal espaço começava a ser preenchido!

Num sábado, nossa reunião político-literária foi visitada por um companheiro de Natal, Rubens Lemos, que veio pedir-nos ajuda. Era pai de um dos seis aloprados que resolveram expropriar um banco, embora a ditadura já houvesse terminado (era 1986). 

Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).

Em desespero de causa eles resolveram entrar em greve de fome dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.

Eu era o único com know-how  para desempenhar tal papel, então  me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.

O problema principal era que pertenciam ao PT como fachada e ao PCBR por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse. 

A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negava-lhes a solidariedade revolucionária por já então estar abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.

Então, a direita era contra eles e a esquerda os abandonava. Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.

Mandei um dossiê para o colunista da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro, Newton Rodrigues. Sabia que era de esquerda no tempo do golpe de 1964, quando havia integrado a corajosa equipe de redatores do Correio da Manhã. Mas ignorava que ele assessorava o ministro da Justiça na remoção do entulho autoritário

O Newton publicou na sua coluna que recebera de mim uma denúncia fundamentada sobre perseguições sofridas pelos quatro e a levara ao conhecimento do ministro.

No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça. Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio. 

Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição que eu tinha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!

Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que endossariam uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.

Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos. 

Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.  

* * *

Lá por 1975 recebi uma oferta do jornalista Luiz Aparecido da Silva, do PCdoB, um amigo do Mozart da Cacimba. Ele se propôs a reunir a imprensa para ouvir uma denúncia minha sobre as torturas que sofrera e que acabaram desembocando no estouro do meu tímpano direito e no meu arrependimento forçado. 

Aceitei em princípio, mas avisei que detalharia as torturas desde que me fosse possível contar também como a VPR me fizera de bode expiatório de uma culpa que não era minha. 

Como prêmio seria recebido no PCdoB para reatar minha militância começando por baixo (aliado ou simpatizante, não me recordo mais). Tive vontade de aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.

Mas surgiu um pomo da discórdia: se relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, o PCdoB temia que estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.

Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.

Mas em 1979, quando voltei a estudar para completar o curso de jornalismo que me livraria de perseguições do sindicato da categoria por estar exercendo a profissão sem diploma de nível universitário, não passou nem um mês e eu era convidado a participar de uma reportagem da IstoÉ sobre os arrependimentos de esquerdistas. Eu concordei e fui o mais incisivo na crítica às práticas do terrorismo de estado

Em seguida o jornal gaúcho Zero Hora fez uma série de reportagens sobre o mesmo assunto e novamente botei a boca no trombone. Aos leitores que estejam estranhando meu desmentido da ditadura em plena ditadura, lembro que em março de 1974 o carniceiro Emílio Médici deixara de torturar o Brasil, substituído pelo pacificador Ernesto Geisel. Eu continuava correndo algum perigo, mas bem menor do que no governo anterior. 

Já a participação na reportagem da IstoÉ tinha mesmo sido temerária, mas eu nunca perderia a oportunidade de divulgar as circunstâncias do meu arrependimento forçado, uma pedra dolorosa no meu sapato. 

Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela ele encaixou, forçando a barra, um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR. 

Travamos uma polêmica com três intervenções cada e eu deixei para a última delas a informação de que as áreas de treinamento guerrilheiro eram duas, a que abandonamos e a que foi invadida pela repressão. Como ninguém jamais havia falado nessa segunda, coloquei uma dúvida na cabeça de muita gente da esquerda.

O Paiva inclusive deixou de me atacar no terceiro texto, no qual se esforçou para desmentir a imagem de inquisidor que eu lhe impusera, afirmando ser um bom moço que gostava de samba, carnaval, mulheres e futebol...

Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.

Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por alguém preso no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?

Tive a ideia de levar o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais documentos secretos sobre o assunto, iria consultá-lo e me daria retorno.

Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo. A Folha publicou na íntegra a carta do Gorender. 

Fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que havia sido acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.

Mas, ainda havia lutas a ser travadas e, mesmo com a idade de 57 anos, sobrava-me disposição para travá-las. 

Aprovado no vestibular para a ECA-USP, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria  se tornando a minha primeira esposa.  E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.

Estavam prestes a formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.

Sem grana nem vontade de fazer análise, a comuna foi minha salvação. Acabei exorcizando sozinho meus fantasmas, mas vivendo novamente em grupo, num momento em que a bestialidade da ditadura grassava solta. Passei pelas experiências que me faziam falta, como ter um amor tórrido com uma das meninas, a V.

Quando ela viajou a Minas Gerais para visitar os pais e decidiu ficar por lá, fui atrás quase sem grana, numa última tentativa de convencê-la a mudar seus planos. João, meu melhor amigo naquela comunidade, fez questão de ir junto, temendo algum descontrole da minha parte. Fomos de carona em caminhões e voltamos com um empréstimo do pai dela, após passarmos uma tarde inteira tentando, em vão, descolar uma carona.

Depois de passar vários meses sendo sustentado pelos companheiros da comunidade que tinham emprego, quando eles ficaram desempregados avaliei que era meu dever tomar-lhes o lugar, naquele que seria o primeiro de uma longa lista de trabalhos 
em assessoria de imprensa, suficiente para pagar sozinho o aluguel do casarão.

Como principal tarefa, eu fazia a divulgação do primeiro congresso de mastologia que teria lugar no Brasil. 

Mas minha chefe, por divergências internas, me colocou sozinho para fazer o trabalho de três ou quatro funcionários, exatamente para que eu fracassasse. Tinha de: 
-- saber o que rolava nas várias sessões, 
-- escrever sobre o que surgisse de interessante, 
--receber jornalistas e colocá-los em contato com quem pudesse falar sobre o tema por eles escolhido,
-- redigir os press-releases, tirar cópias, envelopá-los, encaminhá-los.

Foi a primeira vez em que a minha tenacidade foi testada. Fazendo das tripas, coração, cumpri todas as funções e tive o faro jornalístico de perceber a importância do discurso do ministro da Saúde na abertura dos trabalhos. Trouxera dados comprovando que o câncer de mama, do qual pouco se falava, era um grave problema de saúde no Brasil. 

Quase arranquei da mão dele o discurso que acabara de proferir e do qual não havia trazido cópia. Fiz uma apresentação de umas 10 linhas e enviei a íntegra do discurso para a imprensa do País inteiro. Saiu como água, inclusive sendo manchete do dia de jornais importantes.

Mal sabia que estava inaugurando uma prática que muitas vezes repetiria depois, tanto profissionalmente quanto nas batalhas idealistas.  No lançamento do meu livro, um dos críticos escreveu que (no bom sentido) eu era um homem muito teimoso. E era mesmo.

Como quase todos nessas comunidades, experimentei as drogas. A maconha e os remédios que davam barato (como o Artane) não me entusiasmaram, mas o LSD sim. Não pelo início da 
viagem, que chegava a ser desagradável, mas pelo seu final. 

Conforme o efeito ia passando, eu sentia uma calmaria extrema, como se fosse um espírito observando a faina insensata dos vivos. Anotava a esmo o que me vinha à cabeça e mais tarde transformava os apontamentos em poesias, algumas boas, outras nem tanto. 

Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.

Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma, revivi o drama histórico do confronto entre Stálin e Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade plena.

Uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. 

A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.

A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, a A,, da qual me reaproximara. 

Esgotado pelo frenesi em que levara a minha vida nos últimos anos, decidi conceder-me o repouso do guerreiro. 

Desinteressei-me da realidade sufocante da ditadura, que grassava lá fora, e passei a me restringir  ao aqui dentro da minha toca, dividindo a existência entre o trabalho alienado durante o dia e, à noite, os rocks de terceira geração que eu preferia: King Crimson, Pink Floyd, Yes, Focus, Genesis, Moody Blues, etc.

Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha páginas a escrever no livro da vida. 

capítulo 9: o racha da VAR-Palmares

Nunca superestimei a duração da minha existência, mas um grave atropelamento e duas hospitalizações por problemas cardíacos me alertaram de que estar vivo era um acaso e eu poderia morrer de um momento para outro, às vezes sem sequer perceber. 

Tal consciência me fez ficar bem mais preocupado com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem sabia se teria condições para reproduzir fielmente o que vivenciara lutando pelos ideais revolucionários.

Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado na ação concreta do que em colocá-lo na tela e no papel como uma espécie de autobiografia precoce (lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz nas lutas sociais). Pois é disto que se trata: dar, ainda vivo, uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.

Espero que este balanço da minha jornada sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei. 

Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira. 

Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu dos de tantos outros companheiros que iam às ruas confrontar a ditadura militar. Aceitávamos todas as missões e nos desincumbíamos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com o AI-5. Eles preferiram não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas mesmo assim se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coisa: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela inesperada designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras batalhas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), me tratavam, quanto muito, com condescendência.

Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  justificava uma promoção tão precoce

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.  Era, contudo, algo que eu não cogitava, nem sequer pretendia. Não tinha obsessão pelo poder e, aos 18/19 anos, menos ainda

Aluguei um apartamento em parceria com outro comandante estadual, o José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para  ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés (seu codinome), um remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, me familiarizei com a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista e massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. 

Houve, em seguida, aquele congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei tecebendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.

O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão pouco depois com o Comando de Libertação Nacional, uma organização congênere, manteve o mesmo desenho: quatro comandantes incumbidos da luta principal e os outros dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

O Moisés e eu começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a união VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, preconizando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o fortalecimento da ala massista

Ademais, os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa e Carlos Franklin da Paixão Araújo. Concluímos que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior do que nossas pernas se uma munição inesperada não houvesse caído do céu. Ao percebermos que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um texto que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato com um artigo que, sem ser brilhante, cumpriu a função de tornar mais compreensível o que Jamil (Ladislau Dowbor) teorizava.

A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas 
Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 

Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. E, claro, atraí sobre mim os piores pesadelos imagináveis.

Mas, toda vez que alguém me pergunta se isso valeu a pena, eu respondo que o Brasil seria um país patético se pelo menos uns 3 mil dos seus 94,05 milhões de habitantes de então não houvessem arriscado a vida na luta desigual contra uma ditadura bestial e infame. 

Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país.  

O relatório de operações do II Exército na Operação Registro, do qual só tomei conhecimento em 2004, historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com a nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Tive um vislumbre dessa verdade quando, em algum dia da semana seguinte, fui levado às duas áreas de viatura, provavelmente como um teste para averiguarem se eu sabia mais do que revelava. Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia informação nenhuma útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi que era dela que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam afastados, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, aproveita agora que não tem ninguém olhando!

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar bala nas costas.

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga, onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que me esforçava para aparentar. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

Quanto ao Lamarca, com o tempo fui compreendendo melhor seus motivos. Apostara tudo na sua visão de guerrilha rural e, quando teve a oportunidade de partir para o tudo ou nada (já estava na selva, armado e conduzindo um grupo de aprendizes de guerrilheiros), percebeu que não tinha como sobreviver ao poder de fogo imensamente superior do Exército, só lhe restando, como opção para salvar a si próprio e a seus comandados, a volta para a cidade.

Num momento tão dramático, ele resolveu sacrificar a minha reputação para tentar salvar o seu sonho: a verdade nua e crua lançaria sérias dúvidas sobre a competência da VPR para ainda lançar sua guerrilha rural.

E por quê? Certamente porque preservar a pessoa presa no sábado era mais importante para a VPR  do que preservar a minha credibilidade revolucionária. Mas, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante.

Ao ficar sabendo, depois de libertado, como tinha sido o final de vida do Lamarca, resolvi não questionar mais a decisão que tomara a meu respeito e quase me destruíra. Afinal, tendo entregado a vida em nome de suas convicções, ele fizera por merecer a minha compreensão.

capítulo 10: o Debray brasileiro

O Jamil (Ladislau Dowbor) era um militante brasileiro de ascendência polonesa que, após absorver novidades importantes em teoria revolucionária durante seus estudos acadêmicos em Israel e na Europa, voltara ao Brasil para participar da luta armada, ingressando na VPR. Sua trajetória lembra muito a do francêsRegis Debray, outro scholar que se envolveu com a guerrilha, foi preso, mas depois fez carreira brilhante, 

Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica de suas teses. Exatamente pela difícil compreensão, não haviam despertado o interesse da grande maioria dos quadros da organização.

O que me pareceu um verdadeiro ovo de Colombo foi sua conclusão. Se não, vejamos. 

A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964,  acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democratico-burguesa na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo. 

Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante tal fase.

O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas empenhados em aprofundar os motivos da derrota infame diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).

O Jamil simplesmente quebrou o brinquedo predileto dos scholars de esquerda, que adoravam discutir se quem estava certo era Nelson Werneck Sodré com sua revolução inicialmente popular ou Caio Prado Jr. com sua revolução socialista desde o início.

Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, como o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante quase meio século, após vencer a disputa com os anarquistas na década de 1920 e incorporar a maior parte deles às suas fileiras. 

Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.

E seria também o próprio transcurso do processo revolucionário que daria a última palavra sobre se haveria ou não uma etapa democratico-burguesa. Os que a pregavam lutariam por ela, mas certamente não se deteriam caso tal etapa fosse ultrapassada de passagem e o processo seguisse adiante; nem os adeptos do socialismo direto tinham motivo para ficar querendo comprovar sua estratégia no blablablá se poderiam fazê-lo na prática.

Assim, cada partido e organização de esquerda começaria perseguindo seus objetivos por si só, no seu território próprio e com os recursos que possuísse, depois alianças iriam se forjando ao sabor da luta.

Enquanto isso, os neo-massistas continuariam procurando atuar simultaneamente na luta armada e no trabalho de massas, embora a segunda tarefa ensejasse vulnerabilidades enormes para a primeira. Tanto que desempenhou papel secundário nas lutas travadas dali em diante. 

Seria ocioso relatar de novo, detalhadamente, como transcorreu este novo processo de luta interna nas fileiras da VPR (com o acréscimo dos quadros do Colina, durante aqueles poucos meses em que ambas as organizações estiveram unidas na VAR-Palmares). Já o fiz no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), então vou resumir:
-- a queda e morte sob tortura do quarto integrante do Comando Estadual de SP, João Domingos da Silva, o Elias, responsável pelas ações armadas, deixou nós outros três à volta com uma enorme crise de segurança, pois o bravo guerreiro não compartilhara com ninguém a localização de depósitos de armas, aparelhos de reserva, dinheiro para emergências, etc. Companheiros se amontoavam nos aparelhos ainda tidos como seguros;
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares na qual seriam escolhidos os dois delegados de SP, avocando a indicação (eu e o Moisés optamos por nós mesmos);
-- o terceiro comandante de SP se uniu, então, aos dois comandantes nacionais que víamos como néo-massistas, dando-lhes a justificativa para um contra-ataque em que fomos, eu e o Moisés, apresentados como golpistas e tivemos nossa delegação anulada;
-- no transcurso do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna guerrilheira e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o chamado
 racha dos sete (o Moisés e eu inclusos), que encampou as principais propostas de nós dois: a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses do Jamil como plataforma revolucionária.

No fundo, aquela nossa iniciativa apenas conseguiu direcionar um terço da VAR-Palmares na única direção possível para a esquerda armada continuar lutando depois das derrotas terríveis que estava sofrendo; enquanto isto os dois terços restantes, sem seus melhores combatentes, rapidamente foram tragados pelas circunstâncias extremadas que a luta assumiu. 

Logo, a união de várias forças da esquerda se tornou não uma opção escolhida, mas uma tábua de salvação  para a concretização das ações armadas mais ambiciosas que nenhuma delas conseguia mais realizar sozinha.

De resto, eu não poderia deixar de reivindicar o papel que desempenhei no racha dos sete. Ele foi geralmente escamoteado nas histórias contadas por outros autores, mas o legado que pretendo a duras penas deixar para a esquerda brasileira ficaria bem prejudicado se não levasse em
 conta a origem da estigmatização que eu sofrera, nem o porquê de eu ter-me tornado uma espécie de lobo solitário.

Para deixar bem esclarecido o episódio da queda da área de treinamento ativa da VPR no Vale do Ribeira, precisarei servir-me de informações das quais eu não dispunha naquele momento, mas foram chegando às minhas mãos nas décadas seguintes.

Assim, tendo eu aberto no final da tarde de 16/04 a localização da área abandonada, mas omitindo que ela havia sido desocupada pelo menos um mês antes, os analistas do DOI-Codi suspeitaram de que lhes entregava calhau como ouro e só despacharam uma equipe para investigar. 

Tal equipe  vasculhou, em 17/04, o sítio que nos servira de fachada e, ao voltar no dia seguinte para a capital, apenas comunicou que realmente houvera trabalho guerrilheiro no local, mas dele nada restava. Voltou com as mãos abanando.

A nova prisão de militante, na manhã de 18/04, foi a que justificou o lançamento da Operação Registro, pois forneceu o pacote completo à repressão: a existência de uma segunda área e de alguns aliados da VPR morando naquela região.

Com as novas informações, o DOI-Codi começou a montar o cerco de Registro. Daí tantos oficiais superiores não pertencentes a seus quadros terem sido chamados às pressas para uma reunião em plena tarde de sábado. E, como pensaram em obter mais detalhes por meu intermédio, me conduziram à sala em que uns 40 deles esboçavam seus planos de ação. 

Descuidados, nem se incomodaram em evitar que eu cruzasse no corredor com a pessoa que deve ser a verdadeira responsável pela entrega da área ativa. [Havia também uma pequena possibilidade de a repressão ter chegado à área 2 por meio dos nossos aliados que prendeu, mas estes, eu soube depois, só foram aprisionados na segunda-feira].

Acabei sendo-lhes inútil por causa da minha pressão ter disparado. Receavam que uma nova morte de jovem reavivasse a onda mundial de repúdio por eles sofrida quando da morte do Chael Charles Schreier. E não me escapou que haviam descoberto algo muito importante

No domingo, 19/04, ambos fomos juntos transferidos, de carro, para a sede paulista do DOI-Codi, na rua Tutóia.  E na manhã do dia 20, embarcados num caça da FAB para o palco das ações. 

Aí me caiu a ficha de qual era a peça do quebra-cabeças que ainda estava faltando. Pois, quando Lamarca resolveu abandonar a área 1 e desenvolver a área 2, passou a sair de manhã cedinho com o motorista para ir comandar os preparativos. Voltavam no começo da noite se queixando de estarem com a bunda doendo de tantos quilômetros de rodovia que teriam percorrido sentados.

Era, percebi depois, uma encenação para eu e o Massafumi, que já havíamos decidido não continuar no trabalho de campo, ficarmos supondo que a nova área seria uma região rural em que pipocavam conflitos fundiários na Paraná. Na verdade, a área 2 distava apenas uns 25 quilômetros da área 1.

Mas, moradores iam recolher palmito na mata e poderiam a qualquer momento desconfiar dos novos moradores (nós), além de estarmos demasiadamente próximos da rodovia BR-116. 

Por que abandonarmos a área 1 e transferir o trabalho para outro ponto da mesma região? Porque o Lamarca deve ter concluído que a existência de uma base de 4 ou 5 aliados locais da VPR seria valiosa, começando pelo fato de que assim ele logo saberia se a chegada de um contingente mais numeroso de companheiros a serem treinados levantasse suspeitas entre os moradores. 

Ou seja, tomou uma decisão pouco recomendável em termos de segurança por carecer de apoiadores noutras regiões. Optou por correr maiores riscos onde já estava.

Pior ainda foi ter utilizado os préstimos desses aliados para a aquisição dos dois sítios. Dependendo das suspeitas que a repressão viesse a ter, uma simples ida ao cartório lhe revelaria o endereço de ambos.

Nem sequer foi necessário, contudo. A pessoa presa no sábado já deu ao DOI-Codi todas as informações de que necessitava.

O relatório de operações do II Exército na Operação Registro, do qual só tomei conhecimento em 2004, historiou com exatidão o ocorrido: eu dera involuntariamente a primeira pista à repressão ao revelar a localização da área 1, mas isto não foi levado a sério até que, com a nova queda de militante dois dias depois, os militares tomaram conhecimento de que havia também uma área 2, a qual continuava ativa.

Tive um vislumbre dessa verdade quando, em algum dia da semana seguinte, fui levado às duas áreas de viatura, provavelmente como um teste para averiguarem se eu sabia mais do que revelava. Passamos primeiramente pela área 1 e demonstrei que a conhecia. Não havia informação nenhuma útil para eles lá, então minha sinceridade não faria mal nenhum.

Depois fomos para uma segunda área, que eu desconhecia, mas logo percebi que era dela que se tratava. A área 2 ser tão próxima era a peça que me faltava para o quebra-cabeças inteiro fazer sentido.

Mas, claro, fingi nada ter percebido e os militares aparentemente acreditaram. Se soubessem quanta informação útil eu obtive deles porque me subestimavam...

Talvez pela gravidade do que eu intui, foi uma ocasião em que perdi um pouco a serenidade. Um capitão enfastiado, quando os demais milicos estavam afastados, tentou convencer-me a tentar a fuga pelo mato, aproveita agora que não tem ninguém olhando!

Respondi de bate-pronto, sem pensar, apontando o meu peito: Se é para me matar, atira logo pela frente. Não vou correr para levar bala nas costas.

O capitão não insistiu, apenas mandou me levarem de volta para o delegacia de Jacupiranga, onde me guardavam precariamente Se fosse mais profissional, perceberia que eu não era o jovenzinho assustado que me esforçava para aparentar. 

O que me tirou do sério? Foi haver percebido que  minha exclusão da lista de troca do embaixador alemão não deveria ter sido engano, mas sim uma providência necessária para que eu servisse de bode expiatório pela queda da área.

E por quê? Certamente porque preservar a pessoa presa no sábado era mais importante para a VPR  do que preservar a minha credibilidade revolucionária. 

Não tinha dúvida nenhuma de que Lamarca estava ciente da minha inocência; afinal, ele mesmo me havia contado que algum(ns) ex-colega(s) de farda o municiava(m) com informações quentes sobre o que acontecia no DOI-Codi. Tanto que ele não mexera uma palha quando fui preso no dia 16, mas correu a levantar acampamento e iniciar sua fuga quando a outra pessoa foi presa no dia 18.

Ter chegado à conclusão de que provavelmente estaria sendo desacreditado pela organização quando me esforçava ao máximo para preservar seus principais quadros foi a gota d'água que extravasou o copo, pois se acrescentou: 
— ao impacto das torturas (bem maior do que eu esperava); 
 à profunda decepção que me causara a briga de foice no escuro na qual se constituíra o congresso da VAR-Palmares; e 
— ao remorso que sentia por não haver zelado melhor pelos companheiros cujo ingresso na VPR eu liderara.

Daí a prostração que tomou conta de mim no final de julho. O arrependimento forçado que me impuseram parecia insignificante diante de tudo que eu já havia sofrido. 

E, no fundo, realmente era uma mera armação dos serviços de Guerra Psicológica das Forças Armadas. Quem acreditava naquilo engoliria qualquer coisa. 

Mesmo assim, feria demais o meu amor próprio lembrar-me daquela madrugada de pesadelo na sede da Rede Globo no Jardim Botânico. Quis até acreditar que nada daquilo acontecera, mas, no fundo, sabia que ficara muito aquém da imagem que eu tinha de mim mesmo.

Contudo, dos tempos em que devorava os livros de Sartre e Camus, me restou a disposição de nunca buscar consolo fácil. Considerei definitivo aquele péssimo momento e assumi comigo mesmo o compromisso de superá-lo com o que fizesse doravante.

Ao sair da prisão já recobrara a combatividade. A luta armada havia sido inviabilizada por décadas, mas resistir ao capitalismo, ainda que de outra maneira, continuava sendo um imperativo absoluto para mim.

Quanto ao Lamarca, com o tempo fui compreendendo melhor seus motivos. Apostara tudo na sua visão de guerrilha rural e, quando teve a oportunidade de partir para o tudo ou nada (já estava na selva, armado e conduzindo um grupo de aprendizes de guerrilheiros), percebeu que não tinha como sobreviver ao poder de fogo imensamente superior do Exército, só lhe restando, como opção para salvar a si próprio e a seus comandados, a volta para a cidade.

Num momento tão dramático, ele resolveu sacrificar a minha reputação para tentar salvar o seu sonho: a verdade nua e crua lançaria sérias dúvidas sobre a competência da VPR para ainda lançar sua guerrilha rural.

Ao ficar sabendo, depois de libertado, como tinha sido o final de vida do Lamarca, resolvi não questionar mais a decisão que tomara a meu respeito e quase me destruíra. Afinal, tendo entregado a vida em nome de suas convicções, ele fizera por merecer a minha compreensão.

Aí, em 2007, quando a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concedeu a seus entes queridos uma pensão equivalente à de um coronel de Exército e as viúvas da ditadura bateram pesado em tal decisão, com o apoio repulsivo da grande imprensa, não suportei ver a omissão de tantos sobreviventes da nossa luta, que tinham o dever moral de defender a Família Lamarca.

Ao ter certeza de que não o fariam, entrei na polêmica,  confrontando a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e a Veja. Eu tinha a obrigação de ser maior do que aquela ralé que o atacava com tanta fúria, como se continuasse temendo o seu  desprendimento e coragem.   

Epílogo: sem lei, nem rei

Gostaria de deixar como legado, para os que virão depois de mim, o fim da exploração do homem pelo homem. Não consegui.

Agora me caiu a ficha de que raríssimos revolucionários conseguem realizar algo tão grandioso como aquele com o qual sonhavam. Nem sequer algo duradouro. Desde a Comuna de Paris nossas vitórias têm sido temporárias e nossas derrotas, devastadoras. 

Mesmo assim,  não me arrependo do rumo que segui e das opções que fiz. Sou incapaz de imaginar-me como um homem egoísta, movido por ambições menores, indiferente às vítimas do terrorismo de estado que assolou o Brasil. 

Quando, nas minhas palestras, alguém me perguntava se tinha valido a pena sacrificar tanto para obter tão pouco, eu respondia que já era deplorável um país de 90 milhões de habitantes haver apenas uns 3 mil  dispostos a correr os riscos de lutar pela liberdade, ainda que seja em enorme desigualdade de forças; menos do que isto seria vergonhoso.

Assim como a Resistência Francesa não conseguiu vencer os nazistas (as tropas aliadas é que o fizeram) mas salvou a honra da França, nós não acabamos com a ditadura nem fizemos a revolução, mas salvamos a honra do Brasil. Depois de tanta derrota sem luta, finalmente uns poucos enfrentamos a repressão na praia dela, o campo de batalha, e até obtivemos êxito em alguns momentos. 

A partir daí, os rompimentos de paradigmas foram se sucedendo:
**  oito jovens, com idades entre 17 e 21 anos, terem partido para a luta armada, exatamente quando os quadros  mais velhos e mais experientes dela se distanciavam, por ter-se tornado quase kamikaze a partir da decretação do ato institucional número 5;
** minha surpreendente designação, aos 18 anos, para a posição de comandante estadual da VPR e meu papel do racha da VPR, iniciado por mim e pelo José Raimundo da Costa (Moisés);
** eu ter resistido a uma proposta de reingresso num partido de esquerda, em meados da década de 1970, desde que desse uma entrevista a jornalistas do Brasil e correspondentes do exterior, relatando as torturas a mim infringidas mas omitindo que a VPR consentira na minha estigmatização, mesmo sabendo que eu sequer conhecia a localização da área 2 de treinamento, estourada pela repressão (ao contrário de muitos outros militantes que aceitaram fazer mea culpa insinceras para serem readmitidos como coitadinhos, esperei  34 anos mas resgatei a verdade e o respeito dos companheiros).

Cedo percebi que, depois de destruída a VPR, não havia mais dirigentes que fizessem questão de que eu fosse mantido como bode expiatório de fatos ocorridos em 1970. O problema era eu não aceitar a infalibilidade dos comandantes. Minha reabilitação implicaria o reconhecimento de uma injustiça dos mandachuvas, ainda que de outra organização, e era isto que os incomodava.

Mas ceder a eles seria a negação de tudo que aprendera na prisão quando, finda a fase das torturas, refletia longamente sobre o que acontecera conosco. Era difícil eu aceitar que, embora estivéssemos basicamente certos, houvéssemos sofrido tamanho massacre.

Para encurtar a história, conclui então que, até o esmagamento da Comuna de Paris em 1871, o socialismo e o anarquismo haviam sido o que Marx sonhara: uma onda revolucionária varrendo o mundo. 

Depois de derrota tão amarga, ingredientes autoritários foram sendo aos poucos acrescentados, até a época atual, quando a esquerda humanista quase desapareceu e as 
nomenklaturas brotaram como cogumelos, incapazes de forjar regimes duradouros e sucumbindo, mais dia, menos dia, às armas, ao consumismo e à lavagem cerebral do capitalismo. 

Como começarmos a desconstruir tal colosso? Minha única certeza é de que não será a partir das eleições de cartas marcadas da democracia liberal. São um engodo. Reproduzem infinitamente o capitalismo, mesmo no seu estado terminal de hoje em dia.

Tantos espertinhos já se proclamaram corregidores de Marx, mas a contradição básica do capitalismo permanece a mesma: ao descolar a produção do consumo, permite que uma parte dos indivíduos viva de forma nababesca e outra parte seja reduzida à pobreza. Então, entre a extrema pobreza e a pobreza em países de renda média, cerca de 44% da população mundial são pobres. Os ricos, aproximadamente 10%.

Há como tornar 44% igual a 10%? É óbvio que não! E, para piorar, é o percentual dos ricos que cresce, não o dos pobres. Então, os exploradores têm um poder de fogo cada vez maior para a preservação de sua condição privilegiada, e não se vexam de utilizá-lo.

Aproximamo-nos de outra grande depressão, que tende a ser mais grave ainda do que a iniciada em 1929 A forma de evitá-la seria colocar o atendimento às necessidades  humanas como prioridade máxima da economia, ao invés do lucro.

Com uma organização social diferente da atual, hoje é possível proporcionar a cada ser humano o necessário para uma existência digna. Os avanços científicos e tecnológicos o respaldam. 

Mas, como chegarmos a isto se, por exemplo, há canalhas no Brasil que movem céus e terras para evitar a introdução da escala 5x2, há tempo insuficiente e abandonada por vários países?!

A crise do subprime, em 2008, já deveria ter servido para alertar os donos de gado e gente que há um tsunami econômico em gestação. Mas, nada consistente está sendo feito para evitá-lo. 

Pelo contrário, o presidente estadunidense Donald Trump torna o mundo cada vez mais desigual e desumano, revivendo as práticas mais sórdidas do capitalismo selvagem, afora esforçar-se em estimular a arrogante imposição da vontade dos países mais fortes sobre as nações mais fracos. 

Mas, desde a crise dos mísseis cubanos em 1962, parece afastada a hipótese de extermínio da espécie humana devido a uma guerra nuclear, como se houvesse um acordo de cavalheiros no sentido de os países mais poderosos não guerrearem entre si com força total. Quanto muito mandam tropas para ajudarem os mais fracos que entravam em confronto com os mais fortes.

Mesmo Trump, a despeito de toda palhaçada, recua quando a situação começa a tornar-se perigosa demais. Não passa de um fanfarrão copiando os blefes de Adolf Hitler na década de 1930.

Uma hipótese mais viável é a de que, como tem acontecido quando há oferta excessiva e insuficiente procura, pipoquem guerras destinadas não a suprimir a espécie humana como um todo, mas sim o excesso de pessoas em situação de miserabilidade que atrapalham o bom funcionamento da economia capitalista.

Quem abandona a África à fome e às pestes é capaz de tudo. 

Outros fantasmas nos assombram. Um deles é o de novas pestes como a Covid 19. Os doutores nos dizem que elas serão bem mais frequentes doravante, exatamente por causa da miserabilidade em que vegetam várias nações e seus povos. São verdadeiras incubadoras de epidemias.  

Teremos de volta os horrores da Idade Média, quando em algumas cidades a população inteira era dizimada? A enorme dificuldade que o mundo teve para controlar a recente pandemia poderá ser reeditada em maior escala? Os países ricos se interessarão pelas miseráveis ou as deixarão sucumbir à mingua?

O aquecimento global é um pesadelo em si e também devido à lerdeza com que são tomadas medidas que já no século passado sabíamos ser obrigatórias. A substituição da energia fóssil por energia limpa perde quase todas paradas  para o lucro e a ganância, mesmo podendo exterminar a espécie humana. Até quando?

E a energia nuclear está sendo encarada, na prática, como alternativa à energia suja. Fukushima nada nos ensinou? A possibilidade de ocorrerem terremotos e maremotos  é ampliada em muito pelas alterações climáticas. E se alguma usina nuclear deixar radiatividade escapar ou for invadida pelas águas? O preço que a humanidade poderá parar pelos aquecedores no inverno é aterrador.

Isto sem falar no progressivo esgotamento dos recursos indispensáveis para nossa sobrevivência, desde alimentos até a agua (que progressivamente terá de ser buscada cada vez mais longe).

Tudo isso pode acontecer simultaneamente, com os males se alimentando um ao outro.  E tenho sérias dúvidas sobre se os ricaços não acabarão viabilizando as viagens para Marte, deixando-nos entregues à morte. Pois, para eles. o principal é o lucro e a gente semos inútil.

E surge a pergunta crucial: o que fazermos? Nada, se a humanidade for extinta. Das tripas, coração, se houver sobreviventes.

Mas, não será a democracia burguesa, submissa ao poder econômico e produtora de neofascistas, que nos tirará do caos. Está tão impotente para dar qualquer resposta aos maiores problemas quanto o capitalismo para evitar a grande depressão que se avizinha.   Morrerão abraçados.

Meu principal legado é ter alertado meus leitores para os cenários que enfrentaremos, provavelmente já na segunda metade deste século. Torcendo para que eles ajam, espalhando tais avaliações e nos preparando para o pior.

Infelizmente, não vejo possibilidade de união de toda a espécie humano para o enfrentamento das  catástrofes. Mas, os que eventualmente sobrarem precisarão de líderes aptos para os conduzirem na longa marcha para a reconstrução e recriação do que for perdido.   

Lembro-me de que os bolcheviques eram irrisórios no início de 1917 e se tornaram preponderantes no final do ano, porque sabiam o que tinha de ser feito naquela situação crítica, com o país devastado pela derrota na primeira guerra mundial e pela herança maldita do czarismo.

Se não formos nós, de esquerda, os forjadores dessa nova vanguarda, ninguém mais o será.

São Paulo, maio de 2026
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