domingo, 26 de abril de 2026

TRUMP ESCAPA DO 3º ATENTADO, MAS AINDA NÃO AMEAÇA O RECORDE DE HITLER.

Donald Trump não tem muito do que se queixar: o atentado a tiros que ele sofreu neste sábado (25) foi apenas o terceiro desfechado contra ele.

Já contra o seu ídolo Adolf Hitler, de quem  ele não passa de uma tosca miniatura, foram executadas ou apenas planejadas 42 tentativas. 

Quanta gente morreu por causa da incompetência desses patriotas!

Saiba mais sobre tais tentativas clicando aqui):

  1. a da cervejaria Hofbräuhaus, em 1921;
  2. da Missão Espiritual de Maurice Bavaud, em 1938;
  3. do aniversário do Putsch da Cervejaria, em 1939;
  4. das garrafas de conhaque explosivas, em 1943;
  5. do homem-bomba Rudolf von Gertsdorff, também em 1943; e
  6. a Operação Valquíria, em 1944.
O fracasso de todas elas é um forte argumento para os ateus negarem a existência de Deus. (por Celso Lungaretti)
Clique aqui para acessar no Youtube 
o bom filme Operação Valquíria

SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 2002. OS SOLDADOS DO FELIPÃO CUMPRIRAM BEM A MISSÃO.

Em 1998 o Brasil perdeu o Mundial da França por causa de uma lambança de enfermeiro, da divisão do elenco e da pusilanimidade do técnico Zagallo. 

Não vinha mesmo fazendo campanha brilhante: apanhara da Noruega (1x2) na 1ª fase e necessitara dos pênaltis para despachar a Holanda nas semifinais (1x1 e 4x2).

Pior: a liderança do grupo era disputada por Dunga (apoiado pelos veteranos de 1994) e Bebeto (o preferido dos novatos), com direito a uma cabeçada do Brucutu (Romário) no bebê chorão (Bebeto) durante a partida contra o Marrocos.

Poucas horas antes da final contra os anfitriões, Ronaldo Fenômeno recebe uma rotineira infiltração de xilocaína para diminuir as dores no seu joelho. Mal aplicada: atingiu uma veia e espalhou-se na corrente sanguínea, fazendo com que, 10 minutos depois, ele entrasse em convulsão.

Zagallo, acertadamente, pretendeu substitui-lo por Edmundo. Mas, o inacreditável Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, impôs uma mudança de escalação na enésima hora, em benefício do garoto-propaganda da Nike, que voltava 
sonado do tratamento de emergência.


Dunga ainda tentou dar força a Zagalo, para que mantivesse a decisão sensata. Mas, Bebeto usou sua influência no sentido oposto, favorecendo a aceitação do ultimato de Teixeira.
Ronaldo Fenômeno: vilão em 1998, herói em 2002

Inexistindo unanimidade no grupo, Zagallo ficou com as mãos livres... para submeter-se ao cartola-mor, como sempre. 

Os jogadores levaram para o campo os rancores do vestiário, fazendo exibição das mais apáticas no 1º tempo. Era tudo de que Zidaine precisava para praticamente liquidar o Brasil:0x2.

Quando eles acordaram, já era tarde. A França resistiu à pressão brasileira, marcou outro gol em contra-ataque e poderia ter feito mais. A goleada por 0x3 saiu barata.

A frustração por haver deixado escapar uma Copa tida como ganha ainda se fazia sentir nas eliminatórias para o Mundial seguinte.

Em suas 18 partidas desde o apagão de 1998 Brasil foi dirigido por nada menos do que quatro técnicos: Luxemburgo, Candinho, Leão e Felipão. Acabou por garantir sua vaga apenas na última rodada, ficando 13 pontos atrás da Argentina e só três à frente do Uruguai (repescagem) e da Colômbia (desclassificada).

Luiz Felipe Scolari, técnico de conceitos rústicos e alguma força de caráter, era malvisto pela cartolagem, pois não tinha perfil de títere.
Seaman sofreu com o Gaúcho
.
Assombrados pelo fantasma da desclassificação, os dirigentes, entretanto, acabaram cedendo à pressão dos torcedores, para quem, depois do fracasso de Luxemburgo, Felipão se tornara unanimidade -- como consequência, principalmente, de seu ótimo currículo nos 
mata-matas da Copa Libertadores da América.
.
Nas eliminatórias não foi nada além de razoável (três vitórias e três derrotas), mas segurou o rojão num momento crítico, bem de acordo com sua imagem de machão.

De quebra indispôs-se com Romário, por suposta ou real má vontade do Baixinho para com o escrete. Afastou-o em definitivo, apesar do seu pedido de desculpas público e do lobby de cartolas & imprensa esportiva.

Situação paradoxal: queda de braço entre um técnico que era preferência nacional e um jogador, idem.

Para dar a volta por cima, Felipão fez uma jogada arriscadíssima, contrapondo um mito a outro mito: escolheu Ronaldo Fenômeno como seu artilheiro, embora viesse em maré de fracassos, contusões graves e longos períodos de convalescença, desde a fatídica final contra a França em 1998.

Com seu carisma e extrema habilidade motivacional, aproveitou as críticas à Seleção para fechar o grupo em torno de si. Era a 
Família Scolari  lutando contra tudo e contra todos.

A sorte o bafejou: não só Ronaldo renasceu das cinzas na Copa da Coréia do Sul/Japão, como o Brasil teve a sorte de enfrentar as galinhas mortas que pediu a Deus.

Treinou contra a China (4x0), Costa Rica (5x2) e desperdiçou duas vezes a oportunidade de golear a incipiente Turquia, vencendo-a apenas por 2x1 na 1ª fase e 1x0 na semifinal (gol de Ronaldo, em bela arrancada pela meia-esquerda).
Clique aqui para assistir aos melhores
momentos de Brasil 2x1 Inglaterra
 
Nas oitavas-de-final, a Bélgica chegou a dar algum trabalho ao são Marcos (um dos destaques da campanha), mas Rivaldo e Ronaldo resolveram. 2x0.

O único adversário de verdade foi o das quartas-de-final: a Inglaterra de Beckham, Owen e Campbell, que sobrevivera ao grupo da morte na 1ª fase (vencendo a Argentina, empatando com Suécia e Nigéria) e vinha de golear a Dinamarca. Não havia favorito.

Uma rara falha de Lúcio propiciou gol a Owen, mas o personagem do jogo seria Ronaldinho Gaúcho:
*carregando a bola do meio-de-campo até a entrada da área, serviu Rivaldo livre, para este empatar;
* cobrando falta da zona morta da intermediária, junto à lateral, acertou chute primoroso, encobrindo o goleiro David Seaman, que esperava um cruzamento; e
* foi expulso logo em seguida por causa de uma solada, mas os dez restantes souberam segurar o 2x1.
Felipão teve seu último momento afortunado
Após fazer a lição de casa contra a Turquia, teve pela frente uma Alemanha que nem sequer cogitava chegar à final: seu objetivo era preparar o time para a Copa seguinte, que iria disputar em casa.

Vitória, com autoridade, do Brasil de Marcos; Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Jr. e Roberto Carlos; Gilberto Silva, Kleberson e Ronaldinho Gaúcho (éxpulso); Rivaldo e Ronaldo (Denilson).

Já criara mais chances no 1º tempo, quando Kleberson acertou o travessão e Oliver Kahn, o melhor goleiro do Mundial, andou fazendo defesas difíceis.


Decidiu no 2º. A tarefa foi facilitada por uma inusitada falha de Khan, que bateu roupa num chute forte mas defensável de Rivaldo, deixando Ronaldo à vontade para abrir o marcador.

A Alemanha saiu para o jogo e, em rápido contra-ataque pela direita, Kleberson cruzou, Rivaldo deixou passar e Ronaldo colocou no canto: 2x0.

Terminou a campanha com estatísticas invejáveis:
* só vitórias, como em 1970 (quando um campeão jogava seis vezes, e não as atuais sete);
melhor ataque (18 gols);
artilheiro (Ronaldo, 8);
um dos vice-artilheiros (Rivaldo, 5, na companhia de Miroslav Klose, da Alemanha);
uma das melhores defesas (4 gols sofridos, atrás apenas da Alemanha, 3); e
melhor saldo de gols (14) de um campeão nos 18 Mundiais até hoje disputados.
.
Sem ser um esquadrão dos sonhos como os de 1958, 1970 e 1982, soube fazer valer a experiência e a qualidade técnica do seu elenco.(por Celso Lungaretti)
Melhores momentos de Brasil 2x0 Alemanha.
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1958 - 1962 1970 1994 - 2002

sábado, 25 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 5)

Era de manhã cedinho numa quinta-feira, 16 de abril de 1970. Ao me retirarem o capuz,  vi-me no setor de registro dos novos prisioneiros que chegavam àquele quartel que, soube depois, era o da Polícia do Exército no bairro carioca da Tijuca, onde operava o DOI-Codi, reunindo efetivos da repressão originários das três Armas.

Como silenciei, recusando-me inclusive a dizer quem eu era, fui logo encaminhado para a sala de torturas, no fundo do quartel. Durante dois meses e meio sofreria todo tipo de intimidação e sevícia, conforme relatei no primeiro volume desta duologia, bem como em vários artigos e entrevistas. 

Avalio como desnecessário e deprimente repetir os pormenores da minha descida ao inferno. Melhor falar nas lições que extraí, algumas no próprio momento, outras repassando os tormentos na memória, de volta à cela.

Os torturadores tudo faziam para me desnortearem, impossibilitando-me de pensar. Assim, a primeira sessão de torturas foi com a sala lotada de oficiais, agentes, motoristas de viaturas, etc. Agrediam-me de todo lado, faziam perguntas ao mesmo tempo e desferiam murros e pontapés por eu não conseguir responder a todos . Além disto, recebia sucessivos choques elétricos.

Depois, já pendurado no pau-de-arara, começava a ser realmente interrogado. E aí se iniciava a verdadeira batalha. Como a intensidade das torturas era demasiada, tinha de ir buscar nas minhas convicções mais profundas a força para nada dizer a esmo. 

Logo percebi que, ao contrário das fantasiosas bravatas a posteriori de muitos dos companheiros que haviam passado por tais horrores, era quase impossível um ser humano confrontar arrogantemente aquelas bestas-feras, nada respondendo do que queriam saber. Aí a tortura se prolongaria indefinidamente, até o ponto em que o torturado já não teria mais nenhum controle sobre o que revelava.

Felizmente não me perguntaram logo nas primeiras sessões de tortura o que eu mais temia deixar escapar. 

Ou, talvez, tenha sido mero acaso: os companheiros que haviam participado da reunião com o Lamarca na área de treinamento não marcaram pontos comigo logo para o dia em que retornassem, pois tinham problemas mais urgentes para resolverem com outros quadros. A Inteligência podia esperar dois ou três dias.

Sou sincero: não consegui depois reconstituir boa parte  do que ocorreu comigo naqueles primeiros dias de sofrimentos dilacerantes. 

Seja por ter conseguido trancar na minha mente os dados dos pontos que teria com os comandantes superiores organicamente a mim e com os que eram do mesmo escalão, seja porque não tinha nada para discutir de imediato com eles, o certo é que aqueles que, ao caírem, causaram mais danos à VPR, o fizeram antes de quando eu os encontraria. Por mérito ou por acaso, não foi graças a mim que a repressão ficou sabendo o suficiente para nos impor as quedas em cascata.

Mas não fui nem poderia ter sido capaz de convencer a repressão de que nada sabia. Para desviar a atenção dos inquisidores de nossos tesouros, fui obrigado a entregar-lhes algum calhau. O que me pareceu justificado naqueles  momentos terríveis (e só neles!). 

Passei o resto da vida lamentando a escolha que acabei fazendo, entre a prisão de algum comandante que poderiam causar dezenas de quedas e a prisão de um aliado cujo único contato com a organização era exatamente comigo. 

Só que o aliado Roberto Macarini (foto ao lado) morreu, seja como consequência das torturas, seja escapando da escolta e atirando-se do Viaduto do Chá por não estar mais conseguindo suportá-las. Nunca soube ao certo. 

Que direito tinha eu de definir, por critérios utilitários, quem seria barbaramente torturado e talvez até morresse, expondo-o para preservar os líderes da nossa organização? Nenhum. Amaldiçoei-me por perceber isto tão tardiamente.

Após minha libertação, nunca mais cogitei voltar a assumir as mesmas responsabilidades como militante. Sabia que, se o fizesse, ficaria novamente conflitado face à questão de quais companheiros eram descartáveis e quais não. Uma vez já tinha sido demais.

Quanto à injusta estigmatização que sofri por atribuírem-me uma responsabilidade que jamais tive na queda da área 2 de treinamento guerrilheiro, às vezes fico pensando que poderia ter provado a minha inocência muito antes se não carregasse tamanho remorso por, numa circunstância extrema, haver agido como o soldado que coloca o patamar hierárquico acima de tudo e não como o homem justo que sempre procurei ser.  (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

ALTO ASSESSOR DE TRUMP DIZ QUE TODAS AS MULHERES BRASILEIRAS SÃO PUTAS

Paulo porco chauvinista Zampolli
Assessor para assuntos globais do Governo Trump, Paolo Zampolli se referiu a uma amiga de sua ex-esposa como uma dessas putas brasileiras, essa raça maldita de brasileiras, são todas iguais.

Zampolli esteve casado durante duas décadas com a brasileira Amanda Ungaro e a separação foi turbulenta. Têm um filho de 15 anos, cuja guarda estão disputando na justiça.

Ela o acusa de abuso sexual e violência doméstica. Ele, sem saber que estava sendo gravado por um repórter italiano, foi misógino e grosseiro ao extremo: Aquela vaca, estávamos juntos, trepava com ela, depois ela também ficou louca. 

Ainda na linha de que as mulheres brasileiras sejam prostitutas e casem com estrangeiros para os extorquir, ele afirmou que elas são programadas para criar problemas e confusão.
 
Estou solidário com nossas mulheres e espero dos movimentos feministas que reajam com a mesma contundência adotada contra futebolistas, cineastas e boxeadores. 

O alvo desta vez é um suíno consumado. No mercy com ele. 

O EXEMPLO VEM DE CIMA

Não são de estranhar-se os sucessivos episódios de incontinência verbal nos altos escalões do Governo Trump: o exemplo vem do próprio chefe da quadrilha.

Poucos dias atrás, Trump, queixando-se dos imigrantes indianos, foi altamente ofensivo com o país do Mahatma Gandhi: Um bebê se torna instantaneamente cidadão e depois traz toda a sua família da China, da Índia ou de qualquer outro buraco infernal do planeta.

Dá para imaginarmos que esse absurdo tenha sido criado por algum ghost writer, mas foi distribuído às redes sociais com Trump como autor. A responsabilidade é toda dele.  

Seu pior sincericídio foi recentemente ter ameaçado extinguir a civilização iraniana. Nem percebeu que estava se igualando a Adolf Hitler, Joseph Stalin e Pol Pot. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 4)

Entrei no ano de 1970 atuando novamente como comandante de Inteligência, só que no Rio de Janeiro e estando finalmente adaptado a tal função (que nunca sonhara vir a exercer). 

Assim, eu me reportava diretamente aos dois integrantes do Comando Nacional (o Jamil/Ladislau Dowbor e a Lia/Maria do Carmo Brito, esta de origem Colina)  que faziam a ponte entre a cidade e o campo, onde o terceiro comandante nacional (o Cid/Carlos Lamarca) tratava de implantar a escola de treinamento guerrilheiro. 

E mantinha-me em contato diário com os outros comandantes baseados no RJ, o Juvenal/Juarez Guimarães de Brito e o Roberto Gordo/José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, responsáveis pelas nossas duas unidades de combate lá atuantes.

Já não era tratado como neófito inexperiente, mas aceito como igual pelos veteranos,  pois sobreviver aos perigos diários durante quase um ano naquela fase da luta se tornara um marco inalcançável para muitos. 

E passara a ser colocado a par dos encaminhamentos mais importantes e consultado sobre as decisões a serem tomadas. Assim, quando o Mário Japa/Chizuo Ozava acidentou-se ao volante e a repressão encontrou no porta-malas do seu carro armas e documentos da Organização, estive próximo de todos os trâmites para resgatá-lo antes que a Oban percebesse que se tratava de um dirigente e intensificasse as torturas. 

O receio era que revelasse a localização da área ativa de treinamento, pois ele participava do trabalho de campo.
Como cantou Milton Nascimento, memória não morrerá!


Assim, sequestrado o cônsul japonês Nobuo Okuchi para servir-nos como moeda de troca, coube a mim a decisão de quantos prisioneiros exigiríamos por sua libertação. 

Era uma conta delicada, pois repercutira muito mal na esquerda armada a ingenuidade da ALN ao pedir tão somente 15 militantes pela devolução do embaixador estadunidense (supunha-se, com razão, que os militares cederiam muitos mais!).

Ponderei que era arriscado exagerarmos, já que, para a ditadura, um embaixador dos EUA tinha peso bem maior do que um cônsul nipônico. Também não deveríamos trocá-lo apenas pelo  Japa, caso contrário cairia para o inimigo a ficha de que tinha nas mãos um quadro que valorizávamos muito. 

Então, precisávamos botar outros companheiros na lista, mas não a ponto de os fardados ficarem em dúvida sobre o atendimento ou não da nossa exigência. Propus o número de cinco, cinco pedimos e cinco obtivemos. 

Enviado o Japa para a Argélia, restava a dúvida sobre se ele teria dado alguma pista sobre a área ou os trabalhos  nela poderiam prosseguir normalmente. 

E foi uma aliada do meu setor que cumpriu a arriscada missão de contatar o Japa em Argel, apesar de provavelmente estar muito vigiado por espiões de outros países. A nossa enviada, uma aeromoça, conseguiu viajar até lá, falar rapidamente com ele e voltar com o sinal verde pelo qual ansiávamos. 
Albuquerque Lima (esq.) queria reproduzir no Brasil o 
nacionalismo do ditador peruano Juan Velasco Alvarado

Também coube a mim orientar a aliada jornalista que, namorando um colega envolvido com a ala nacionalista do Exército, dele extraía informações sobre a luta interna pelo poder supremo entre os altos oficiais. 

Se prevalecesse a tendência encabeçada pelo ministro do Interior  Afonso Albuquerque Lima, a repressão se radicalizaria ainda mais, daí a necessidade de estarmos sempre atentos sobre a correlação de forças na caserna.

Enfim, no RJ eu estava atuando verdadeiramente como um quadro de Inteligência, ao contrário do que acontecera em SP, onde a minha contribuição era maior como integrante do Comando estadual do que na minha função específica. 

Mais: desenvolveu-se uma grande  afinidade entre o Juvenal e eu, pois ambos éramos egressos do movimento estudantil (ele fora professor e se tornou o comandante militar do Colina, com um notável talento para planejar ações astutas como a expropriação do cofre do Ademar). 

Tínhamos formação humanista: acreditávamos na luta armada, mas travada com critério, sem bravatas nem desnecessário derramamento de sangue.  Nossa visão da organização era bem profissional, ao estilo dos tupamaros uruguaios. E sabíamos que, caso vencêssemos (hipótese que sabíamos ser remota), deveríamos evitar a todo custo as armadilhas do autoritarismo que desfigurara outras revoluções. 

Apesar de amargurado com as quedas e mortes de companheiros intensificando-se cada vez mais e possuindo informações suficientes para concluir que a luta se tornava adversa ao extremo para nós, ainda assim continuei firmemente decidido a marchar até o mais amargo fim. 
Depondo na Auditoria da Marinha um dia após a Dilma

Tanto quisera ser necessário para a revolução, então quando o estava sendo não poderia jamais optar pela autopreservação. Afora conservar alguma esperança de que, se conseguíssemos ativar a coluna guerrilheira, a luta ainda poderia ter uma reviravolta em nosso favor. 

Não se é verdadeiramente revolucionário sem esse desejo ardente de transformar a sociedade, que nos leva a assumir os riscos que surjam pelo caminho. Mas, nem meus piores augúrios igualavam o pesadelo que veio a seguir. 

Se valho alguma coisa, foi por não ter-me deixado quebrar pelas adversidades que despencaram  sobre mim a partir daquela funesta quinta-feira, 16 de abril de 1970.

Antes, aconteceu o que se repetiria muitas vezes na minha militância: tive uma forte suspeita de que algo muito ruim estava a caminho, mas não consegui convencer quem poderia evitá-lo.

Foi num ponto meu com a Lia e o Jamil, na segunda ou terça-feira. Disseram que o Lamarca exigira a presença dos demais comandantes nacionais e dos comandantes de unidades de combate na área de treinamento guerrilheiro, pois temia que a Organização novamente não estivesse priorizando a tarefa principal (lançamento da coluna guerrilheira) como deveria. 

Afora esta notícia, os dois me trouxeram outra: a de que o Wellington Moreira Diniz (se bem me lembro, seu nome-de-guerra era Hélio) não comparecera ao ponto semanal com a VPR na manhã de sábado, nem na alternativa no início da noite. 
Wellington Moreira Diniz em
2013, ao ser julgada sua anistia

Ele tivera participação marcante nas ações armadas do Colina, praticamente como braço direito do comandante Juvenal. Mas, meses antes, foi diagnosticado que ele era portador de um problema cardíaco e a VPR retirou-o das ações armadas, permitindo que passasse a morar com uma namorada que não pertencia aos nossos quadros, tendo como única missão dar treinamento a grupos de esquerda inexperientes que se aproximavam da VPR.

Eu o conhecia do congresso de outubro da VAR-Palmares e não acreditava que faltaria a dois compromissos com a Organização por motivo fútil. Pensei logo que ele deveria ter sido morto ou preso.

E me ocorreu que, se ele houvesse mesmo caído no sábado, seria uma temeridade os comandantes estarem reunidos no campo e não a postos para lidar com uma possível emergência. A VPR, por causa das quedas que se sucediam implacavelmente, resolvera adotar um modelo vertical, com cada unidade de combate, bem como a minha de Inteligência, conhecendo apenas seu comandante. 

O contato entre elas era unicamente o contato entre os comandantes. Com estes ausentes, ficaria muito mais difícil cientificarmos uns aos outros e tomamos providências para evitar uma sucessão de quedas em cascata.

Insisti longamente com o Jamil e a Lia no sentido de que adiassem a reunião com o Lamarca, mas ambos não ousaram discrepar dele. Representavam dois terços do Comando Nacional, portanto poderiam fazê-lo, mas refugaram. Foi fatal.

O Wellington tinha mesmo sido preso no sábado e desde então sofria as piores torturas, mas aguentou bravamente  até a quarta-feira, quando acabou abrindo o fotógrafo ao qual conduzira o Lamarca para tirar fotos após a sua operação plástica. O fotógrafo, por sua vez, entregou um médico que era nossa principal fonte de aliados e, ao mesmo tempo, a maior vulnerabilidade que tínhamos no RJ. 

Esse médico abriu o ponto que tinha comigo. Outros companheiros também caíram, não sei exatamente como. E os comandantes que haviam se reunido no campo, foram sendo presos logo ao voltarem. A pior sequência de quedas da VPR varreu a organização em todos os estados nos quais estava estabelecida.
 Comissão Nacional da Verdade falhou em entregar
às famílias os restos mortais dos desaparecidos
  

Ao ser conduzido para a sede do DOI-Codi, no quartel da Polícia do Exército na Tijuca, eu quase sufocava por causa do capuz que me colocaram e de me forçarem a cabeça para baixo a fim de não ser visto da rua ou dos carros que passavam ao lado. 

Sabia que, mesmo se sobrevivesse, nunca mais seria o mesmo. E não tinha certeza de que valeria a pena sobreviver. 

Se funcionasse a capsula de cianureto produzida por estudantes de química aliados da VPR, eu a teria usado, mas aqueles aprendizes de feiticeiro haviam falhado em algum detalhe, de forma que poucos dias antes o Juvenal me informara do fracasso colhido por quem a utilizara. Então, só restava preparar-me para o pior. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A GRANDE IMPRENSA E OS BANCOS ESTÃO UNIDOS NO LOBBY CONTRA O FIM DA ESCALA 6x1. DESCARADAMENTE!

O
 banco Inter, líder do ranking de reclamações do Banco Central, divulgou um estudo estimando que o fim da escala 6x1 acarretará no médio prazo uma redução de 0,82% no Produto Interno Bruto brasileiro.

Só isto? E por que esperaram tanto tempo? Já na década de 1930 a Dinamarca adotava a escala 5x2. 

Afinal, para que servem os bancos além de lucrarem uma enormidade parasitariamente (pois nada produzem) e de frequentarem o noticiário com um escândalo atrás do outro?

Há 110 anos Lênin disse tudo que importava sobre o capital financeiro no seu clássico O imperialismo, etapa superior do capitalismo. Eis alguns trechos:
Os bancos, de modestas empresas intermediárias que eram antes, se transformaram em monopolistas do capital financeiro. Três ou cinco grandes bancos de cada uma das nações capitalistas mais avançadas realizaram a "união pessoal" do capital industrial e bancário, e concentraram nas suas mãos somas de milhares e milhares de milhões, que constituem a maior parte dos capitais e dos rendimentos em dinheiro de todo o país.

A oligarquia financeira tece uma densa rede de relações de dependência entre todas as instituições econômicas e políticas da sociedade burguesa contemporânea, sem exceção: tal é a manifestação mais evidente deste monopólio.

O imperialismo é a época do capital financeiro e dos monopólios, que trazem consigo, em toda a parte, a tendência para a dominação, e não para a liberdade. A reação em toda a linha, seja qual for o regime político, é a exacerbação extrema das contradições
De resto, o destaque desmesurado dado a tal estudo na grande imprensa é pra lá de suspeito. Como editor que já fui, eu consideraria tal arremedo de notícia merecedor de 10 linhas, e olhe lá... (por Celso Lungaretti)

FAMOSOS HORROROSOS

Alicia Klein, colunista do UOL, revela até que ponto chegou a desumanização dos seres humanos sob o capitalismo:

Ana Paula Renault perdeu o pai. Tadeu Schmidt perdeu o irmão. Renato Gaúcho perdeu a irmã. Gabriel Brazão estava com o pai internado em estado terminal. Saúl estava com o filho de 3 anos na UTI. Todos eles escolheram, na última semana, trabalhar em meio à agonia.

Eu não tomaria uma cerveja com nenhum desses personagens gananciosos e ávidos por holofotes. Se fossem pobretões, eu até compreenderia a opção calhorda que fizeram. Mas, não são. 

T, S. Eliot fez uma poesia terrível, mas terrivelmente verdadeira, sobre esses homens ocos (vale para as mulheres também):
.
Nós somos os homens ocos,
os homens empalhados,
Uns nos outros amparados,
o elmo cheio de nada. Ai de nós!
.
Nossas vozes dessecadas
quando juntos sussurramos,
são quietas e inexpressivas
como o vento na relva seca,
ou pés de ratos sobre cacos
em nossa adega evaporada.

Fôrma sem forma, sombra sem cor,
força paralisada, gesto sem vigor.

(...) É assim que acaba o mundo,
é assim que acaba o mundo,
é assim que acaba o mundo:
não com estrondo, mas com um suspiro.

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 3)

Trocados pelo embaixador Charles Elbrick, da esq. p/ a dir., em pé: Luís Travassos, José Dirceu, José Ibrahim,
Onofre Pinto, Ricardo Villasboas, Maria Augusta Carneiro, Ricardo Zaratini e Rolando Fratti. Agachados:
João Leonardo Rocha, Agonalto Pacheco, Vladimir Palmeira, Ivens Marchetti e Flávio Tavares
.
Era, contudo, algo que eu não cogitava, nem sequer pretendia. Nunca tive obsessão pelo poder e. aos 18/19 anos, já possuía suficiente senso de autocrítica para perceber que não estava pronto para voos tão altos.

Mas, eu mentiria se não admitisse que o novo status me deslumbrou um pouquinho que fosse, principalmente após passar 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e ligeiramente desdenhoso que os militantes universitários dedicavam a nós, secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha.

[Caso, p. ex., de quando nos escolheram para panfletar Osasco ocupada pela PM em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Deops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não tinha melindres legais.]  

Quando a minha sorte de principiante acabou e a realidade crua da luta armada começou a desabar sobre mim, isso me abalou mais do que deveria. Primeira foi a morte de um companheiro da VPR a quem não conhecia, Carlos Zanirato, em junho. Preso, ele resolveu dar um fim às torturas pela via do suicídio. conduzindo a repressão a um ponto falso e atirando-se sob um veículo pesado. 
Fernando Ruivo, o azarado.

No mês seguinte vieram o Elias e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo, de quem eu muito ouvia falar quando fazia movimento secundarista na órbita dessa organização universitária em 1968: o Fernando Ruivo (Fernando Borges de Paula Ferreira). 

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que empacou logo quando passava por uma boca quente paulistana. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. 

O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando submetido a torturas prematuras.

Em outubro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos sete quadros que conduzi para as fileiras da VPR, Eremias Delizoicov. 

Eu estava longe, participando da equipe precursora do treinamento guerrilheiro na região de Registro (SP), mas me senti culpado mesmo assim: tornara-me comandante estadual graças aos que, como ele, me haviam escolhido como líder de nossa base e delegado ao congresso de 1969 da VPR. 

Mas, não zelara por nenhum dos sete, absorvido que estava pelas minhas novas funções. A morte do Eremias, que preferira trocar tiros do que entregar-se vivo, embora pouca participação tivesse até então na VPR e não fosse depositário de segredos valiosos para a Operação Bandeirantes (precursora do DOI-Codi), pesava sobre meus ombros. Apesar das normas de segurança em contrário, eu teria como contatar alguns dos sete, mas não o fizera. E o despreparo do Eremias terminara em tragédia.

O certo é que, após estar a um passo da expulsão durante o Congresso de Teresópolis e ver-me salvo na enésima hora  pela decisão do Lamarca de desfechar o racha dos sete, não me senti vitorioso, muito pelo contrário. A beligerância com que se travara a luta interna, com os neo-massistas utilizando um verdadeiro arsenal de meias-verdades e mentiras descaradas para prevalecerem contra o Moisés e eu me lembrou os piores momentos do movimento estudantil.

Não conseguia engolir o episódio pra lá de deprimente em que até a minha queda os adversários do nosso campo tramaram, como se fôssemos inimigos mortais. 

No alto, Devanir de Carvalho e Joaquim Seixas 


É que voltei de Teresópolis com a missão de apresentar aos militantes da VAR em SP  a visão dos refundadores da VPR, enquanto o Antônio Roberto Espinosa expressava a posição neo-massista. Isto só ocorreu, contudo, duas vezes.

Na primeira, apesar de o Espinosa ter sido do Comando Nacional enquanto eu era comandante estadual, sai-me melhor do que o outro lado esperava. 

Aí, finda a segunda dessas reuniões, fui  a um ponto com antigos companheiros secundaristas que eu queria atrair para a VPR; em seguida, deveria ser apanhado por pessoal da VAR, pois nós havíamos ficado sem aparelhos em SP  e competia a eles me abrigarem.

Faltaram ao ponto e também faltaram na alternativa horas depois, deixando-me entregue à própria sorte, com meu rosto nos cartazes de procurados vistos em todo lugar, sem documentos capazes de enganar policial algum e com um .38 embaixo do braço. E deixara de ser seguro enfiar-me num hotelzinho barato, como fizera meses antes, ao sair de casa para entrar na clandestinidade.

Mas, uma moeda caiu em pé. Andando por ruas menos movimentadas do centro velho de SP, enquanto refletia sobre como escapar daquela enrascada, dei de cara com o Devanir de Carvalho, do Movimento Revolucionário Tiradentes, mais procurado ainda do que eu (travara tiroteio com agentes da repressão que vinham prendê-lo e aos irmãos, acabando por escapar ferido no braço).

Encontrá-lo caminhando pela rua 7 de abril com o braço na tipoia, foi um inacreditável golpe de sorte. Ele me abrigou como pôde e reatou meu contato com a VPR. Mas, a solidariedade impecável do Devanir não foi suficiente para eu esquecer que aqueles que nem duas semanas antes pertenciam à mesma organização, acabavam de tentar entregar-me às feras.

Amargurado, nem quis participar do rápido encontro no qual alguns dos principais quadros da VPR refundada aprovaram basicamente as Teses do Jamil como plataforma doutrinária e elegeram um novo Comando Nacional. 

Em seguida, por estar muito queimado em SP (até na Biblioteca Central a Oban plantou agentes, na esperança de que eu aparecesse por lá, como fazia amiúde nos tempos de secundarista!), incumbiram-me de ajudar a preparar uma área de treinamento guerrilheiro para receber os primeiros aprendizes.
Livro que melhor reconstitui queda
das áreas guerrilheiras da VPR

Não fui tão mal no trabalho de campo como detratores exagerariam depois, mas o noticiário de cada dia me fazia tanta falta quanto o ar para respirar. 

Não suportava permanecer distante enquanto outros companheiros poderiam estar morrendo nas cidades. Quando chegava o motorista que trazia nossas provisões, mensagens e utensílios, eu simplesmente devorava os jornais recentes.

Então, quando o Lamarca decidiu que aquele sítio próximo a Jacupiranga tinha vários inconvenientes para nosso projeto e os trabalhos deveriam ser transferidos para outro município, supostamente longínquo, pedi para voltar ao trabalho urbano, pois avaliara que nele seria mais útil.

O Massafumi Yoshinaga, velho companheiro de militância secundarista (atuava na zona Sul e eu na Leste, mas ambos pertencíamos à mesma entidade), 

Também aproveitou a ocasião para sair, não para outro tipo de trabalho, mas para desligar-se da VPR. Não suportava o isolamento das massas, ficar ouvindo o dia inteiro papo sobre assuntos militares.

Iniciei 1970 no Rio de Janeiro, novamente designado para criar e comandar um serviço de Inteligência integrado por aliados e simpatizantes. Era um momento em que tinha até receio de abrir o jornal a cada manhã, pois eram cada vez mais frequentes as notícias de quedas e mortes de companheiros que eu conhecia pessoalmente.  

Organicamente ligado apenas a dois comandantes nacionais e a dois comandantes de unidades de combate. aos quais municiava com informações e análises, tinha uma visão bem clara de que nossa luta estava nos estertores: ou conseguiríamos virar o jogo com o lançamento da coluna móvel estratégica, ou definharíamos aos poucos. 

E chegou a mim uma mensagem familiar: um tio rico estava disposto a bancar a minha fuga para algum país da América do Sul ou Europa. 
Massafumi Yoshinaga

Pensei um pouco no assunto e conclui que, ficando no Brasil, apostaria num fio de esperança e possibilidade muito maior seria a de acabar preso, torturado, morto. Não tinha ilusões quanto a isto. 

Se partisse, minha utilidade para a revolução seria praticamente nenhuma. Como já queimara as pontes com a sociedade burguesa, eu alhures me tornaria um estranho numa terra estranha, perdendo inclusive a auto-estima.

Decidi ficar, até a improvável vitória ou até o mais amargo fim. (por Celso Lungaretti) 
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