sábado, 14 de março de 2026

SÉRIE "COMO FORAM AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1962. GENIAL, GARRINCHA SÓ NÃO FEZ CHOVER

"Vocês vão ver como é

Didi, Garrincha e Pelé
Dando seu baile de bola
Quando eles pegam no couro
Nosso escrete de ouro
Mostra o que é nossa escola

Quando a partida esquentar
E Vavá de calcanhar
Entregar a pelota a Mané
É Mané Garrincha, Didi,
Didi diz 'é por aqui'
Aí vem o gol do Pelé"

(B. Marques/D. Bezerra)
O Brasil era o favorito do Mundial 1962, no Chile, com seu grupo de jogadores que pouco havia mudado desde 1958, quando deslumbrou o Planeta Bola. A principal alteração estava no banco, com o discreto Aymoré Moreira substituindo o adoentado Vicente Feola.

Mas, a contusão de Pelé, logo na segunda partida, foi um balde d'água fria no nosso ânimo. 
Antes, a Seleção aplicara protocolares 2x0 num México cujo único destaque era o goleiro Carbajal, por já estar disputando seu quarto Mundial consecutivo (acabaria fechando a conta em cinco).

Contra a Tchecoslováquia, o rei tentou um chute de fora da área, que foi à trave enquanto ele ia ao chão, abatido por um estiramento muscular.

A aplicação tática do adversário fez escassearem nossas oportunidades de gol e os dois melhores arremates brasileiros morreram nos postes. 0x0.
Pelé fora de combate

O Brasil entrou em campo no jogo seguinte, contra a Espanha, seriamente ameaçado: uma derrota provavelmente o desclassificaria e um empate o faria enfrentar um adversário mais capacitado na fase seguinte.

Foi um jogo épico, contra um adversário muito forte e que contava com o mito Puskas (húngaro que, após ser o grande destaque da Copa de 1954, assumira a cidadania espanhola).

Chutando da meia lua, Adelardo colocou a Espanha na frente.

Zagallo cruzou rasteiro para Amarildo empagar.


Gylmar salvou o Brasil fazendo uma defesa descomunal, depois de rebater um cruzamento, dividindo a bola com um avante espanhol. 

O grande Gento pegou o rebote dentro da área e desferiu um arremate mortal para o gol, com Gylmar caído. Mas o goleiraço, num lance de puro reflexo, conseguiu erguer o braço e espalmar.

Parêntesis 1: o ponta-esquerda Gento não só era um fora de de série como tinha muito caráter. Certa vez, incumbido de cobrar um pênalti inexistente para o Real Madrid, chutou na direção da bandeira de escanteio, recusando-se a tirar proveito do erro da arbitragem.

Parêntesis 2: também errou a arbitragem de Brasil x Espanha, ao não assinalar um pênalti cometido por Nilton Santos. Marcou fora da área a falta ocorrida dentro.

Nilton Santos, dito enciclopédia do futebolusou de malandragem, dando um passo dissimulado à frente para confundir o juiz, que estava vindo conferir de perto o local da infração.

A Espanha reclamou outro pênalti, num lance que naquele tempo os árbitros consideravam bola na mão e não mão na bola (a penalidade máxima só se caracterizava quando o toque havia sido intencional). E, no finalzinho da partida, houve mais um, claríssimo, em favor do Brasil, também ignorado.

Parêntesis 3: então com 11 anos, eu não entendia por que o placar do estádio de Viña del Mar estampava a frase porque nada tenemos, lo haremos todo.

Só bem mais tarde vim a saber que um forte terremoto destruíra a infraestrutura futebolística do Chile, dois anos antes do Mundial, mas o dirigente Carlos Dittborn conseguira evitar a mudança de sede, pronunciando então tal frase, que motivou sua gente a, com um esforço descomunal, reerguer tudo em tempo hábil.

Parêntesis 4: tratou-se da primeira Copa do Mundo cujas partidas foram integralmente exibidas no Brasil, em teipe. Passavam na noite do dia seguinte e um locutor agradecia a gentileza do comandante fulano, piloto da Varig, que havia trazido a fita no seu voo.
Clique aqui para assistir às diabruras do Mané 

As duas emissoras que transmitiam futebol, a Record e a Tupi, optaram pelo revezamento: cada equipe se incumbia da locução e comentários de um tempo da partida.

Então, era o chatíssimo Walter Abrão quem resmungava, no finalzinho da partida contra a Espanha, quando Garrincha não atava nem desatava na ponta: É muito egoísmo, ficar prendendo a bola numa hora destas, em vez de servir um companheiro!

Foi a maior queimada de língua que vi na vida. Em mais uma jogada genial daquele que vinha sendo desde o início o melhor atacante brasileiro, Mané se livrou dos adversários, atraiu toda a marcação (inclusive o goleiro) e deu um centro milimétrico em direção à segunda trave, onde Amarildo, desmarcado, esperava para cabecear. O possesso nem precisou pular. 2x1

Apesar do folclore, Garrincha era simplório, mas estava longe de ser um retardado ou desmiolado. Tanto que, quando Pelé se contundiu, a ficha logo caiu para o Mané: era a ele que competia liderar o ataque brasileiro no restante do Mundial.


Então, às suas jogadas desconcertantes mas nem sempre objetivas, ele acrescentou uma inusitada dose de pragmatismo: passou a priorizar o gol.
https://youtu.be/JuCoBJ2MThk?si=-bSiLIFHoGagYgR7
Nas quartas-de-final contra a Inglaterra, fez um cabeceando do meio da área e outro, sensacional, chutando da intermediária, quase uma folha seca ao estilo de Didi (só que, com a bola rolando, é bem mais difícil!). 3x1.

Na semifinal contra os anfitriões, o inverossímil: pegou um rebote na entrada da área e com a perna esquerda, que geralmente só lhe servia de apoio, acertou um chute perfeito, no ângulo. [Ele fazia suas diabruras também com a perna esquerda, seis centímetros mais curta!]

De quebra, outro gol de cabeça, quase igual ao da partida anterior. E o Brasil despachou o Chile: 4x2.


Parêntesis 5: o Mané foi expulso no fim da semifinal, mas o jeitinho brasileiro fez a diferença nos bastidores. O árbitro, providencial ou premeditadamente, não entregou a súmula em tempo, Garrincha escapou da suspensão e pôde disputar a final.

Assim, o Brasil levou a campo sua força máxima, com exceção do contundido Pelé: Gylmar; Djalma Santos,  Mauro, Zózimo e  Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Tchecoslováquia, com seu bem 
montado esquema de 
formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, desta vez, lhe seria madrasta.

Brasil 4x2 Chile: imagens restauradas dos gols.
Assim, o Brasil levou a campo sua força máxima, com exceção do contundido Pelé: Gylmar; Djalma Santos,  Mauro, Zózimo e  Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Amarildo e Zagallo.

A Tchecoslováquia, com seu bem 
montado esquema de 
formiguinhas, foi o adversário – mas a sorte, desta vez, lhe seria madrasta.

Os meio-campistas Masopust (0x1) e Zito (2x1), ambos surgindo como elementos-surpresa, marcaram.

Amarildo, tentando um cruzamento da linha de fundo, viu, com seu espanto transparecendo no olhar, a bola enganar o goleiro Schroiff, que se posicionara para interceptar o centro. Nem ele acreditou no gol  (1x1) que fizera.
E o empolgante Djalma Santos alçou a bola sem maiores pretensões para a área. O pobre Schroiff, melhor arqueiro da Copa, estava num dia pra lá de infeliz. Ofuscado pelo sol, soltou infantilmente a pelota no pé de Vavá, que não perdoou. 3x1.

Parêntesis 6: chefiando a delegação, o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho foi fundamental para as conquistas de 1958 e 62.

Sob a conturbada liderança dos 
cartolas cariocas, o Brasil dera vexame em 1950, quando os dirigentes não só entraram no clima do já ganhou!, como deixaram que ele contagiasse os jogadores. 

Chegaram ao cúmulo de recomendarem ao limitado e faltoso zagueiro Bigode que não abrisse a 
caixa de ferramentas na final, pois o mundo inteiro estaria olhando. Com Bigode domesticado, o hábil ponta Gighia fez a festa, levando o Uruguai à vitória.

E deu novo vexame em 1954, perdendo não só o jogo, mas também a esportiva , contra a Hungria, que era realmente melhor.

Aí assumiu Paulo Machado de Carvalho, com um enfoque mais profissional do futebol e uma habilidade imensa no quesito 
motivação dos jogadores.
marechal: um raro dirigente estimado pelos jogadores

P. ex.: ao ficar sabendo que Didi estava apático e macambúzio porque sentia falta da caninha habitual, o marechal da vitória o levou ao bar e, para surpresa do jogador, pediu duas pingas.

Didi hesitou, mas o velho disse: 
Comigo você pode. Bebe!

Copo do craque vazio, ele foi além: Beba a minha também!.

Finalmente: Agora, vá à luta e arrebenta! Nós precisamos de vocêAssim era o homem.

Então, não foi surpresa que, depois de criticadíssimo pela equipe esportiva da
rádio Bandeirantes (SP) ao longo de toda a campanha, ele desse o troco quando um pouco perspicaz repórter da emissora o foi entrevistar no vestiário festivo da conquista do bi.

O comandante vitorioso só disparou uma frase:
Engoliu mais essa, Pedro Luís?

O veterano locutor discursou durante minutos, criticando a mesquinhez de quem aproveitava um momento de júbilo nacional para vinganças pessoais.

Em vão: tinha ido a nocaute e, como os
pugilistas sonados, não se dera conta disto. (por Celso Lungaretti)



sexta-feira, 13 de março de 2026

A INDÚSTRIA CULTURAL NOS ENGANA PORQUE GOSTAMOS E A ESQUERDA COPIA AS PAUTAS DO INIMIGO POR OPORTUNISMO.

Já cansei de denunciar que a imprensa burguesa alavanca artificialmente a eleição presidencial de cartas marcadas de 2026, cujos candidatos favoritos estão entre os mais medíocres que vi desde que comecei a me interessar pela política: 
--Lula, dócil refém do Congresso reacionário, com 37% das intenções de voto, segundo o DataFolha;
--Flávio Bolsonaro, herdeiro do pior presidente de todos os tempos, com 34%; e 
--alguns insignificantes empenhados apenas em se divulgarem (nenhum alcança o patamar de 5%, então o máximo que pode almejar é o ganho de musculatura para as eleições vindouras ou a obtenção de uma vaguinha no ministério ou ainda no secretariado de governadores e prefeitos)
 
O pior é que nossa esquerda entra direta no jogo do inimigo, aceitando ser pautada pelos principais veículos da indústria cultural, até porque aposta todas as suas fichas no anticomunista Lula e este só conseguirá reeleger-se numa disputa polarizada entre ele e o filho número um do ex-presidente número menos um. 

Nesta sexta-feira 13, o UOL publica um exercício de futurologia fajuta (montado a partir de citações do José Roberto de Toledo e da Thais Bilenky), segundo o qual Lula se prepara para a eleição mais disputada da nossa História, por causa dos efeitos da agressão estadunidense ao Irã sobre a economia brasileira.

Isto com um semestre de antecedência! Nem sequer  temos a certeza de que, aos 81 anos de idade, Lula não sofrerá problemas de saúde que impeçam sua participação no pleito. 

E há sempre a possibilidade de que algum candidato dispare na dianteira e fique bem à frente dos adversários, definindo a eleição já no primeiro turno ou tornando favas contadas sua vitória no segundo turno. 

Vale também lembrar que é em agosto, após as férias escolares e com o início do horário eleitoral gratuito, que o povaréu começa a escolher em quem votará. 

Afora a incerteza sobre se a próxima eleição superará as realmente disputadíssimas, como:  
--a de 1989, na qual Fernando Collor venceu o segundo turno com 53,03% dos votos, contra os 46,97% do Lula;  
--a de 2014, na qual Dilma Rousseff, a gerentona trapalhona, conquistou 51,64% dos votos, enquanto o tucano de voo rasteiro Aécio Neves ficou em 48,36;  
--a de 2022, cujo resultado final foram os 50,90% do Lula superando os 49,10% do Jair Bolsonaro.

Não há coincidência nenhuma no fato de que, com o ambiente político radicalizado, os dois primeiros fizeram governos desastrosos e Lula se socorre no personalismo para desviar a atenção de que está sem rumo no espaço, fazendo uma gestão econômica que tende a gerar, no próximo quadriênio, outra recessão aguda.

No último governo petista, além de a Dilma acabar sendo impichada, sua reeleição  pavimentou o terreno para Jair Bolsonaro  conquistar a faixa presidencial em 2018. Será que, caso o Lula se reeleja, o raio vai cair de novo no mesmo lugar? 

E que isto importa neste instante para o sofrido povo brasileiro? A nossa esquerda deveria estar representando os superexplorados pelo capitalismo, ao invés de desperdiçar esforços com escaramuças eleitoreiras que a lugar nenhum nos levarão (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 12 de março de 2026

VERGONHA: A FIFA LAMBE O CHÃO QUE OS ULTRADIREITISTAS PISAM!

"
A seleção nacional de futebol do Irã é bem-vinda à Copa do Mundo, mas eu realmente não acredito que seja apropriado que eles estejam lá, por sua própria vida e segurança
", disse o genocida Donald Trump em sua plataforma digital.

Com os EUA admitindo publicamente que são incapazes de garantir a vida e segurança dos integrantes de uma seleção que tem total direito de disputar o Mundial, a Fifa está obrigada a transferir a competição para alguma nação que não anteponha ressalvas intimidantes ao cumprimento dos seus deveres.

Já chega a vergonha que o Comitê Olímpico Internacional passou durante o pesadelo nazista, quando consentiu que os Jogos Olímpicos de Verão de 1936 fossem realizados em Berlim.

Depois de o COI fornecer palco para uma apoteose hitlerista, agora a Fifa se prostrará à ameaça velada de um sub-Hitler? (CL)

quarta-feira, 11 de março de 2026

DE 1964 PARA 2026: "AINDA ESTAMOS AQUI".

Os mortos-vivos que nos aterrorizavam nas décadas
de 1960 e 1970 precisam ser decapitados de novo
D
iscursando na Flórida para uma plateia de ministros da Defesa e generais de 16 países, Stephen Miller, o vice-chefe de gabinete do genocida Donald Trump, incitou-os a passarem por cima das leis de suas respectivas nações. Cinicamente, deu-lhes até sua permissão (!) para tanto...

Ainda por cima, vangloriou-se dos crimes cometidos pelos EUA no combate ao narcotráfico: 
"Sob a liderança do presidente Trump, estamos usando o poder coercitivo, o poder militar, a força letal para proteger e defender a pátria americana.  
Enfrentamos a Al-Qaeda e o ISIS com armas extremamente letais porque essas organizações só podem ser derrotadas com o poder militar.  
Miller e Goebbels: cara de um, focinho do outro.

Vocês estão lidando com muitos advogados em seus países. Têm a minha permissão para não escutá-los".

Muitos advogados apenas? O tom belicoso desse neonazista não deixa dúvidas quanto a não serem só eles que devem se curvar ante os agentes da repressão, mas também presidentes e ministros.

Os mortos-vivos que nos aterrorizavam nas décadas de 1960 e 1970 precisam ser decapitados de novo. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 10 de março de 2026

UMA TEMPORADA NO INFERNO DO DITADOR MÉDICI FOI MEU RITO DE PASSAGEM

A política brasileira anda um tédio só, com o exageradíssimo destaque dado a mais um episódio de corrupção, insignificante na comparação com outros do passado mas significativo como munição para os feios, sujos e malvados que disputam a corrida presidencial.
,
,Resolvi, então, publicar um trecho do meu livro Náufrago da Utopiasobre o momento em que saí de casa para, como cantou a Gal Costa, correr mundo, correr perigo

Foi quando me tornei adulto. Antes, o movimento estudantil era puro deleite, mesmo tendo fugido da polícia duas vezes na base do pernas, pra que te quero

Iludia-me com a presunção de que sempre escaparia. E em abril de 1970, quando o pior finalmente aconteceu, eu já era considerado veterano, pois poucos duravam um ano naquele  auge do terrorismo de estado.

O destino me deu uma trégua, com os três primeiros meses transcorrendo sem mortes do nosso lado. O assassinato de Carlos Roberto Zanirato escancarou a porteira e os óbitos não cessaram mais.

Na primeira parte do livro, narrada na terceira pessoa, eu me denomino Júlio, meu nome de guerra quando era ativista da Frente Estudantil secundarista

Não sei a data exata do episódio aqui lembrado, mas já lá se vão 57 anos, tendo, com certeza, ocorrido no mês de março de 1969. (CL)

"...há quedas em cascata a partir da prisão [em 23/01/1969] de quatro militantes que, numa chácara de Itapecerica da Serra. maquilavam um caminhão para torná-lo idêntico aos do Exército.

Júlio recebe aviso da irmã de Maria das Graças, a  Baianinha: a repressão pode ficar conhecendo seu nome real e endereço a qualquer momento. Diego [Perez Hellin], Eremias [Delizoicov] e  Edmauro [Gopfert] também estão em risco. É melhor nenhum dos quatro passar o fim de semana em casa.

Júlio e Diego vão para Santos, com pouco dinheiro.

O azar os persegue. Só têm o suficiente para um almoço pobre, que dividem fraternalmente. Diego passa mal com sua gastrite.

À noite não podem dormir na praia por causa do toró que despenca. Tentam abrigar-se num edifício e acordam sob a mira do revólver do vigia, que os expulsa para a chuva. Finalmente o tempo melhora e ambos  desmaiam  na praia.

Acordando quase ao meio-dia, Júlio percebe que suas pernas haviam ficado expostas ao sol.

Queimadura brava, febre, fome, gastrite, tudo que pode acontecer de ruim com eles, acontece. Aguentam até o anoitecer e voltam.

Júlio chega em casa por volta da meia-noite e o pai dá o recado: a  Baianinha  esteve lá de novo e disse que o perigo é grande. Zonzo, desaba na cama e dorme. Mas, logo acorda sobressaltado e decide colocar-se a salvo. Já recobrou um pouco suas forças.

O que mais o inquieta, entretanto, é o receio de não estar preparado para as situações que vai enfrentar.

Como agiria agora um revolucionário experiente? Gastaria quase todo o seu dinheiro num hotel de bom padrão ou correria o risco de alojar-se num barato, mais exposto à polícia? É seguro colocar seu nome numa ficha?

No trajeto da Vila Prudente até o centro da cidade, não consegue desgrudar os olhos do taxímetro, fazendo contas e mais contas. Percebe que está fraco demais e precisa de repouso. Avalia que, mesmo sendo descoberto seu nome, levará tempo até que comecem a procurá-lo pra valer.

Acaba optando por um hotel simples mas respeitável, que não recebe pares para curta permanência.

Quando encosta a cabeça no travesseiro, percebe que o destino decidira por ele. Há alguns meses enfrentava o dilema de sair ou não de casa. Sabia que, para avançar na luta, teria de dar esse passo.

Levava a vantagem de, desde o primeiro momento, haver utilizado o nome-de-guerra em todas as atividades estudantis fora de sua própria escola. Os espiões da repressão devem conhecê-lo só como o  Júlio da Zona Leste. Jamais se colocava publicamente como aluno do MMDC. Tomava o maior cuidado para não ser seguido depois de uma passeata ou assembleia.

Mas, se o Deops realmente quisesse apanhá-lo, acabaria chegando a ele; suas chances de sobrevivência na luta aumentariam muito  caindo na clandestinidade.

No outro prato da balança colocava o desgosto que causaria aos pais, a forma como reagiriam à perda do filho único.

E, como não tinha mesmo dinheiro para manter-se fora de casa, ia adiando a decisão. Até que tudo se resolveu de forma praticamente automática, naquela noite. O rubicão foi transposto, as pontes queimadas.

Mas, jamais esquecerá a imagem do pai simulando um ataque cardíaco para comovê-lo e fazer com que desistisse. Foi a decisão mais difícil que tomara até então na vida
".

"Mamãe, mamãe, não chore,/ a vida é assim mesmo, eu fui embora./ Mamãe
mamãe, não chore,/ eu nunca mais vou voltar por aí/ ...eu quero mesmo é
isto aqui" Clique e ouça Gal Costa cantando Mamãe Coragem

segunda-feira, 9 de março de 2026

NO CLÁSSICO MINEIRO, O IMPORTANTE NÃO É VENCER NEM COMPETIR. É SOBREVIVER.


A frase o importante não é vencer, mas competir, atribuída ao Barão de Coubertin (fundador dos Jogos Olímpicos modernos), enfatiza a valorização do esforço, da superação pessoal e dos valores éticos em detrimento do resultado final. 

Ela promove a ideia de que a participação honesta e o desenvolvimento pessoal são o que realmente importa, e não a vitória a qualquer custo.

Faltou ensinar isto aos gladiadores do Atlético Mineiro x Cruzeiro. Eles protagonizaram a maior pancadaria nos campos de futebol que me lembro de ter visto na vida. Tanto que o clássico mineiro terminou com 23 expulsões (!).

Assim caminha a desumanidade. (CL)

Clique aqui para assistir, no Youtube, às
cenas deprimentes da barbárie em campo

domingo, 8 de março de 2026

EM 1845 MARX JÁ IMPLODIA AS PREMISSAS TEÓRICAS DO IDENTITARISMO

Companheiros que eu respeito sentiram-se incomodados com meu post deste sábado (7), intitulado O estupro é abominável, mas bem pior é a exploração do homem pelo homem

Em termos práticos, minha ojeriza pelas premissas do identitarismo vêm desde 1975, quando eu participava do Grupo Cacimba e o Movimento Negro alugou um grande salão próximo à nossa área de atuação. 

Como havia espaço sobrando, propusemos que cedessem um cantinho para nós, o que retribuiríamos de várias formas. Somar forças beneficiaria ambas as partes, mas recusaram porque queriam combater apenas o racismo. 

Durante minha trajetória posterior continuei ajudando o movimento negro em tudo que podia, principalmente na denúncia da vandalização de seus templos pelos truculentos evangélicos. Mas sempre me incomodou o fato de que eles não lutavam ao nosso lado contra o capitalismo. 

Quanto ao movimento feminista, eu o acompanho à distância desde que começou a repercutir mais no Brasil, a partir da década de 1960.

Li e gostei de cartilhas faministas como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir; A Mulher Eunuco, de Germaine Greer; e A Liberdade É Uma Luta Constante. da Angela Davis.

São autoras que foram muito além do combate simplório ao machismo, uma bandeira que pode ser facilmente atendida pelo capitalismo (e, mais dia, menos dia, acabará o sendo), sem que isto altere sua natureza essencial, qual seja a exploração do homem pelo homem.
 
Depois, em 2010, quando outros identitários, agindo como 
aprendizes de censores, tentaram impedir a utilização de Caçadas de Pedrinho, do Monteiro Lobato, na rede estadual de ensino de SP, senti-me obrigado a defender o escritor que tanto contribuíra, com seus sensíveis livros infanto-juvenis, para moldar minha visão rebelde da sociedade. 

Na polêmica então travada, ressaltei que a visão marxista era a postura mais compatível com estes tristes tempos presentes e tinha sido explicitada por Marx em 1845, de forma irrefutável, nas Teses sobre Feuerbach. Ei-la:

A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, de que seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. 
Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade.

A consciência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como praxis revolucionária. (3ª tese)
 
Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo. (11ª tese)

Ou seja, os educadores que se arrogam o direito de decidir o que crianças (ou a sociedade como um todo) podem ou não ler, e com quais ressalvas, lhes devem ser permitidas tais leituras, têm, eles próprios, de ser educados.
Pois não basta a adoção de outras palavras para eliminar-se a carga de preconceitos com que as pessoas as impregnaram, nem fazer triagem de obras artísticas para extirparem-se os comportamentos condenáveis nela retratados.

Somente livrando a humanidade do pesadelo capitalista conseguiremos dar um fim a todas as formas de discriminação, pois uma das molas mestras da sociedade atual é exatamente a busca da diferenciação, do privilégio, do status, da superioridade.

Enquanto os seres humanos forem compelidos a lutarem com todas as suas forças para se colocarem acima de outros seres humanos, será ilusório pretendermos tangê-los ao respeito mútuo por meio de besteirinhas cosméticas.

É desprezando os iguais que eles adquirem forças para a disputa insana que travam, pisando até no pescoço da mãe para alçarem-se a um patamar superior na hierarquia social.

Então, a verdadeira tarefa continua sendo a transformação do mundo, para que não haja mais hierarquia e sim a priorização do bem comum, com cada um contribuindo no limite de suas possibilidades para que sejam atendidas as necessidades de todos.

Enquanto nos iludirmos com esses pequenos retoques na fachada do edifício capitalista, estaremos perdendo tempo: seus alicerces estão podres, para além de qualquer restauração. 

Ou o demolimos e tratamos de erguer novo edifício em bases sólidas, ou ele ruirá sobre nós É simples assim. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 5 de março de 2026

O ESTUPRO É ABOMINÁVEL, MAS BEM PIOR É A EXPLORAÇÃO DO HOMEM PELO HOMEM

P
or que homens progressistas não se posicionam sobre notícias de estupro? -- indaga Luciana Bugni, colunista do Splash e da Folha de S. Paulo

Responderei eu, que detesto eufemismos e brigo com quem me xingar de progressista. Sou é revolucionário, com muito orgulho. 

Até o notório anticomunista Lula se considera progressista. Isto porque se trata de um rótulo que serve para ele e para qualquer um, até por quem apenas pleiteia reformas dentro do capitalismo (ou seja, algumas migalhas a mais na mesa dos explorados).  

Evidentemente, considero o estupro um crime abominável, que deve ser punido com todo rigor, mesmo quando o estuprador é rico e/ou famoso.

Mas, num país miserável e desgovernado como o Brasil, muito mais importante é a luta contra o capitalismo (o maior de nossos males, capaz até de condenar a espécie humana à extinção).

Daí eu não suportar todo esse estardalhaço por causa de uma prática que merece todo repúdio, mas não tamanha estridência.
Inocente como um anjo

E me enojam perseguições como as que as feministas moveram contra MiKe Tyson e Roman Polansky, ambos vítimas do chamado golpe do suadouro (uso de prostitutas para atrair homens até algum quarto e lá o extorquirem com a ameaça de enviar às respectivas famílias provas do seu adultério).

Os dois 
tiveram de desembolsar milhões de dólares para se livrarem da feroz campanha de difamação. 

Vale lembrar também outro extraordinário cineasta, Bernardo Bertolucci, embora o golpe não tenha funcionado contra ele. 

Quem é tolo a ponto de acreditar que uma atriz até então desconhecida, após concordar com a filmagem de uma simulação de sodomia, recebendo grana como nunca tinha visto na vida e uma promoção gigantesca do seu nome, houvesse se sentido estuprada?!

Vale também lembrar que, quando do lançamento de O Último Tango em Paris, ela dava entrevistas que eram pura cafajestice. Disse, p. ex., que vestido o Marlon Brando era um homem bonito, mas sem calça não impressionava mais ninguém. 

As feministas serão muito mais respeitadas em nossa sociedade sem tais excessos, ou seja,  se deixarem de concentrar seu fogo apenas contra ricaços e celebridades, passando a ajudar preferencialmente pessoas simples estupradas por outras pessoas simples. 

Aí também se livrarão dessa imagem de caçadoras de holofotes, que eu delas tenho e muitos outros também têm. (por Celso Lungaretti).

quarta-feira, 4 de março de 2026

COVARDES E SANGUINÁRIOS

"O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que quero saber
As notícias que leio, conheço
Já sabia antes mesmo de ler"
(Caetano Veloso e Gilberto Gil)
Os versos acima são da canção tropicalista Domingo, mas caem muito bem para o momento atual. 

Quase seis décadas se passaram e as notícias, inclusive as de horrores dantescos, continuam se repetindo sem cessar. Estamos condenados ao eterno retorno? Ao trem fantasma?

Agora assistimos à nova temporada de extermínio perpetrado pelos Estados Unidos e Israel, que continuam seguindo fielmente os passos de Hitler. 

Dos EUA eu não esperava algo diferente, mas os israelitas traem sua própria história
(vide aqui): sofreram o Holocausto no século passado e agora o impõem aos países árabes.  

Israel é o quarto Reich e os Estados Unidos em nada mudaram desde que despejaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, talvez o pior crime de guerra da história da humanidade.  

A única novidade que talvez vejamos será a extinção da Organização das Nações Unidas, por haver se tornado uma despesa inútil: existe para evitar genocídios, mas nunca consegue impor o respeito às  práticas civilizadas por parte dos arrogantes estadunidenses e israelitas.

Não comentarei as novas agressões covardes e sanguinárias a nações muito mais fracas. São iguais a todas que as antecederam, também impunes. De que adianta as deplorarmos se nada de concreto resulta?! 

Fazem enorme falta as brigadas de voluntários estrangeiros que foram combater os fascistas na guerra civil espanhola. Os novos assírios (o povo mais cruel de todos os tempos) mataram inclusive nossas esperanças e nossa disposição de lutar por causas justas.  (por Celso Lungaretti)
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