quarta-feira, 13 de maio de 2026

HOJE É DIA DE RELEMBRAR O 'TEATRO DO OPRIMIDO' E A PEÇA 'ARENA CONTA ZUMBI'

Se eu tivesse de escolher a melhor peça teatral brasileira de todos os tempos, cravaria sem pestanejar Arena conta Zumbi, que estreou no dia do trabalhador de 1975, mas serve também, até melhor, para marcar o dia da libertação dos escravos (hoje).

Afora o verdadeiro achado que foi, para compensar a parcimônia de recursos do teatro do oprimido, a criação do sistema do curinga (os mesmos atores alternam-se na representação de vários personagens, só mudando um ou outro item da indumentária), tratou-se de uma peça brilhante e indignada: expressou a frustração e a raiva pela rendição sem luta de 1964, uma das páginas mais vergonhosas da esquerda brasileira ao longo da História. 

Quando a censura forçava os artistas a recorrerem a subterfúgios para conseguirem levar sua mensagem ao público, a saga dos quilombos foi utilizada para simbolizar o ascenso dos movimentos de massa e seu esmagamento pelo golpe militar. 

Os paralelos, ironias e insinuações perpassam todo o espetáculo. Há, inclusive, uma velada conclamação à luta armada, que dali em diante se tornaria cada vez mais explícita no teatro, no cinema e na MPB. 

E o elenco era um arraso, com o próprio Guarnieri, Lima Duarte, David José, Dina Sfat, Marília Medalha, Carlos Castilho, etc.

Para os jovens conhecerem e os menos jovens matarem as saudades, eis o disco da peça, com 45 minutos de músicas (do Edu Lobo, algumas das quais se tornaram clássicos da MPB), diálogos e até o discurso de posse de um mandatário linha dura, cuja retórica é uma paródia hilária dos zurros dos golpistas de 1964. 

Para finalizar, uma curiosidade: foi a primeira peça de teatro adulto a que assisti, em temporada popular no Theatro Artur Azevedo. Tinha 14 anos e a epopeia dos quilombolas me impactou fortemente. (por Celso Lungaretti)
Para acessar o áudio completo da peça, copie e cole este
endereço:
 https://youtu.be/RWzgOam2J8o?list=RDRWzgOam2J8o

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/11

Mais uma vez alguém entrou na minha vida para mostrar-me um caminho, como ocorrera em 1967, quando troquei a literatura europeia existencialista pelos autores brasileiros engajados.

Meu patrão era então o produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional

Num fim de uma tarde, Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e fui incumbido de ficar fazendo sala para ele. 

Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para falar com o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.

Depois o Mozart me contou que os dirigentes do partido a que ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria uma pessoa na base do disse-me-disse.

Acabamos nos dando bem e entrei para o grupo, participando de reuniões e edições, recitando uma poesia combativa para públicos de 40 pessoas, etc. 

Percebi que a convivência com companheiros me fazia muita falta, mas tal espaço começava a ser preenchido.

Num sábado, nossa reunião político-literária foi visitada por um companheiro de Natal, Rubens Lemos, que veio pedir-nos ajuda.
O jornalista, advogado, secretário da
Cultura e cordeleiro Franklin Machado
Era pai de um dos seis aloprados que resolveram expropriar um banco, embora a ditadura já houvesse terminado (era 1986). 

Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).

Em desespero de causa eles resolveram fazer uma greve de fome, que começaria dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.

Eu era o único com know-how para desempenhar tal papel, então  me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo por danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.

O problema principal era que eles pertenciam ao PT como fachada e ao PCBR por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse. 

A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negavam-lhes a solidariedade revolucionária por já então estarem abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.

Então, a direita era contra eles e a esquerda os abandonava. Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.

Mandei um dossiê para o colunista da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro, Newton Rodrigues. Sabia que era de esquerda no tempo do golpe de 1964, quando integrara a corajosa equipe de redatores do Correio da Manhã. Mas ignorava que ele assessorava o ministro da Justiça na remoção do entulho autoritário. 

Pouco depois o Newton publicou na sua coluna que recebera de mim uma denúncia fundamentada sobre perseguições sofridas pelos quatro e a levara ao conhecimento do ministro.

No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça. Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio. 

Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição que eu tinha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!

Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que deveriam concordar com uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.

Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos. 

Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.  

* * *

Lá por 1975 recebi uma oferta do jornalista Luiz Aparecido da Silva, do PCdoB, que mantinha relações cordiais com o Mozart da Cacimba. Ele se propôs a reunir a imprensa para ouvir uma denúncia minha sobre as torturas que sofrera e queacabaram desembocando no estouro do meu tímpano direito e no meu arrependimento forçado. 
Melhor livro sobre o cerco a Registro 

Aceitei em princípio, mas avisei que detalharia as torturas desde que me fosse possível contar também como a VPR me fizera de bode expiatório de uma culpa que não era minha. 

Como prêmio seria recebido no PCdoB para reatar minha militância, começando por baixo (aliado ou simpatizante, não me recordo mais). Tive vontade de aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.

Mas percebi que o pomo da discórdia era o de que,  se relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.

Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.

Mas em 1979, quando voltei a estudar para completar o curso de jornalismo que me livraria de perseguições do sindicato da categoria por estar exercendo a profissão sem diploma de nível universitário, não passou nem um mês e eu era convidado a participar de uma reportagem da IstoÉ sobre os arrependimentos de esquerdistas. Eu concordei e fui o mais incisivo na crítica às sevícias. 

Em seguida o jornal gaúcho Zero Hora fez uma série de reportagens sobre o mesmo assunto e novamente botei a boca no trombone,

Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela ele encaixou um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR.

Travamos uma polêmica com três intervenções cada e eu deixei para a última delas a informação de que as áreas de treinamento guerrilheiro eram duas, a que abandonamos e a que foi invadida pela repressão. Como ninguém jamais havia falado nisso, coloquei uma dúvida na cabeça de muita gente da esquerda.

O Paiva inclusive deixou de me atacar no terceiro texto, no qual se esforçou para pagar a imagem de inquisidor em que eu o deixara, afirmando que era um bom moço, que gostava de samba, carnaval, mulheres e futebol...

Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.

Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por uma pessoa presa no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?

Tive a ideia de levar o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais material sobre o assunto, iria consultá-lo e me daria retorno.

Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo. A Folha publicou na íntegra uma carta do Gorender  em meu favor; fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que fora acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.

Mas, ainda havia lutas a ser travadas e, mesmo com a idade de 57 anos, sobrava-me disposição para travá-las. (por Celso Lungaretti

terça-feira, 12 de maio de 2026

O DONO DA BOI GORDO ERA UM SELF SHIT MAN DO CAPITALISMO. O BOZO, UM SERIAL KILLER. OS POLÍTICOS, SONS OF BITCHES.

Outra prova de que o Brasil não é um país sério

Rui Martins, meu amigo de longa data e colaborador deste blog desde o seu início em 2008, bateu pesado (vide aqui) no Paulo Roberto de Andrade, criador e dono das Fazendas Reunidas Boi Gordo,  cuja falência foi decretada oficialmente em 2004.

Está certo o Rui quanto à necessidade de se punir quem aplica golpes no mercado, mas o Brasil está diminuindo a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro, que, com sua sabotagem vacinal, acrescentou no mínimo três centenas de milhares de óbitos ao número de mortos pela covid. 

O pilantra Andrade deveria passar alguns anos na prisão. O serial killer Bolsonaro merecia ficar o resto da vida a pão e água num cárcere medieval. País que quebra o galho de um exterminador desses decididamente não é um país sério, como Charles De Gaulle disse ou levou a fama de haver dito. 

Tenho mais desprezo pelos políticos profissionais, que roubam sem correr riscos, do que pelos bandidos, cujo ofício embute o perigo de serem mortos. O golpe da amenização das penas da dosimetria, um absurdo gerado no Congresso, está aí para mostrar como a corja da politicagem age com o máximo de fisiologismo para proteger seus pares, ainda que de outros partidos.

Quanto à Boi Gordo, era cliente de uma agência de comunicação empresarial na qual trabalhei. Depois soubemos que Andrade havia cumprido pena de prisão num passado distante. 

.Seu negocio era vender bezerros para os investidores, cuja grana era devolvida, se bem me lembro, um ano e meio depois, acrescida da maior parte do valor obtido com a engorda. 

Tratava-se de  uma pirâmide: o dinheiro utilizado para pagar os clientes cuja engorda se encerrava saía dos novos contratos vendidos pela Boi Gordo.

Andrade percebeu que o esquema batera no teto e os novos contratos não seriam mais suficientes para reembolsar os clientes velhos. Então, tentou salvar a empresa comprando uma megafazenda no Mato Grosso, onde venderia lotes de terra e a Boi Gordo se incumbiria de construir as fazendas solicitadas pelos clientes. 

A infraestrutura, com aeroporto, supermercado, usina de força, banco, etc., ra muito dispendiosa. E foi bem no meio do projeto que a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo proibiu a Boi Gordo de vender novas cotas. A quebra se tornou iminente.
Antonio Fagundes, o rei do gado extraviado
Mas, não me parece que a intenção dele fosse encerrar as atividades e fugir com a grana, pelo menos no momento em que o fez. Caso contrário não gastaria tanto na compra de bois campeões e em melhoria genética. 

Quando o colapso se tornou evidente, ele foi desfrutar sua fortuna nos Estados Unidos, deixando os investidores na mão. 

Pelo que eu soube, o Andrade só pagou uma categoria de investidores: os bandidos que lavavam dinheiro aplicando-o na Boi Gordo. Com esses não se brinca. (por Celso Lungaretti)

GOLPE DO BANCO MASTER VAI ACABAR EM PIZZA COMO O DA BOI GORDO?

 Megafazenda da Boi Gordo no
Mato Grosso: o princípio do fim.
 

O golpe do Banco Master terminará em pizza e Daniel Bueno Vorcaro vai rir da nossa cara, enquanto estiver tomando seu uísque à beira-mar de um resort de renome, curtido só por milionários?

Ao seu lado, poderá estar gargalhando até do nosso Judiciário um de seus prováveis inspiradores, Paulo Roberto de Andrade, famoso por um golpe de mais de 2,5 bilhões, não em ministros, políticos e bancos, mas em 34 mil pequenos investidores da classe média.

Segundo o professor Marcos Assi, na revista Exame, o golpe do Banco Master tem uma diferença marcante: os maiores lesados não foram apenas pequenos e médios investidores, mas fundos de pensão, municípios, Estados e empresas de capital aberto, com envolvimento direto ou indireto de políticos e até de importantes juristas, num total astronômico calculado em 10 bilhões de dólares.

O trambiqueiro Paulo Roberto de Andrade (foto à esquerda), criador e gestor da pirâmide ou safadeza das Fazendas Reunidas Boi Gordo nunca foi preso, graças a um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal de Justiça. Depois da programada delação, Daniel Vorcaro também sairá livre e poderá comemorar com os amigos que viajavam no seu avião?

Mais de vinte anos depois da falência da Boi Gordo, a Justiça se arrasta na venda das fazendas tomadas de Andrade, cujo total serviria para indenizar parcialmente os investidores lesados. O pessimismo é do advogado de muitos dos lesados, Aurélio de Almeida Paiva.

E, embora grande parte dos investidores tenha enviado seus investimentos em dólares para Miami, até hoje a Justiça brasileira, encarregada da falência, não pediu aos Estados Unidos o retorno total desses recursos ao Brasil.

Diante do escândalo do Banco Master, lembrei-me de um artigo sobre a falência da Boi Gordo que escrevi em 2009, com descrença e pessimismo na Justiça brasileira, bem evidente já no título: Dono da Boi Gordo rico, feliz e livre.

O empresário Paulo Roberto de Andrade tinha sido processado por crime falimentar e condenado a três anos de prisão pela 13ª Vara Criminal de São Paulo. Mas seu advogado entrou com um habeas corpus para Andrade aguardar em liberdade o fim do processo. E o ministro Og Fernandes, da 6ª Turma do STJ, concedeu a liminar alegando que o TJ paulista não podia determinar a prisão antes do trânsito em julgado da sentença.

Enfim, o STJ anulou a ação penal contra Andrade e reconheceu a prescrição do processo. Mas acrescentou um parágrafo elucidativo, segundo o promotor Eronildes Rodrigues dos Santos, da Vara de Falências de São Paulo: 
É a pizza. Fazer o quê? Lamento a anulação de um caso emblemático como esse. Houve um golpe, milhares de pessoas foram lesadas e não haverá responsabilização penal
É o cowboy fora da lei cantado pelo Raulzito?
Procurado. o ministro Nilson Naves, responsável pela decisão do STJ, está ocupado e não tinha tempo para atender.

Vai ser assim com Daniel Vorcaro? Quem viver verá! 

A lei, ora a lei, dizia  Getúlio Vargas. (por Rui Martins)

domingo, 10 de maio de 2026

HOJE É O DIA EM QUE AS MÃES SÃO USADAS PARA ALAVANCAR VENDAS E ENDINHEIRAR OS SALAFRÁRIOS DO CAPITALISMO

O Brasil, com sua industrialização tardia, foi poupado do pesadelo em que se constituiu a criação da infra-estrutura básica do capitalismo na Europa, com destaque para o trabalho massacrante nas minas de carvão inglesas, em que mulheres e crianças cumpriam jornadas às vezes superiores a 14 horas diárias!

Em nosso país, até a década de 1960 os homens da casa (o pai e os filhos, estes pegando no batente tão logo atingiam a idade de 14 anos) geralmente obtinham remuneração suficiente para o sustento, mesmo que precário, da família.

Foi quando os avanços no processo produtivo, tornando cada vez mais desnecessária a força física para a maioria dos desempenhos, possibilitaram o ingresso em massa das mulheres no mercado de trabalho.

O chamariz do consumo e a perspectiva de serem donas dos próprios narizes (sem se darem conta de que estavam apenas trocando o mandonismo do marido pela tirania impessoal do sistema) levaram as mulheres a disputarem entusiasticamente posições com suas iguais e com os próprios homens, mesmo recebendo paga inferior à deles pelas mesmas funções. Como consequência desse aumento exagerado da oferta da mão-de-obra, as remunerações de todos foram aviltadas.

As famílias de classe média, principalmente, passaram a depender do trabalho dos dois cônjuges para manter seu padrão de vida. Ficaram em cacos, com pais fatigados demais para cumprirem realmente seu papel e crianças crescendo aos cuidados de terceiros. O resultado são os jovens problemáticos, egoístas e imaturos de hoje em dia.
Nestes tempos em que as mulheres veem a si próprias mais como profissionais do que como mães, paradoxalmente, o Dia das Mães é festejado como nunca. Mas, também aí prevalecem os malfadados interesses monetários, a necessidade que o sistema tem de datas festivas que alavanquem as vendas.

Então, o grande exemplo a ser lembrado nesta data é o de Anna Jarvis, estadunidense que batalhou incessantemente para que fosse instituído um dia de homenagem a todas as mães, vivas ou mortas, visando fortalecer os laços familiares e o respeito pelos pais.

O governador do seu estado, a Virgínia Ocidental, acabou oficializando essa celebração em 1910, no que foi logo imitado por congêneres, até que o presidente Woodrow Wilson unificou em 1914 as várias datas estipuladas, fixando o Dia Nacional das Mães no segundo domingo de maio.

Os comerciantes se atiraram sofregamente à exploração do lucrativo filão, horrorizando Ana Jarvis, que desabafou em 1923 para um repórter: Não criei o Dia das Mães para ter lucro. No mesmo ano ela tentou cancelar a celebração por meio de uma ação judicial, inutilmente.

E teve sorte de morrer antes que o desvirtuamento do Dia das Mães se tornasse avassalador na atual sociedade de consumo. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 9 de maio de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO/10

No início de abril finalmente foi relaxada a última das minhas prisões preventivas por haver militado na VPR e na VAR-Palmares, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Um dos juízes auditores considerou desnecessária a medida., os outros três seguiram a diretriz oficial.

Mas eu me encontrava lá para sofrer e continuaria sofrendo até o momento de recuperar a minha liberdade. Estava no DOI-Codi/SP e, certo dia, me mandaram juntar a tralha que tinha, pouca coisa, e ir esperar a soltura na entrada daquela unidade. 

Passei uma tarde inteira no que seria um estacionamento, vendo viaturas chegarem e partirem, à espera do fim do pesadelo. Em vão. No final da tarde me encaminharam de novo para a cela, porque faltava resolverem algum detalhe burocrático.

Dia seguinte, a mesma coisa. Mas, depois da algumas horas, fui finalmente libertado. Passara 11 meses e meio no inferno e sobrevivera, mas sem perspectiva nenhuma na mente, sem a mínima ideia do que faria dali em diante. 

Decidi-me pelo vestibular de jornalismo e comecei a fazer o cursinho que levava um semestre. Mas, no meu primeiro julgamento, fui sentenciado a seis meses de prisão e o juiz não quis aceitar que o tempo já havia sido cumprido nas prisões preventivas. Argumentou que não fora ele quem as decretara. 
Voltei para o DOI-Codi/RJ, tendo de aguentar as piadas sem graça dos torturadores, tipo o bom filho à casa torna.  

De quebra, estava livre das torturas, mas obrigado a escutar os berros de presos sendo torturados, móveis tombando ou sendo arrastados, gritos dos algozes para amedrontá-los, etc. Não há palavras para relatar quanto me machucou ter retornado àquele local maldito.

Depois de umas duas semanas o advogado conseguiu dobrar o juiz hostil e voltei para a rua. Curiosamente, entre a prisão e o repique, acabei totalizando um ano exato de encarceramento.

Retomei o cursinho, sendo aprovado na ECA-USP e, finalmente, tive um período mais afortunado. Comecei a namorar com A., que acabaria  se tornando a minha primeira esposa.  E reencontrei amigos que fizera no tempo do movimento secundarista.

Estavam prestes a formarem uma comunidade alternativa num casarão espaçoso do Jardim Bonfiglioli. Convidaram-me e fui morar com eles.

Sem grana nem vontade de fazer análise, a comuna foi minha salvação. Acabei exorcizando sozinho meus fantasmas, mas vivendo novamente em grupo, num momento em que a bestialidade da ditadura grassava solta. Passei pelas experiências que me faziam falta, como ter um amor incandescente com uma das meninas, a V.

Quando ela viajou a Minas Gerais para visitar os pais e decidiu ficar por lá, fui atrás quase sem grana, numa última tentativa de convencê-la a mudar seus planos. João, meu melhor amigo naquela comunidade, fez questão de ir junto, temendo algum descontrole da minha parte. Fomos de carona em caminhões e voltamos com um empréstimo do pai dela, após passarmos uma tarde inteira tentando, em vão, descolar uma carona.

Depois de passar vários meses sendo sustentado pelos companheiros da comunidade que tinham emprego, quando eles ficaram desempregados avaliei que era meu dever tomar-lhes o lugar, naquele que foi o primeiro de uma longa lista de trabalhos 
em assessoria de imprensa, suficiente para pagar sozinho o aluguel do casarão.

Como principal tarefa, eu fazia a divulgação do primeiro congresso de mastologia que teria lugar no Brasil. 

Mas a diretora de relações pública e a de congressos e convenções competiam pelo dono da empresa, então a minha chefe me colocou sozinho para fazer o trabalho de umas três pessoas, exatamente para que eu fracassasse. Tinha de: 
-- saber o que rolava nas várias sessões, 
-- escrever sobre o que surgisse de interessante, 
--receber jornalistas e colocá-los em contato com quem pudesse falar sobre o tema por eles escolhido,
-- redigir os press-releases, tirar cópias, envelopá-los, encaminhá-los.

Foi a primeira vez em que a minha tenacidade foi testada. Fazendo das tripas, coração, cumpri todas as funções e tive o faro jornalístico de perceber a importância do discurso do ministro da Saúde na abertura dos trabalhos. Trouxe dados comprovando que o câncer de mama, do qual pouco se falava, era um grave problema no Brasil. 

Praticamente arranquei da mão dele o discurso que acabara de pronunciar e do qual não havia trazido cópia. Fiz uma apresentação de umas 10 linhas e enviei a íntegra discurso para a imprensa do País inteiro. Saiu como água, inclusive sendo manchete do dia de jornais importantes.

Mal sabia que estava inaugurando uma prática que muitas vezes repetiria depois, tanto profissionalmente quanto nas batalhas idealistas.  No lançamento do meu livro, um dos críticos escreveu que (no bom sentido) eu era um homem muito teimoso. E era mesmo.

Como quase todos nessas comunidades, experimentei as drogas. A maconha e os remédios que davam barato (como o Artane) não me entusiasmaram, mas o LSD sim. Não pelo início da
viagem, que chegava a ser desagradável, mas pelo seu final. 

Conforme o efeito ia passando, eu sentia uma calmaria extrema, como se fosse um espírito observando a faina insensata dos vivos. Anotava a esmo o que me vinha à cabeça e mais tarde transformava os apontamentos em poesias, algumas boas, outras nem tanto. 

Após ter terminado meu relacionamento com a V., não por acaso, comecei a consumir mais as drogas. Outro amigo do tempo da Frente Estudantil Secundarista se tornara traficante e não cobrava nada de mim.

Também foi nessa fase que passei a contestar o líder da comunidade, por me parecer autoritário e stalinista. De certa forma, revivi o drama histórico do confronto entre Stálin e Trotsky, influenciado pelos livros da Isaac Deutscher sobre o desvirtuamento da revolução russa. Era uma espécie de psicodrama, que teve papel importante na minha volta à normalidade.

Finalmente, uma viagem estranha simbolizou o esgotamento dessa fase: vi-me caminhando na direção de uma ponte e sabia que, se a atravessasse, passaria o resto da vida na dimensão paralela da loucura. 

Refleti durante alguns minutos e resolvi não transpor a ponte. 

A decisão tomada no transe lisérgico permaneceu quando saí dele. Nunca mais os tóxicos tiveram relevância na minha vida.

A comunidade se esfacelou pouco tempo depois. Eu aluguei uma quitinete para morar com a minha primeira namorada, a A,, da qual me reaproximara. 

Esgotado pelo frenesi em que levara a minha vida nos últimos anos, decidi conceder-me o repouso do guerreiro. 

Desinteressei-me da realidade sufocante da ditadura, que grassava lá fora, e passei a me restringir  ao aqui dentro da minha toca, dividindo a existência entre o trabalho alienado durante o dia e, á noite, os rocks de terceira geração que eu preferia: King Crimson, Pink Floyd, Yes, Focus, Genesis, Moody Blues, etc.

Teria chegado ao fim de minha inquietação e combatividade? Não, ainda tinha muitas páginas a escrever no livro da vida. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O MOVIMENTO ESTUDANTIL ERGUE-SE CONTRA O SUCATEAMENTO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Para matar as saudades das ocupações estudantis de 1968 e da tomada da reitoria da USP em maio de 2007, republico abaixo minhas impressões de quando visitei a segunda. Já com 56 anos, fiz questão de levar  minha solidariedade à moçada que ficou lá por 50 dias e acabou sendo vitoriosa contra a truculência policial e fulminando os quatro decretos autoritários do governador José Serra.

Gostaria de estar publicando aqui um texto sobre a ocupação atual, mas as pernas não me ajudam.

Transmito, ainda assim, meu abraço aos que vieram depois mas honram a combatividade de minha geração, a de 1968. 

Um dos maiores orgulhos da minha vida é ter-me mantido fiel à opção revolucionária que fiz entre dezembro de 1967 e janeiro de 1968.  Muitos da minha geração abandonaram os seus ideais e foram enriquecer ou empoderar-se. 

Lamento por eles, mas tomo a liberdade de citar-lhes  Marcos 8:36: de que vale alguém ganhar o mundo inteiro se perder a sua almaMemória não morrerá. (CL) 
POR DENTRO DA REITORIA OCUPADA
A última segunda-feira de maio [dia 28] é ensolarada, uma exceção no invernal outono paulistano. As pessoas ao redor da reitoria da Universidade de São Paulo, ocupada pelos estudantes desde o dia 3, mostram aquela animação habitual de quem reencontra o calor e o céu azul, após vários dias frios e cinzentos.

Conversam, brincam, confraternizam. Há líderes de servidores públicos se revezando num alto-falante para instruir/entreter quem chegou adiantado à reunião da categoria que terá lugar ali mesmo, ao ar livre. Ninguém parece preocupar-se com uma invasão da Polícia Militar, para cumprir o mandado de reintegração de posse concedido pela Justiça.

Uma barricada de pneus diante da entrada é a vitrine da ocupação. De que realmente servirá, caso cheguem brutamontes bem treinados e equipados, que têm a violência como realidade cotidiana? Quase nada. Mas, os símbolos têm papel importante nas batalhas em que o grande objetivo estratégico é a conquista de corações e mentes.

Diante da única porta de entrada, alguns estudantes do esquema de segurança fazem a triagem dos visitantes. Basta ter uma carteirinha de aluno ou professor da USP para entrar sem problemas. Como não sou uma coisa nem outra, levo alguns minutos para convencê-los de que não vim brincar de 007

Como credencial, apresento meu livro Náufrago da Utopia, que por acaso trago comigo. Agrada-lhes o caderno iconográfico, com muitas fotos do movimento estudantil de 1968. Meio convencidos de minhas boas intenções, deixam que eu vá parlamentar com a Comissão de Comunicação (ou rótulo que o valha). Acompanhado, por enquanto.

Lá decidem que eu posso circular à vontade pela reitoria ocupada, liberando meu cicerone/vigia para outras tarefas. Uns 15 estudantes rodeiam meia dúzia de computadores, uns digitando e os outros palpitando.
Cuidam de manter o blog da ocupação no ar, de selecionar e imprimir textos que serão expostos nos quadros de avisos e paredes. E também de mandar mensagens de esclarecimento aos jornalistas que falam mal da ocupação. [Como se isso adiantasse. Tirando honrosas exceções, a imprensa se colocou contra os estudantes, às vezes dissimuladamente, outras da forma mais panfletária e caluniosa, como fez a Veja São Paulo, que os acusou de vândalos, baderneiros e arruaceiros.]

A diferença mais marcante com relação às ocupações antigas é, exatamente, o esquema de comunicação sofisticado da atual, incluindo TV por Internet e rádio livre

De resto, sinto-me como se tivesse entrado num túnel do tempo e desembarcado naquele mês de julho de 1968 em que a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia (SP) esteve ocupada para servir como QG das iniciativas em apoio da greve de Osasco, lançando a nova onda que (como agora) rapidamente se alastrou.

Os mesmos colchonetes espalhados por um salão em que repousam alguns sentinelas cansados, após a vigília da madrugada – período mais propício para uma operação policial, exigindo, portanto, cuidados redobrados (e muita disposição para enfrentar o frio).

Os mesmos jovens com roupas coloridas e brilho no olhar, convencidos de que estão fazendo História, embora alguns ainda sejam imberbes.
Aqui foi travada a batalha da Maria Antônia

Os mesmos mosaicos de textos e imagens compondo um visual agradavelmente anárquico. [O pôster mais hilário é o do governador José Serra fazendo mira com um fuzil e os dizeres José Serra, nada mais nos UNE. Que ingenuidade, deixar-se fotografar em pose tão incompatível com sua aura e seu passado!]

Sou capaz de apostar que, se fizesse uma excursão como a que estou fazendo, a reitorazinha teria chiliques, pois, à anarquia criativa, deve preferir os ambientes burocratizados, assépticos e sem vida, a julgar pelo que revela nas entrevistas: faz musculação, esteira e escova nos cabelos, usa terninhos de estilo clássico, quer corrigir pálpebras e bochechas com cirurgia plástica.

Deuses, o que faz uma farmacêutica numa posição dessas? Serão esses os temas que uma reitora deve tratar na imprensa, quando sua universidade vive a maior crise das últimas décadas? 

[De quebra, é uma ingênua que, a mando ou com autorização do governador, pede reintegração de posse e depois paga o mico de ver o mandado judicial descumprido, já que os estudantes não engoliram o blefe e Serra teme as consequências desse presumível confronto sobre suas ambições políticas.]
Apesar de toda a grita demagógica dos direitistas empedernidos e dos cristãos-novos do reacionarismo, não há sinais visíveis de depredação ou vandalismo. Aliás, os estudantes criaram um sem-número de comissões, para cuidar de cada detalhe administrativo da ocupação, zelando pelo patrimônio público. 

Até permitem que os faxineiros continuassem cumprindo sua função de manter limpas as várias dependências, indiferentes ao perigo de que o inimigo possa infiltrar-se camuflado com macacões.

O que não funciona mesmo são os caixas eletrônicos de bancos, nos quais foram colados avisos de sem dinheiro. Uma fração infinitesimal da usura consentida pela Justiça e abençoada pelo sistema foi detida. Vem-me à lembrança uma música de Sérgio Ricardo, ídolo dos universitários responsáveis pelas ocupações de quatro décadas atrás: Os bancos e caixas-fortes/ que eram rocha, se quebraram/ e um rio de dinheiro correu.

À saída, lanço um último olhar a esses jovens belos, brilhantes e idealistas, aparentemente tão frágeis, mas dispostos a enfrentar a tropa de choque da PM, se isso for necessário. Espero, torço para que não venha a ser.

Volto para o mundo real da desigualdade, da competição e da ganância, depois de um breve reencontro com o faz-de-conta revolucionário.
José Serra, ex-presidente da UNE. Pode?

Ciente de que há um longo caminho a percorrer até que os voluntários da utopia voltem a ser em número suficiente para tentarem ir além do faz-de-conta.

E, mesmo assim, esperançoso, pois um passo importante está sendo dado, com esse renascer do movimento estudantil que ora se delineia. É tudo de que precisamos, a renovação e oxigenação da esquerda, depois de tantas desilusões e defecções.

As pedras voltam a rolar. (por Celso Lungaretti)
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