domingo, 29 de março de 2026

POR QUE OS SINOS DOBRAM PARA CUBA?

Cuba ora entra em decomposição – sentencia o jornalista Rodrigo da Silva, o criador do canal Sputniks do Youtube.

Infelizmente, desta vez não se trata da habitual propaganda anticomunista que infesta os jornalões. Eis alguns dados:
– Cuba enfrenta um terrível colapso no setor elétrico, com apagões durando até mais de 10 horas em Havana. Quando o sol vai embora, o país desliga junto. As usinas termelétricas, construídas entre 1960 e 1970, caducaram. A capacidade de geração do país cai cada vez mais;
– o salário médio mensal em Cuba equivale, no mercado negro, a US$ 16,30  por mês. O salário mínimo caiu para o equivalente a US$ 5,42 por mês;.
– a falta crônica de combustível já era um enorme problema, pois Cuba precisa de 100 mil barris de petróleo por dia para funcionar e só produz 50 mil. Com a ocupação militar da Venezuela por Trump, tal carência se tornou dramática, pois nenhuma gota mais de petróleo venezuelano foi exportada para Cuba;
– segundo o relatório En Cuba Hay Hambre, 96,91% dos cubanos relatam ter perdido acesso a alimentos devido à inflação e à queda no poder de compra. Um em cada quatro vai dormir sem jantar. 
– dos itens alimentícios que eram subsidiados pelo governo, carne, óleo e café deixaram de sê-lo e os restantes são entregues com semanas de atraso;
– o Estado hoje cobre algo entre 20% a 30% das necessidades calóricas de uma família, tendo de adquirir o restante a preços de mercado;
– o ministro da Saúde admitiu que só 30% dos medicamentos essenciais estão disponíveis. Na verdade, dos 651 medicamentos do quadro básico cubano, só 292 estão disponíveis na rede de farmácias;
Parece o Brasil, mas é Cuba...
– o número de médicos trabalhando efetivamente dentro de Cuba cai a cada ano. 
– a população vem desabando. Cuba tinha 11,18 milhões de habitantes em 2020. Oficialmente, em 2024, esse número passou para 9,75 milhões;;
– só entre 2021 e 2024, mais de 860 mil cubanos chegaram aos Estados Unidos.
– Cuba produz hoje menos açúcar do que em 1899. Chegou a ser o maior exportador mundial de açúcar, mas hoje importa açúcar do Brasil.

Como a coisa chegou até esse ponto? Para entender isto, temos de recordar o que foi o socialismo real  nela praticado, principalmente, a partir da vitória do tirano obtuso Joseph Stalin sobre o grande revolucionário que foi Leon Trotsky.

No início do século passado, os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotsky via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). 

De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. 

Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
Trotsky comandou a tomada de poder e depois, com seu exército
vermelho, evitou que a revolução sucumbisse nos campos de batalha
 

Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas.

Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas.

E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando mais de um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?

Por último, mais de uma década de antecedência já se previa o colapso do regime soviético. Mas, depois da primavera de 1968, o país regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.

O jornalista Paulo Francis foi um dos pouco a antever que o leviatã sucumbiria principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. 

As várias experiências de socialismo num só país tiveram o mesmo destino que Cuba está colhendo agora, porque, como Marx já dizia, só com a integração econômica do máximo de países se aproveitarão so máximo os avanços científicos e tecnológicos alcançados sob o capitalismo, mas que, paradoxalmente, estão sendo desperdiçados e destruídos pelo próprio capitalismo.

É hora de recolocarmos como nossa principal tarefa a efetivação do internacionalismo revolucionário, pois desde 1989 vêm desmoronando todas as nomenklaturas .

Trata-se de regimes dito socialistas mas que têm nos expoentes poderosos do Partido supostamente revolucionário, na administração do Estado, nas forças armadas, etc.,  uma nova elite privilegiada, que só se diferencia da burguesia por não ser o exercício de uma dominação de classe por parte dos detentores do capital, mas sim de uma dominação de casta exercida pelos altos funcionários. (por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 26 de março de 2026

A VITÓRIA DO IRÃ SOBRE OS EUA FOI EMPOLGANTE, MAS NÃO MUDARÁ A FACE DO MUNDO. TEMOS DE FAZER MUITO MAIS.

A hidra de Lerna tinha muitas cabeças, mas o capitalismo
 é bem mais monstruoso. Um Hércules só não dá conta
 

Há companheiros que estão em êxtase com a vitória do Irã sobre os Estados Unidos. Devagar com o andor, que o santo é de barro! 

Para nós da esquerda, é uma enorme roubada apoiar uma nação mais fraca que cometeu um mundaréu de bestialidades para derrotar uma nação mais forte que fez exatamente o mesmo. 

Tal deslumbramento com um país encalhado no feudalismo, uma república teocrática em pleno século 21 (!!!) e repressora ao extremo, é tudo de que não precisamos. Afasta de nós os explorados das nações que têm suas forças produtivas mais desenvolvidas e são, segundo Marx,  aquelas que determinam a direção para a qual a humanidade seguirá. 
Che Guevara: "O conhecimento nos faz responsáveis".

E, claro, nos deixa sem moral para defendermos os direitos humanos sem que nos chamem de charlatões. 

Temos de descobrir maneiras para prevalecermos nos países desenvolvidos, não dando a tarefa por impossível nem  nos contentando com uma ou outra vitória em países periféricos.

Essas moedas que caem em pé não mudam nada em escala global.

Che Guevara estava certo: ou a revolução se expandiria para outros países, ou Cuba seria estrangulada pelos mais poderosos. Está sendo agora.

Desde a mitologia grega se sabe que a hidra de Lerna só morre se cortarmos todas as suas cabeças. E, ao contrário de Hércules, estamos pressionados pelo tempo. Ou mudamos a face do mundo ou seremos dele deletados ainda neste século. (por Celso lungaretti)

quarta-feira, 25 de março de 2026

COSTA RICA SE ARRASTA AOS PÉS DE TRUMP

gilberto lopes
ExTRADIÇÃO DE NACIONAIS
A imagem dos cidadãos entregues à polícia estadunidense em solo nacional simboliza a abdicação do Estado à sua função soberana de aplicar justiça, num gesto humilhante que nenhuma potência hegemônica admite para si.

Na sexta-feira (20), foram extraditados para os Estados Unidos os dois primeiros costarriquenhos, Celso Gamboa e Edwin López, acusados de narcotráfico, na sequência da reforma constitucional que revogou a disposição que impedia tal procedimento, em vigor até o ano passado.

A Costa Rica deixou de ser um paraíso para o crime organizado, afirmou um jornal, citando políticos nacionais. Na manhã daquele dia, na imprensa, podia-se ver a foto dos dois nas mãos dos agentes da DEA estadunidense, com seus uniformes laranja, prontos para embarcar no avião que os levaria para o Texas.

A foto dizia muitas coisas. Era, para mim, a foto do Estado costarriquenho abdicando de uma de suas funções básicas: a de aplicar justiça. 

Fazia-o de uma maneira humilhante, entregando dois cidadãos a uma potência estrangeira. Uma potência que não entrega seus cidadãos a qualquer Estado estrangeiro.
Também não entrega criminosos estrangeiros que encontraram asilo em seu território, a tribunais nacionais que os exigem. Existem muitos, responsáveis por graves crimes. 

Gostaria de destacar duas coisas que este caso evidencia: uma é o circo para as massas, o tipo de cobertura jornalística, a exploração da tragédia humana.

A outra é que, longe de servir à aplicação da justiça, o pedido de extradição será uma poderosa ferramenta política utilizada de acordo com os interesses de Washington. Ou alguém pensa que isso funciona, por lá, de forma alheia aos interesses políticos?

A extradição de nacionais tem pouco ou nenhum impacto na luta contra o narcotráfico. É preciso refletir um pouco. Não é fácil, quando os fogos de artifício explodem, quando tudo é circo e festa.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a extradição de nacionais tem pouco – ou nenhum – impacto na luta contra o narcotráfico. Veja-se a situação do México ou da Colômbia. 

Ou, de certa forma, a própria situação dos EUA, principal mercado das drogas, ou da lavagem de dinheiro, onde o crime organizado sempre atuou com certa comodidade. Ou não?
"Os entreguistas gostariam mesmo é que a Costa Rica 
se tornasse outra estrela na bandeira dos EUA"

O desenvolvimento e a implantação do crime organizado em nossos países – incluindo os Estados Unidos – têm muitas razões, como um modelo de desenvolvimento cada vez mais excludente na Costa Rica. 

Tal modelo está baseado na implantação de zonas francas, cujas consequências para o crescente desemprego, sobretudo entre os jovens, e o déficit fiscal são bem conhecidas, estimulado pela privatização dos serviços públicos. 

Trata–se de um modelo que o país vem promovendo há mais de 40 anos, incluindo o governo atual.

Não surpreende, de qualquer forma, a posição do governo e do Ministério das Relações Exteriores. Não deram mostras de qualquer independência em seus quatro anos, que terminam agora em primeiro de maio, nem contribuíram em nada para a necessária reflexão sobre o lugar da América Latina na reconfiguração da ordem internacional que está atualmente em desenvolvimento.

Não consigo dissociar a imagem de dois cidadãos costarriquenhos entregues a funcionários da DEA em território nacional, com a desordem política no país, com a vergonhosa unanimidade com que a medida foi aprovada na Assembleia Legislativa, com a necessidade de reivindicar as funções de um Estado Nacional que promova a indispensável solidariedade social, que assuma suas funções não delegáveis, como a de julgar seus cidadãos que devam ser julgados. 

Será exatamente o contrário. Creio que muitos daqueles que ordenaram a entrega de cidadãos nacionais à justiça estadunidense, aqueles que sonham em dolarizar a economia, não conseguem imaginar destino mais feliz do que transformarmo-nos noutra estrela da bandeira dos Estados Unidos. (por Gilberto Lopes,  jornalista e doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica)
Clique aqui e conheça o hino oficial 
das Repúblicas das Bananas americanas

segunda-feira, 23 de março de 2026

A MÚSICA DO DIA, DEDICADA A DONALD TRUMP, SÓ PODERIA SER "PALHAÇO"

Um dos principais cantores brasileiros do século passado, o rei da voz Francisco Alves obteve grande sucesso com Palhaço, marcha carnavalesca de 1947, composta a seis mãos por Benedito Lacerda, David Nasser e Herivelto Martins.

A quem ela poderia ser dedicada hoje em dia? Não há dúvida nenhuma: a Donald Trump, um inequívoco histrião hors concours,

Ele pensou que fosse um grande conquistador (mas não passa de um pequeno parlapatão). Então, como se ainda estivesse em 1930/40, agiu contra países mais fracos tal qual Hitler e Mussolini agiriam.

A consequência foi ele ter entrado como um leão numa guerra que deveria ser apenas Israel x Irã e agora estar saindo com o rabo entre as pernas, como um cão enxotado a pontapés, tendo de propor uma trégua e se de dispor a negociações.

As ilusões de Trump não completaram nem sequer um mês. E todos nós assistimos de camarote ao retumbante fracasso desse palhaço. (CL)

Acesse "Palhaço" no Youtube clicando aqui 

domingo, 22 de março de 2026

ASSIM COMO ARARUTA TEM O SEU DIA DE MINGAU, O LULA ÀS VEZES FALA O QUE O MUNDO PRECISA OUVIR.

É muito raro o Lula vir ao encontro de uma posição que eu já defendia, mas não impossível. 

A última vez foi quando ele declarou que o pandemônio armado pelo Bozo face à covid causara a morte de mais algumas centenas de milhares de brasileiros que, fosse outro o presidente,  teriam sobrevivido. 

Isto eu escrevia desde muito antes, baseado em estudos das mais conceituadas instituições estrangeiras. E a diferença entre nós foi que jamais cessei de martelar tal tecla, enquanto o Lula se deixou intimidar pelas críticas da grande imprensa e arquivou o assunto.

Agora, concordamos em que, se a Organização das Nações Unidas não toma providência nenhuma contra os massacres e a pirataria internacional do Donald Trump, não tem mais razão de existir.

Foi o que eu escrevi há 20 dias: "...talvez vejamos a extinção da ONU, por haver se tornado uma despesa inútil. Existe para evitar genocídios, mas nunca consegue impor o respeito às  práticas civilizadas por parte dos arrogantes estadunidenses e israelitas",

Agora, 
Num momento de incomum franqueza, ele bateu pesado na ONU ao discursar neste sábado (21) no 1º Fórum Celac-África. Torço para que  o Lula não recue desta vez:

"
O que estamos assistindo no mundo da falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas. O Conselho de Segurança da ONU e seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz . (...) Quando é que vamos tomar atitudes para não permitir que países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis?

Estou indignado com a passividade dos membros de segurança que não foram capazes de resolver o problema na Faixa de Gaza, no Iraque, na Líbia, na Ucrânia, no Irã. Ou seja, tudo se resolve por guerra? 

É preciso que a gente levante a cabeça, não é possível alguém achar que é dono dos outros países. O que estão fazendo com Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático? Em que artigo da carta da ONU está dito que o presidente de um país pode invadir o outro? 

Esta é a maior concentração de conflitos desde a 2a Guerra Mundial. As guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irã e em tantos outros conflitos nos afastam do caminho do desenvolvimento e geram efeitos econômicos, sociais e políticos no mundo todo além de aumentarem o preço da energia e dos alimentos".
O BRASIL DEVERIA LIDERAR OS PAÍSES
NÃO-CAPACHOS DE NOSSO CONTINENTE
.
Quando os EUA fizeram gato e sapato da soberania da Venezuela, eu cobrei do Lula uma posição mais incisiva para evitarmos tais barbaridades. Queria que o Brasil liderasse os países não-capachos do nosso continente num firme repúdio  aos desvarios do Trump.

Antes tarde do que nunca, o Lula parece ter compreendido que os Trumps deste mundo não são detidos  por algo menos do que as graves ameaças econômicas que o Irã está criando.
(por Celso Lungaretti
   
"Ana, Ana, a ONU está me dando sono. Acorda, olha
o dono, o dono do sono, o dono do Esporte Clube
das Nações" (veja o vídeo completo clicando aqui)

sábado, 21 de março de 2026

APÓS PEDIR O IMPEACHMENT DO BOZO EM 2021, SAFATLE RECORREU A UM PROGRAMA DE AJUDA A ACADÊMICOS EM PERIGO

Vladimir Safatle foi alvo  dos bolsonaristas
"...Entrei num partido pela primeira e única vez na vida por acreditar que havia chegado o momento de tentar fazer a passagem das dinâmicas de pressão popular à intervenção institucional. 

Eu deveria ter sido o candidato a governador de São Paulo pelo Psol na eleição de 2014, mas na última semana antes da nominação, um conflito estourou no interior do partido e acabei por abandonar o projeto. 

Só fui me candidatar em 2022 a deputado federal, num momento em que acreditava que tudo deveria ser feito para impedir um segundo mandato de Jair Bolsonaro. Acabei me tornando suplente de deputado.

Desde que o Jair Bolsonaro assumiu o poder, juntei-me a quem lutou sem trégua contra seu governo e seu projeto. Montamos grupos de ação a partir da pandemia, organizando manifestações e outras formas de ações públicas. 

Juntos com ex-ministros e intelectuais de todos os espectros políticos, criamos a Comissão Arns de defesa de direitos humanos. 

Levamos Jair Bolsonaro aos tribunais internacionais por genocídio indígena. Com deputados do Psol e contra a cúpula do próprio partido, protocolamos um dos primeiros pedidos de impeachment. 
Foi uma roubada que passou em minha vida

Como um dos resultados, em 2021 acabei por precisar ser acolhido pelo governo francês em um programa de auxílio a acadêmicos em perigo. (trecho da introdução que Vladimir Safatle escreveu para a reedição de seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome
.
Observação: semelhança da passagem do Vladimir Safatle pelo Psol com a minha é tanta que decidi lembrar uma roubada na qual entrei em 2012.

Eu estava em evidência nas redes sociais por haver lançado um livro marcante e pela minha atuação na luta para evitar que o escritor Cesare Battisti fosse entregue à Itália berlusconiana, então um candidato a prefeito me convidou para ingressar no partido e candidatar-me a vereador.

Pensando em como seria bom ter 18 assessores custeados pela Câmara Municipal investigando escândalos de todo tipo para depois eu denunciá-los em plenário e na imprensa, aceitei.  

Mas, com uma ressalva: como eu não fazia trabalho de massa, só poderia ter êxito se o partido alavancasse a minha candidatura, tal qual agia o PCB no passado (os dirigentes escolhiam quem eles consideravam mais útil naquele momento e criavam condições para que fosse ele o eleito).

Desde o primeiro momento o que eu tinha ou julgava ter apalavrado com o candidato não foi cumprido. Houve uma baita demora para liberarem os fundos de campanha e uma demora maior ainda em me enviarem as listagens de eleitores residentes na capital, para enviar-lhes material de campanha.
Burguesa, com certeza, ela
é. Democracia, nem tanto...

Como  as pesquisas  revelassem que o Psol conseguiria eleger um único vereador (o mais votado da legenda), o candidato  da base municipal travava uma briga de foice no escuro com o indicado pelos dirigentes nacionais. 

Cada lado tratava de impulsionar o seu  representante e de dificultar a vida dos concorrentes mais promissores.

Logo que foram anunciado os resultados do pleito, anunciei meu desligamento do partido. Enojado. 
.
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 20 de março de 2026

VINGADORA DO TECLADO PERSEGUE CUCA EM NOME DE UMA CONDENAÇÃO ANULADA E DE UM PROCESSO EXPIRADO

Alicia Klein, colunista do UOL, esbravejou que ninguém aguenta mais falar do Cuca, o novo técnico do santos. Só que é ela mesma quem insiste em abusar da nossa paciência.

Mas, em algo a Alícia tem razão: por que falarmos da condenação do Cuca a 15 meses de prisão num processo de 1989, totalmente superado? Isto me parece mais uma  caça às bruxas.

Está na hora de os patrulheiros cricris respeitarem dispositivos legais como o da prescrição das penas após haver transcorrido um determinado período. Afinal, quase sempre o descumprimento da lei ocorre em prejuízo dos idealistas que tentam transformar o mundo. 

A Justiça burguesa defende, acima de tudo, os interesses dos capitalistas. Faz sentido facilitar-lhe as coisas, detonando um  dispositivo valiosíssimo para quem trava batalhas na defesa dos direitos humanos?
Quando eu participava da luta contra a extradição do escritor Cesare Battisti em 2008/2011, aquele caso simples se transformou num bicho de sete cabeças a partir do momento em que a Itália neofascista escamoteou o fato de que tal condenação havia prescrito. 

Mas, claro, a colunista identitária age movida por rancor e não leva em consideração que cada julgamento pode se tornar parâmetro para outros casos.

Depois de a campanha orquestrada por comentaristas esportivos do UOL haver resultado na desistência do Cuca em treinar o Corinthians, os advogados dele solicitaram um novo julgamento  e a Justiça suíça decidiu anular sua condenação de 1989 por erros processuais e rejeitar a reabertura do caso porque ele estava prescrito desde 2004.

Ademais, a suposta vítima já tinha falecido e o parente que poderia pleitear a continuidade do processo havia aberto mão de tal opção.

Ninguém aguenta mais que revanchistas do teclado tentem privar um sexagenário do seu direito ao trabalho, em função de um episódio controverso  ocorrido 38 anos atrás. (por Celso Lungaretti)

MASSACRE DE ÁRVORES E EXTERMÍNIO DE GENTE: ESTÁ CHEGANDO O ARMAGEDDON?

Numa nova visita a São Paulo para matar saudades, não pude deixar de dar meu passeio verde pela Cidade Matarazzo, uma área arborizada junto da avenida Paulista. 

Nela podemos ter a sensação de estarmos numa floresta. Ou refletir que sentir o verde ou viver no verde é luxo e privilégio de uma elite. Mas é preciso reconhecermos: uma elite ambientalista.

Diante de tamanho respeito pela natureza, com árvores das diversas regiões brasileiras, é quase impossível não lembrarmos e deixarmos de fazer um paralelo um paralelo com outro tipo de empreendimento imobiliário. 

Onde? No Alto da Lapa, onde a construtora Tegra fez justamente o contrário: destruiu o Bosque dos Salesianos com autorização do prefeito Ricardo Nunes. O mesmo Nunes já havia autorizado o corte de 384 árvores no Butantã.

De um lado, um empreendimento investe no respeito da natureza, vai buscar longe vegetação e árvores para valorizar uma região. Do outro, não existe nenhuma avaliação da riqueza natural representada pelas árvores centenárias, nem respeito pelo clamor da população das vizinhanças do Bosque dos Salesianos.

Deixando a Cidade Matarazzo e sua floresta agora desprotegida, cheguei logo à avenida Paulista, para rever o Masp, com suas exposições atuais e seu acervo.

Tal acervo conheço desde minha época de estudante, quando ia ao antigo museu, ainda na rua 7 de Abril. 
Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, com um cartaz perguntando: Haverá paz no mundo?

Fazem parte das chamadas Testemunhas de Jeová, um ramo derivado dos evangélicos estadunidenses, criado em 1872. Seus missionários chegaram no Brasil em 1920 e hoje são um 1,4 milhão.

A mensagem dos Testemunhas é centrada na chamada Batalha do ArmagedDon, profetizada pelo apóstolo João, quando na ilha de Patmos, no mar Egeu. 

Armagedom seria a última guerra, pois  significaria a intervenção de Deus numa guerra mundial. 

Essa crença é também partilhada pelos cristãos, embora sem a mesma ênfase das Testemunhas. Entretanto, o clima de guerra atual parece estar excitando os próprios evangélicos, esperançosos de ser esta a época do retorno de Cristo.

Essa situação, segundo denúncia do Daily Mail, estaria ocorrendo junto dos soldados e militares estadunidenses que participam da guerra contra o Irã. Como consequência da influência dos evangélicos junto aos trumpistas, comandantes militares associados ao governo de Donald Trump foram acusados de transmitir mensagens religiosas a tropas estadunidenses em meio ao conflito com o Irã, nas quais sustentam que a guerra faria parte de um plano divino ligado ao Armageddon.

Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, com um cartaz perguntando: Haverá paz no mundo?
por Rui Martins

A imprensa francesa também repercute essa utilização das profecias  apocalípticas 
pelos comandantes trumpistas para que os soldados entrem em combate julgando participar de uma guerra divina do Bem contra o Mal. 

Do lado do Irã, os combatentes iranianos acreditam que se tornarão mártires se morrerem na luta contra os EUA e Israel.

terça-feira, 17 de março de 2026

"UMA BATALHA ATRÁS DA OUTRA" ME FEZ LEMBRAR A PROPAGANDA ENGANOSA DAS "VIÚVAS DA DITADURA"

Ao assistir Uma batalha após a outralogo me lembrei da propaganda enganosa das viúvas da ditadura na década retrasada. Eu as combati muito no Orkut.

Sem terem como negar os crimes contra a humanidade cometidos pelo seu lado, os ultradireitistas tentavam igualar os raros excessos em que os guerrilheiros incidiam à adoção generalizada dessas práticas por parte do regime militar. Era como equiparar um a mil. 

Da mesma forma, esse filmeco de ação mostra mostra os combatentes como figuras caricatas, disparando chavões e palavrões a torto e a direito e explodindo instalações que jamais seriam alvos para nós (incluo-me entre os combatentes da luta armada) por não serem identificadas como nefastas pelo povão. 

Para culminar, apresenta  uma guerrilheira  como erotômana,  exigindo que um coronel do exército forçasse uma ereção sob a mira de sua arma).

O que tem isso a ver com os verdadeiros guerrilheiros e as nossas verdadeiras ações armadas? Absolutamente nada.  E o pior é que omite o lado mais execrável da repressão, como se não tivessem havido sevícias e matanças desembestadas. 

Eu, por exemplo, tive meu tímpano estourado quando o cabo da guarda me levava de volta para a solitária, após uma sessão de torturas. Ou seja, apesar de sua posição inferior na hierarquia militar, ele se deu ao luxo de extravasar suas frustrações num preso político. E, que eu saiba, jamais foi punido por isto.
Nossos poucos pentes de metralhadora
não eram utilizados em treinamentos
Houve também um capitão que, numa diligência em área rural, me aconselhou a tentar fugir, pois ninguém estava prestando atenção

Eu, como parte mais fraca, evitava entrar em confronto com os militares, mas daquela vez não aguentei mais e respondi, mostrando meu peito: "Se é para me matar, atira aqui e não pelas costas".

Para piorar, o diretor Paul Thomas Anderson enxertou comicidade bobinha num assunto muito sério. Centenas de companheiros valorosos morreram na resistência ao totalitarismo e ao terrorismo de estado. Outros tantos sofreram o diabo nos porões da ditadura. Merecemos respeito.

O festival de besteiras que assola a tela continuou com a frouxidão da rede de militantes, sem resquício nenhum de nossas normas de segurança bem mais profissionais (tínhamos como paradigmas os tupamaros uruguaios). Organizados daquela maneira não aguentaríamos sequer um mês nos anos de chumbo

Guerrilheiros treinando com metralhadora? Esquece: tiros isolados poderiam estar sendo desferidos por caçadores, mas rajadas inevitavelmente atrairiam a repressão. Ademais, os pentes escasseavam para nós e jamais os desperdiçaríamos dessa maneira.

E, se houvesse tanta gente assim combatendo a ditadura, seria o suficiente para fazermos a revolução no país inteiro. Éramos um punhado de idealistas sendo esmagado pelos muitíssimos militares. 

A inferioridade de forças era tão acentuada que nossas organizações começaram fazendo ações armadas sozinhas e acabaram tendo de juntar duas ou três para as levarem a cabo.

Quanto à cambada de gringos e ricaços que nos combatia, eles eram bem diferentes da fantasia mostrada no filme, um misto tosco de CCCTFP,  Opus Dei linha dura das Forças Armadas. Para começar, não incineravam seus membros.

A igualação dos desiguais é uma tônica no filme

Provavelmente, o delegado Sérgio Fleury foi o único assassinado pelo fogo amigo. Sabia demais e estava descontrolado, daí terem feito dele um raro dono de barco que caiu no mar e morreu afogado. Acredite quem quiser...

Nada além de um road movie metido a besta, Uma batalha após a outra fica quilômetros atrás de Sem Destino, sendo inferior até a Mad Max 2, p. ex. 

Se o Oscar não fosse um festival da indústria cinematográfica e jamais do cinema, eu consideraria descabida a  a premiação  de melhor filme e melhor diretor

Nas principais categorias, o único a merecer a estatueta era o Wagner Moura, como melhor ator. Fez jus a ela por ter conseguido tornar crível um personagem inverossímil.

Já o Sean Penn foi agraciado com a estatueta de ator coadjuvante apesar de haver tido o pior desempenho de sua carreiraMas, já que o Oscar não tem real relevância afora a comercial, tanto faz, como tanto fez. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 16 de março de 2026

A POLARIZAÇÃO ESTÁ INDO PARA O RALO E A DIREITA PODERÁ DOMINAR EXECUTIVO E LEGISLATIVO. VIRARIA ROLO COMPRESSOR.

O
Estadão discorre, em editorial, sobre a sensação de que o ciclo do presidente Lula no poder começa a se esgotar.

Justificativa: Uma série de pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias abalou a autoestima sempre elevada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus sabujos no Palácio do Planalto e no PT (...). Os tropeços lulopetistas estancaram a aprovação de Lula e de seu governo. Em paralelo, Lula e o PT assistem à perigosa consolidação do senador Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
.
Embora seja um óbvio wishful thinking (o Estadão sempre quer derrubar o Lula), cabe aqui aquele lugar comum de que os antigos relógios com ponteiros marcavam a hora corretamente em dois momentos do dia.
Faltou tradição e propriedade
para repetir fielmente o slogan da TFP
  

A série interminável de problemas de saúde do octogenário Lula e do septuagenário Jair Bolsonaro pode levar o eleitorado à conclusão de que ambos não têm mais fôlego para outro mandato. 

A polarização entre os dois está indo para o ralo e é grande a possibilidade de vitória de um político sem tanta rejeição.

Ademais, a falta de programa de governo e até de rumo da atual gestão do Lula deixa mesmo uma péssima impressão

Talvez seja este o motivo de a grande imprensa estar forçando tanto a barra para supervalorizar o pleito. Com a longa exposição do Lula, o eleitorado pode cansar-se dele até outubro e o PT não teria substituto à altura. 

Já se o Flávio saturar os votantes, a direita poderá trocá-lo, sem grande dificuldade, pelo Tarcísio ou a Michelle. 

Mais: sumindo o espantalho ultradireitista (Flávio evita repetir as loucuras genocidas do pai), a necessidade de renovação tende a tornar-se o sentimento dominante daqui a seis meses.

Então, eu recomendo aos dirigentes petistas uma profunda reflexão sobre tudo isso. Afinal, a direita unida e os endinheirados da Faria Lima apoiando Flávio Bolsonaro o fazem, neste instante, o favorito da corrida presidencial. 
 
Insistir com Lula poderá causar uma derrota acachapante e tudo de que não precisamos é de uma direita dominante tanto no Executivo quanto no Legislativo. Viraria rolo compressor.

Está na hora de se avaliarem outras opções. (por Celso Lungaretti)
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