Mais uma vez alguém entrou na minha vida para mostrar-me um caminho, como ocorrera em 1967, quando troquei a literatura europeia existencialista pelos autores brasileiros engajados.
Meu patrão era então o produtor do primeiro programa televisivo de debates que a ditadura permitia desde o AI-5, o Diálogo Nacional.
Num fim de uma tarde, Franklin Machado, jornalista da Tribuna de Santos, chegou bem adiantado para participar do programa e fui incumbido de ficar fazendo sala para ele.
Constatamos que pensávamos igual sobre muitos assuntos, então ele me convidou para falar com o Mozart Menezes, líder do grupo Cacimba, que começara prestando assistência aos nordestinos que chegavam para trabalhar em São Paulo, depois mudou o foco para um ponto de encontro e convivência dos esquerdistas que precisavam manter o ânimo e a serenidade em meio à ditadura militar. Fazia edições alternativas de livros e de jornais, organizava espetáculos de poesia, festas, etc.
Depois o Mozart me contou que os dirigentes do partido a que ele pertencia fizeram pressão para que não comparecesse ao encontro marcado comigo, mas ele respondeu que jamais julgaria uma pessoa na base do disse-me-disse.
Acabamos nos dando bem e entrei para o grupo, participando de reuniões e edições, recitando uma poesia combativa para públicos de 40 pessoas, etc.
Percebi que a convivência com companheiros me fazia muita falta, mas tal espaço começava a ser preenchido.
Num sábado, nossa reunião político-literária foi visitada por um companheiro de Natal, Rubens Lemos, que veio pedir-nos ajuda.
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O jornalista, advogado, secretário da Cultura e cordeleiro Franklin Machado |
Era pai de um dos seis aloprados que resolveram expropriar um banco, embora a ditadura já houvesse terminado (era 1986).
Quatro foram presos e muito hostilizados na prisão, afora existirem boatos de que os explosivos roubados de uma pedreira serviriam para causarem uma rebelião no presídio e, aproveitando a confusão. assassinarem os quatro de Salvador (como eles haviam sido apelidados pela imprensa).
Em desespero de causa eles resolveram fazer uma greve de fome, que começaria dentro de dois dias. Mas, não havia esquema nenhum para fazer tal protesto repercutir na imprensa.
Eu era o único com know-how para desempenhar tal papel, então me voluntariei. E passei dias horríveis batendo em portas fechadas e temendo por danos que viessem a sofrer porque eu não estava sabendo direito como os socorrer.
O problema principal era que eles pertenciam ao PT como fachada e ao PCBR por baixo do pano. Já então se distanciando da esquerda combativa, o PT não só expulsou os quatro como fez tudo que pôde para que a esquerda os ignorasse.
A preocupação petista era de que o partido perdesse meia-dúzia de votos na eleição que se aproximava. Negavam-lhes a solidariedade revolucionária por já então estarem abdicando da prática anticapitalista, embora não tão descaradamente como hoje em dia.
Então, a direita era contra eles e a esquerda os abandonava. Fiz uma infinidade de tentativas até que uma resultou, meio por acaso mas premiando meus esforços.
Mandei um dossiê para o colunista da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro, Newton Rodrigues. Sabia que era de esquerda no tempo do golpe de 1964, quando integrara a corajosa equipe de redatores do Correio da Manhã. Mas ignorava que ele assessorava o ministro da Justiça na remoção do entulho autoritário.
Pouco depois o Newton publicou na sua coluna que recebera de mim uma denúncia fundamentada sobre perseguições sofridas pelos quatro e a levara ao conhecimento do ministro.
No dia seguinte ele escreveu que o ministro pedira ao governador baiano que desse um jeito para a greve de fome terminar sem que ocorresse uma desgraça.
Os quatro receberam garantia de que sua segurança seria preservada e foram autorizados a trabalhar durante o dia e apenas pernoitarem no presídio.
Vitória sofrida, mas gratificante: quando já se havia esgotado a munição que eu tinha para salvar os companheiros, um acaso jogou a vitória no meu colo!
Eu continuava petista, mas numa reunião em que se discutia política para justificar a presença dos filiados que deveriam endossar uma medida administrativa, um dirigente do PT aproveitou o intervalo para conversar com uns cinco vaquinhas de presépio lá presentes.
Recomeçados os trabalhos, os cinco passaram a me atacar de forma raivosa e o tal dirigente afirmou que os quatro de Salvador e eu éramos todos cachorros loucos.
Foi quando desliguei-me do PT, não sem antes lançar um artigo intitulado Os cachorros loucos e os lulus de madame.
* * *
Lá por 1975 recebi uma oferta do jornalista Luiz Aparecido da Silva, do PCdoB, que mantinha relações cordiais com o Mozart da Cacimba. Ele se propôs a reunir a imprensa para ouvir uma denúncia minha sobre as torturas que sofrera e queacabaram desembocando no estouro do meu tímpano direito e no meu arrependimento forçado.
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| Melhor livro sobre o cerco a Registro |
Aceitei em princípio, mas avisei que detalharia as torturas desde que me fosse possível contar também como a VPR me fizera de bode expiatório de uma culpa que não era minha. Como prêmio seria recebido no PCdoB para reatar minha militância começando por baixo (aliado ou simpatizante, não me recordo mais). Tive vontade de aceitar, tamanha era minha vontade de pertencer de novo a um círculo da esquerda militante.
Mas percebi que o pomo da discórdia era o de que, se relatasse fielmente como havia sido injustiçado pela VPR, o PCdoB temia que estaria comprometendo a imagem de mártires da luta contra a ditadura.
Por minha vez, aceitando tal proposta eu passaria recibo de que as acusações que me faziam eram verdadeiras. Queria, sim, voltar, mas respeitado, não como um coitadinho. Não houve acordo.
Mas em 1979, quando voltei a estudar para completar o curso de jornalismo que me livraria de perseguições do sindicato da categoria por estar exercendo a profissão sem diploma de nível universitário, não passou nem um mês e eu era convidado a participar de uma reportagem da IstoÉ sobre os arrependimentos de esquerdistas. Eu concordei e fui o mais incisivo na crítica às práticas do terrorismo de estado.
Em seguida o jornal gaúcho Zero Hora fez uma série de reportagens sobre o mesmo assunto e novamente botei a boca no trombone. Aos leitores que estejam estranhando meu desmentido da ditadura em plena ditadura, lembro que em março de 1974 o carniceiro Emílio Médici deixara de presidir o Brasil, substituído pelo pacificador Ernesto Geisel. Eu continuava correndo algum perigo, mas bem menos do que no governo anterior.
Já a participação na reportagem da IstoÉ tinha mesmo sido temerária, mas eu nunca perderia a oportunidade de divulgar as circunstâncias do meu arrependimento forçado,- uma pedra dolorosa no meu sapato.
Em 1994, contudo, algo que escrevi caiu mal para os petistas. Coincidência ou não, logo depois a Folha de S. Paulo publicou na Ilustrada uma reportagem do Marcelo Paiva que não tinha nada a ver comigo e nela ele encaixou, forçando a barra, um trecho me acusando gratuitamente de delator da área de treinamento da VPR.
Travamos uma polêmica com três intervenções cada e eu deixei para a última delas a informação de que as áreas de treinamento guerrilheiro eram duas, a que abandonamos e a que foi invadida pela repressão. Como ninguém jamais havia falado nisso, coloquei uma dúvida na cabeça de muita gente da esquerda.
O Paiva inclusive deixou de me atacar no terceiro texto, no qual se esforçou para apagar a imagem de inquisidor em que eu o deixara, afirmando que era um bom moço, que gostava de samba, carnaval, mulheres e futebol... Foi o momento em que comecei a obter mais manifestações de apoio de esquerdistas.
Tudo que eu semeara floresceu quando encontrei e divulguei um relatório de operações do II Exército, no qual constava que a localização da área ativa tinha sido revelada por alguém preso no dia 18 de abril, indiretamente me inocentando, já que eu caíra no dia 16. Mas como fazer isso repercutir amplamente nos círculos de esquerda?
Tive a ideia de levar o tal relatório ao Jacob Gorender, o principal historiador da luta armada brasileira. Meio desconfiado, ele disse que tinha mais material sobre o assunto, iria consultá-lo e me daria retorno.
Bem mais cordial, dias depois ele me telefonou para informar que eu tinha razão e que comunicaria isto à Folha de S. Paulo e a O Estado de S. Paulo.
A Folha publicou na íntegra uma carta do Gorender em meu favor; fui o único combatente da luta armada que conseguiu provar que havia sido acusado injustamente. Fim do pesadelo que durante 34 anos prejudicou minha imagem de revolucionário.
Mas, ainda havia lutas a ser travadas e, mesmo com a idade de 57 anos, sobrava-me disposição para travá-las. (por Celso Lungaretti)