terça-feira, 31 de março de 2026

LEMBRANDO O GOLPE DO DIA DA MENTIRA DE 1964: GOULART FOI DERRUBADO PELO PETELOCO DE UM 'MAD DOG' FARDADO

N
ão há muito o que se dizer sobre a nefasta e nefanda quartelada de 1964,  que amanhã (1º de abril) estará soprando 62 velinhas ensanguentadas, num Brasil que em passado recente andou flertando de novo com o abismo, mas tomou a saudável decisão de nele não atirar-se. 

Enfim, como a História ultimamente se tornou um campo de batalha entre os que pesquisam e analisam os acontecimentos para conseguir interpretá-los e os que distorcem os acontecimentos para encaixá-los dentro de suas convicções prévias de um primarismo atroz, tentemos alinhavar o que realmente importa. 

Começando pela obviedade de que a conspiração direitista vinha de longe e quase emplacara quando da destrambelhada renúncia de Jânio Quadros.  O dispositivo golpista, contudo, ainda não estava pronto e a tentativa de aproveitamento de uma oportunidade de ocasião se revelou precipitada. 

As principais mudanças ocorridas entre aquele agosto de 1961 e o dia da grande mentira em 1964 foram:
Mourão Filho atravessou o samba 
e os golpistas o escantearam
— após a firmeza do governador gaúcho Leonel Brizola e dos cabos e sargentos das Forças Armadas ter frustrado os golpistas e garantido sua posse, o bobalhão João Goulart tudo fez para apaziguar os inimigos.

Chegou ao cúmulo de permitir que os oficiais reacionários desencadeassem um amplo expurgo na caserna, transferindo os líderes dos subalternos para bem longe das respectivas bases. 

As associações dos legalistas ainda continuaram estridentes, como convinha aos planos dos reaças de usá-los como espantalhos, mas eles passaram a ser caciques com poucos índios e poder de fogo quase nenhum;

— a participação civil no golpe, inexistente em 1961, foi buscada mediante propaganda enganosa maciça e parcerias com  a direita católica, não porque tivesse verdadeira importância no script conspiratório, mas como azeitona na empada, a fim de tornar a virada de mesa mais palatável no Brasil e, principalmente, no exterior;

— o Governo João Goulart vagava à deriva, ora inclinando-se à esquerda, ora contemporizando com a direita, o que fez os dois campos o encararem com suspeitas e não priorizarem a defesa do mandato legítimo;

quando o atentado de Dallas atirou a presidência dos EUA no colo do caipirão Lyndon Johnson, os pratos feitos da CIA voltaram a ser engolidos na Casa Branca (dificilmente John Kennedy deixaria suas digitais impressas numa ruptura constitucional no Brasil, assim como evitou oficializar o envolvimento estadunidense na invasão da Baia dos Porcos, negando apoio aéreo aos mercenários recrutados pelos gusanos de Miami para a derrubada de Fidel Castro); e

Eu vou, eu vou, derrubar o governo agora
eu vou, pararatimbum, pararatimbum...
 
Mesmo com todos os ases e curingas nas mãos, os líderes golpistas hesitavam. Aí, o impasse foi quebrado por um ferrabrás que tinha papel secundário na conspiração: o general Olímpio Mourão Filho. 

Tratava-se de um fascistão com carteirinha assinada. Fora um dos líderes da Ação Integralista Brasileira e autor em 1937 do famoso Plano Cohen, falso rol de intenções da Internacional Comunista que os galinhas verdes colocaram em circulação para assustar milicos. 

Sedento de glória, em 1964 ele botou o bloco na rua, precipitando os acontecimentos: sem aval do Estado Maior golpista, marchou com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro.  Foi duramente criticado pelo governador Magalhães Pinto (MG), para quem tal bravata poderia ter causado um banho de sangue.

Mas, a ameaça comunista na verdade inexistia, daí a marcha pela então BR-3 (hoje rodovia BR-040) acabar sendo um passeio (vide foto acima). Dois ou três caças da FAB teriam sido suficientes para a abortarem, pois os inexperientes recrutas, que mais pareciam patos de estandes de tiro, debandariam em pânico logo à primeira rajada de metralhadora disparada sobre suas cabeças à guisa de advertência. 

Já o poderoso Partido Comunista Brasileiro se embananava todo ao acreditar que os bons militares defenderiam Goulart.
Como consequência, o partidão semeava a confusão entre a esquerda (esta ficou sabendo tarde demais que não contaria com apoio fardado nenhum contra o golpe, só dependendo da resistência que ela própria conseguisse antepor).

A traquinagem do histérico Mourão Filho não o beneficiou: o poder acabou ficando com os conspiradores históricos, articulados em torno de Castello Branco. Eles é que estavam preparados para governar.

Pode-se dizer que João Goulart foi derrubado pelo peteleco de um mad dog fardado. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 30 de março de 2026

O MEU CAMINHO PELO MUNDO EU MESMO TRAÇO, MARX E PROUDHON JÁ ME DERAM RÉGUA E COMPASSO...

Muitos companheiros me criticam por desafinar o coro dos contentes (vide aqui), não participando de correntes de solidariedade a nomenklaturas corruptas e tirânicas como a de Cuba. 

Faço-o, primeiramente, por eles acreditarem estar lutando quando apenas martelam os teclados. Na verdade, só fariam a diferença hoje em dia se fossem combatentes solidários, como aqueles bravos estrangeiros que se voluntariaram para ajudar as tropas republicanas na guerra civil espanhola.

Depois, por tais luminares dos teclados me lembrarem demasiadamente os sociais patriotas que se avacalharam na  guerra mundial. Também eles eram numericamente muito superiores aos verdadeiros revolucionários e isto não impediu que acabassem na lata de lixo da História.
Marx, o teórico mais influente dos últimos séculos

Aliás, tal história merece ser contada ou lembrada.
 É o que faremos.

No princípio, Marx e Engels anunciavam uma maré revolucionária que uniria e imantaria os proletários de todos os países, varrendo o planeta. É o que lemos no mais inspirado panfleto político que a humanidade já produziu, o Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Os trabalhadores do mundo inteiro estavam irmanados pela sina de terem uma substancial parcela da riqueza que geravam (a mais-valia) expropriada pelo patronato. Ademais, a exploração capitalista havia subjugado países e culturas, submetendo proletários de todos os quadrantes a uma mesma lógica de dominação. 

Os papas do marxismo profetizaram, então, que o socialismo seria igualmente implantado em escala global, começando pelas nações de economias mais avançadas e estendendo-se às demais.

O movimento revolucionário foi, pouco a pouco, conquistado pela premissa teórica do internacionalismo, ainda mais depois de a heroica Comuna de Paris ser esmagada em 1871 pela ação conjunta de tropas reacionárias francesas com o invasor alemão. 
Uma rara imagem nítida da 3ª Internacional

Se as nações capitalistas conjugavam suas forças para sufocar qualquer governo operário que fosse instalado, então os movimentos revolucionários precisariam também transpor fronteiras, para terem alguma chance de êxito – foi a conclusão que se impôs.

A Internacional Socialista, que havia sido fundada en 1864, soçobrou principalmente devido ao impacto da derrota da Comuna de Paris sobre o conjunto do movimento operário europeu, mas a semente plantada frutificou na poderosa 2ª Internacional, que aglutinou em 1889 os grandes partidos socialistas consolidados nesse ínterim.

A bonança, entretanto, não fez bem a esses partidos. Muitos dirigentes, deslumbrando-se com os aparelhos conquistados, passaram a querer mantê-los a qualquer preço, lutando por melhoras para a classe operária do seu próprio país, em detrimento da solidariedade internacional. 

Teorizaram que o socialismo poderia surgir a partir das reformas realizadas pacificamente e do crescimento numérico da classe média, sem necessidade de uma revolução. A deflagração da 1ª Guerra Mundial cindiu definitivamente o movimento revolucionário
Proudhon nos ensinou que 
a propriedade é um roubo

Os reformistas acabaram alinhados com os governos de seus respectivos países no esforço guerreiro, enquanto os marxistas conclamaram os proletários a não dispararem contra seus irmãos de outras nações. 

Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo encabeçaram a reação contra os (por eles designados pejorativamente como) sociais patriotas e os trâmites para a fundação da 3ª Internacional, contraponto àquela que perdera sua razão de ser.

As nomenklaturas são igualmente perniciosas, pois, passado o momento heroico da revolução, se tornam regines desvirtuados pelo favorecimento escandaloso aos altos funcionários. A dominação de classe capitalista dá lugar à dominação de casta do chamado socialismo real

Fico com Lênin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, até porque é neles que me inspiro desde 1967
(por Celso Lungaretti)

domingo, 29 de março de 2026

POR QUE OS SINOS DOBRAM PARA CUBA?

Cuba ora entra em decomposição – sentencia o jornalista Rodrigo da Silva, o criador do canal Sputniks do Youtube.

Infelizmente, desta vez não se trata da habitual propaganda anticomunista que infesta os jornalões. Eis alguns dados:
– Cuba enfrenta um terrível colapso no setor elétrico, com apagões durando até mais de 10 horas em Havana. Quando o sol vai embora, o país desliga junto. As usinas termelétricas, construídas entre 1960 e 1970, caducaram. A capacidade de geração do país cai cada vez mais;
– o salário médio mensal em Cuba equivale, no mercado negro, a US$ 16,30  por mês. O salário mínimo caiu para o equivalente a US$ 5,42 por mês;.
– a falta crônica de combustível já era um enorme problema, pois Cuba precisa de 100 mil barris de petróleo por dia para funcionar e só produz 50 mil. Com a ocupação militar da Venezuela por Trump, tal carência se tornou dramática, pois nenhuma gota mais de petróleo venezuelano foi exportada para Cuba;
– segundo o relatório En Cuba Hay Hambre, 96,91% dos cubanos relatam ter perdido acesso a alimentos devido à inflação e à queda no poder de compra. Um em cada quatro vai dormir sem jantar. 
– dos itens alimentícios que eram subsidiados pelo governo, carne, óleo e café deixaram de sê-lo e os restantes são entregues com semanas de atraso;
– o Estado hoje cobre algo entre 20% a 30% das necessidades calóricas de uma família, tendo de adquirir o restante a preços de mercado;
– o ministro da Saúde admitiu que só 30% dos medicamentos essenciais estão disponíveis. Na verdade, dos 651 medicamentos do quadro básico cubano, só 292 estão disponíveis na rede de farmácias;
Parece o Brasil, mas é Cuba...
– o número de médicos trabalhando efetivamente dentro de Cuba cai a cada ano. 
– a população vem desabando. Cuba tinha 11,18 milhões de habitantes em 2020. Oficialmente, em 2024, esse número passou para 9,75 milhões;;
– só entre 2021 e 2024, mais de 860 mil cubanos chegaram aos Estados Unidos.
– Cuba produz hoje menos açúcar do que em 1899. Chegou a ser o maior exportador mundial de açúcar, mas hoje importa açúcar do Brasil.

Como a coisa chegou até esse ponto? Para entender isto, temos de recordar o que foi o socialismo real  nela praticado, principalmente, a partir da vitória do tirano obtuso Joseph Stalin sobre o grande revolucionário que foi Leon Trotsky.

No início do século passado, os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotsky via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). 

De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. 

Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
Trotsky comandou a tomada de poder e depois, com seu exército
vermelho, evitou que a revolução sucumbisse nos campos de batalha
 

Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas.

Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas.

E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando mais de um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?

Por último, mais de uma década de antecedência já se previa o colapso do regime soviético. Mas, depois da primavera de 1968, o país regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.
Até o Pasquim ele era homem
de esquerda, aí perdeu o rumo
O jornalista Paulo Francis foi um dos pouco a antever que o leviatã sucumbiria, principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. 

As várias experiências de socialismo num só país tiveram o mesmo destino que Cuba está colhendo agora, porque, como Marx já dizia, só com a integração econômica dos principais países se aproveitarão ao máximo os avanços científicos e tecnológicos alcançados sob o capitalismo, mas que, paradoxalmente, estão sendo desperdiçados e destruídos pelo próprio capitalismo.

É hora de recolocarmos como nossa principal tarefa a efetivação do internacionalismo revolucionário, pois desde 1989 vêm desmoronando todas as nomenklaturas .

Trata-se de regimes dito socialistas mas cujos expoentes compõem, como membros poderosos do Partido supostamente revolucionário, como administradores do Estado, como oficiais superiores das forças armadas, etc.,  uma nova elite privilegiada, que só se diferencia da anterior por não exercer uma dominação de classe, mas sim de casta.

Um jornalista perguntou a Trotsky, já no exílio, o que ele faria se ficasse confirmado que a luta de sua vida inteira acabara servindo apenas para empoderar uma nova elite. Ele não titubeou: Começarei a organizar a luta dos explorados contra ela(por Celso Lungaretti) 

quinta-feira, 26 de março de 2026

A VITÓRIA DO IRÃ SOBRE OS EUA FOI EMPOLGANTE, MAS NÃO MUDARÁ A FACE DO MUNDO. TEMOS DE FAZER MUITO MAIS.

A hidra de Lerna tinha muitas cabeças, mas o capitalismo
 é bem mais monstruoso. Um Hércules só não dá conta
 

Há companheiros que estão em êxtase com a vitória do Irã sobre os Estados Unidos. Devagar com o andor, que o santo é de barro! 

Para nós da esquerda, é uma enorme roubada apoiar uma nação mais fraca que cometeu um mundaréu de bestialidades para derrotar uma nação mais forte que fez exatamente o mesmo. 

Tal deslumbramento com um país encalhado no feudalismo, uma república teocrática em pleno século 21 (!!!) e repressora ao extremo, é tudo de que não precisamos. Afasta de nós os explorados das nações que têm suas forças produtivas mais desenvolvidas e são, segundo Marx,  aquelas que determinam a direção para a qual a humanidade seguirá. 
Che Guevara: "O conhecimento nos faz responsáveis".

E, claro, nos deixa sem moral para defendermos os direitos humanos sem que nos chamem de charlatões. 

Temos de descobrir maneiras para prevalecermos nos países desenvolvidos, não dando a tarefa por impossível nem  nos contentando com uma ou outra vitória em países periféricos.

Essas moedas que caem em pé não mudam nada em escala global.

Che Guevara estava certo: ou a revolução se expandiria para outros países, ou Cuba seria estrangulada pelos mais poderosos. Está sendo agora.

Desde a mitologia grega se sabe que a hidra de Lerna só morre se cortarmos todas as suas cabeças. E, ao contrário de Hércules, estamos pressionados pelo tempo. Ou mudamos a face do mundo ou seremos dele deletados ainda neste século. (por Celso lungaretti)

quarta-feira, 25 de março de 2026

COSTA RICA SE ARRASTA AOS PÉS DE TRUMP

gilberto lopes
ExTRADIÇÃO DE NACIONAIS
A imagem dos cidadãos entregues à polícia estadunidense em solo nacional simboliza a abdicação do Estado à sua função soberana de aplicar justiça, num gesto humilhante que nenhuma potência hegemônica admite para si.

Na sexta-feira (20), foram extraditados para os Estados Unidos os dois primeiros costarriquenhos, Celso Gamboa e Edwin López, acusados de narcotráfico, na sequência da reforma constitucional que revogou a disposição que impedia tal procedimento, em vigor até o ano passado.

A Costa Rica deixou de ser um paraíso para o crime organizado, afirmou um jornal, citando políticos nacionais. Na manhã daquele dia, na imprensa, podia-se ver a foto dos dois nas mãos dos agentes da DEA estadunidense, com seus uniformes laranja, prontos para embarcar no avião que os levaria para o Texas.

A foto dizia muitas coisas. Era, para mim, a foto do Estado costarriquenho abdicando de uma de suas funções básicas: a de aplicar justiça. 

Fazia-o de uma maneira humilhante, entregando dois cidadãos a uma potência estrangeira. Uma potência que não entrega seus cidadãos a qualquer Estado estrangeiro.
Também não entrega criminosos estrangeiros que encontraram asilo em seu território, a tribunais nacionais que os exigem. Existem muitos, responsáveis por graves crimes. 

Gostaria de destacar duas coisas que este caso evidencia: uma é o circo para as massas, o tipo de cobertura jornalística, a exploração da tragédia humana.

A outra é que, longe de servir à aplicação da justiça, o pedido de extradição será uma poderosa ferramenta política utilizada de acordo com os interesses de Washington. Ou alguém pensa que isso funciona, por lá, de forma alheia aos interesses políticos?

A extradição de nacionais tem pouco ou nenhum impacto na luta contra o narcotráfico. É preciso refletir um pouco. Não é fácil, quando os fogos de artifício explodem, quando tudo é circo e festa.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a extradição de nacionais tem pouco – ou nenhum – impacto na luta contra o narcotráfico. Veja-se a situação do México ou da Colômbia. 

Ou, de certa forma, a própria situação dos EUA, principal mercado das drogas, ou da lavagem de dinheiro, onde o crime organizado sempre atuou com certa comodidade. Ou não?
"Os entreguistas gostariam mesmo é que a Costa Rica 
se tornasse outra estrela na bandeira dos EUA"

O desenvolvimento e a implantação do crime organizado em nossos países – incluindo os Estados Unidos – têm muitas razões, como um modelo de desenvolvimento cada vez mais excludente na Costa Rica. 

Tal modelo está baseado na implantação de zonas francas, cujas consequências para o crescente desemprego, sobretudo entre os jovens, e o déficit fiscal são bem conhecidas, estimulado pela privatização dos serviços públicos. 

Trata–se de um modelo que o país vem promovendo há mais de 40 anos, incluindo o governo atual.

Não surpreende, de qualquer forma, a posição do governo e do Ministério das Relações Exteriores. Não deram mostras de qualquer independência em seus quatro anos, que terminam agora em primeiro de maio, nem contribuíram em nada para a necessária reflexão sobre o lugar da América Latina na reconfiguração da ordem internacional que está atualmente em desenvolvimento.

Não consigo dissociar a imagem de dois cidadãos costarriquenhos entregues a funcionários da DEA em território nacional, com a desordem política no país, com a vergonhosa unanimidade com que a medida foi aprovada na Assembleia Legislativa, com a necessidade de reivindicar as funções de um Estado Nacional que promova a indispensável solidariedade social, que assuma suas funções não delegáveis, como a de julgar seus cidadãos que devam ser julgados. 

Será exatamente o contrário. Creio que muitos daqueles que ordenaram a entrega de cidadãos nacionais à justiça estadunidense, aqueles que sonham em dolarizar a economia, não conseguem imaginar destino mais feliz do que transformarmo-nos noutra estrela da bandeira dos Estados Unidos. (por Gilberto Lopes,  jornalista e doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica)
Clique aqui e conheça o hino oficial 
das Repúblicas das Bananas americanas

segunda-feira, 23 de março de 2026

A MÚSICA DO DIA, DEDICADA A DONALD TRUMP, SÓ PODERIA SER "PALHAÇO"

Um dos principais cantores brasileiros do século passado, o rei da voz Francisco Alves obteve grande sucesso com Palhaço, marcha carnavalesca de 1947, composta a seis mãos por Benedito Lacerda, David Nasser e Herivelto Martins.

A quem ela poderia ser dedicada hoje em dia? Não há dúvida nenhuma: a Donald Trump, um inequívoco histrião hors concours,

Ele pensou que fosse um grande conquistador (mas não passa de um pequeno parlapatão). Então, como se ainda estivesse em 1930/40, agiu contra países mais fracos tal qual Hitler e Mussolini agiriam.

A consequência foi ele ter entrado como um leão numa guerra que deveria ser apenas Israel x Irã e agora estar saindo com o rabo entre as pernas, como um cão enxotado a pontapés, tendo de propor uma trégua e se de dispor a negociações.

As ilusões de Trump não completaram nem sequer um mês. E todos nós assistimos de camarote ao retumbante fracasso desse palhaço. (CL)

Acesse "Palhaço" no Youtube clicando aqui 

domingo, 22 de março de 2026

ASSIM COMO ARARUTA TEM O SEU DIA DE MINGAU, O LULA ÀS VEZES FALA O QUE O MUNDO PRECISA OUVIR.

É muito raro o Lula vir ao encontro de uma posição que eu já defendia, mas não impossível. 

A última vez foi quando ele declarou que o pandemônio armado pelo Bozo face à covid causara a morte de mais algumas centenas de milhares de brasileiros que, fosse outro o presidente,  teriam sobrevivido. 

Isto eu escrevia desde muito antes, baseado em estudos das mais conceituadas instituições estrangeiras. E a diferença entre nós foi que jamais cessei de martelar tal tecla, enquanto o Lula se deixou intimidar pelas críticas da grande imprensa e arquivou o assunto.

Agora, concordamos em que, se a Organização das Nações Unidas não toma providência nenhuma contra os massacres e a pirataria internacional do Donald Trump, não tem mais razão de existir.

Foi o que eu escrevi há 20 dias: "...talvez vejamos a extinção da ONU, por haver se tornado uma despesa inútil. Existe para evitar genocídios, mas nunca consegue impor o respeito às  práticas civilizadas por parte dos arrogantes estadunidenses e israelitas",

Agora, 
Num momento de incomum franqueza, ele bateu pesado na ONU ao discursar neste sábado (21) no 1º Fórum Celac-África. Torço para que  o Lula não recue desta vez:

"
O que estamos assistindo no mundo da falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas. O Conselho de Segurança da ONU e seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz . (...) Quando é que vamos tomar atitudes para não permitir que países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis?

Estou indignado com a passividade dos membros de segurança que não foram capazes de resolver o problema na Faixa de Gaza, no Iraque, na Líbia, na Ucrânia, no Irã. Ou seja, tudo se resolve por guerra? 

É preciso que a gente levante a cabeça, não é possível alguém achar que é dono dos outros países. O que estão fazendo com Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático? Em que artigo da carta da ONU está dito que o presidente de um país pode invadir o outro? 

Esta é a maior concentração de conflitos desde a 2a Guerra Mundial. As guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irã e em tantos outros conflitos nos afastam do caminho do desenvolvimento e geram efeitos econômicos, sociais e políticos no mundo todo além de aumentarem o preço da energia e dos alimentos".
O BRASIL DEVERIA LIDERAR OS PAÍSES
NÃO-CAPACHOS DE NOSSO CONTINENTE
.
Quando os EUA fizeram gato e sapato da soberania da Venezuela, eu cobrei do Lula uma posição mais incisiva para evitarmos tais barbaridades. Queria que o Brasil liderasse os países não-capachos do nosso continente num firme repúdio  aos desvarios do Trump.

Antes tarde do que nunca, o Lula parece ter compreendido que os Trumps deste mundo não são detidos  por algo menos do que as graves ameaças econômicas que o Irã está criando.
(por Celso Lungaretti
   
"Ana, Ana, a ONU está me dando sono. Acorda, olha
o dono, o dono do sono, o dono do Esporte Clube
das Nações" (veja o vídeo completo clicando aqui)

sábado, 21 de março de 2026

APÓS PEDIR O IMPEACHMENT DO BOZO EM 2021, SAFATLE RECORREU A UM PROGRAMA DE AJUDA A ACADÊMICOS EM PERIGO

Vladimir Safatle foi alvo  dos bolsonaristas
"...Entrei num partido pela primeira e única vez na vida por acreditar que havia chegado o momento de tentar fazer a passagem das dinâmicas de pressão popular à intervenção institucional. 

Eu deveria ter sido o candidato a governador de São Paulo pelo Psol na eleição de 2014, mas na última semana antes da nominação, um conflito estourou no interior do partido e acabei por abandonar o projeto. 

Só fui me candidatar em 2022 a deputado federal, num momento em que acreditava que tudo deveria ser feito para impedir um segundo mandato de Jair Bolsonaro. Acabei me tornando suplente de deputado.

Desde que o Jair Bolsonaro assumiu o poder, juntei-me a quem lutou sem trégua contra seu governo e seu projeto. Montamos grupos de ação a partir da pandemia, organizando manifestações e outras formas de ações públicas. 

Juntos com ex-ministros e intelectuais de todos os espectros políticos, criamos a Comissão Arns de defesa de direitos humanos. 

Levamos Jair Bolsonaro aos tribunais internacionais por genocídio indígena. Com deputados do Psol e contra a cúpula do próprio partido, protocolamos um dos primeiros pedidos de impeachment. 
Foi uma roubada que passou em minha vida

Como um dos resultados, em 2021 acabei por precisar ser acolhido pelo governo francês em um programa de auxílio a acadêmicos em perigo. (trecho da introdução que Vladimir Safatle escreveu para a reedição de seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome
.
Observação: semelhança da passagem do Vladimir Safatle pelo Psol com a minha é tanta que decidi lembrar uma roubada na qual entrei em 2012.

Eu estava em evidência nas redes sociais por haver lançado um livro marcante e pela minha atuação na luta para evitar que o escritor Cesare Battisti fosse entregue à Itália berlusconiana, então um candidato a prefeito me convidou para ingressar no partido e candidatar-me a vereador.

Pensando em como seria bom ter 18 assessores custeados pela Câmara Municipal investigando escândalos de todo tipo para depois eu denunciá-los em plenário e na imprensa, aceitei.  

Mas, com uma ressalva: como eu não fazia trabalho de massa, só poderia ter êxito se o partido alavancasse a minha candidatura, tal qual agia o PCB no passado (os dirigentes escolhiam quem eles consideravam mais útil naquele momento e criavam condições para que fosse ele o eleito).

Desde o primeiro momento o que eu tinha ou julgava ter apalavrado com o candidato não foi cumprido. Houve uma baita demora para liberarem os fundos de campanha e uma demora maior ainda em me enviarem as listagens de eleitores residentes na capital, para enviar-lhes material de campanha.
Burguesa, com certeza, ela
é. Democracia, nem tanto...

Como  as pesquisas  revelassem que o Psol conseguiria eleger um único vereador (o mais votado da legenda), o candidato  da base municipal travava uma briga de foice no escuro com o indicado pelos dirigentes nacionais. 

Cada lado tratava de impulsionar o seu  representante e de dificultar a vida dos concorrentes mais promissores.

Logo que foram anunciado os resultados do pleito, anunciei meu desligamento do partido. Enojado. 
.
(por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 20 de março de 2026

VINGADORA DO TECLADO PERSEGUE CUCA EM NOME DE UMA CONDENAÇÃO ANULADA E DE UM PROCESSO EXPIRADO

Alicia Klein, colunista do UOL, esbravejou que ninguém aguenta mais falar do Cuca, o novo técnico do santos. Só que é ela mesma quem insiste em abusar da nossa paciência.

Mas, em algo a Alícia tem razão: por que falarmos da condenação do Cuca a 15 meses de prisão num processo de 1989, totalmente superado? Isto me parece mais uma  caça às bruxas.

Está na hora de os patrulheiros cricris respeitarem dispositivos legais como o da prescrição das penas após haver transcorrido um determinado período. Afinal, quase sempre o descumprimento da lei ocorre em prejuízo dos idealistas que tentam transformar o mundo. 

A Justiça burguesa defende, acima de tudo, os interesses dos capitalistas. Faz sentido facilitar-lhe as coisas, detonando um  dispositivo valiosíssimo para quem trava batalhas na defesa dos direitos humanos?
Quando eu participava da luta contra a extradição do escritor Cesare Battisti em 2008/2011, aquele caso simples se transformou num bicho de sete cabeças a partir do momento em que a Itália neofascista escamoteou o fato de que tal condenação havia prescrito. 

Mas, claro, a colunista identitária age movida por rancor e não leva em consideração que cada julgamento pode se tornar parâmetro para outros casos.

Depois de a campanha orquestrada por comentaristas esportivos do UOL haver resultado na desistência do Cuca em treinar o Corinthians, os advogados dele solicitaram um novo julgamento  e a Justiça suíça decidiu anular sua condenação de 1989 por erros processuais e rejeitar a reabertura do caso porque ele estava prescrito desde 2004.

Ademais, a suposta vítima já tinha falecido e o parente que poderia pleitear a continuidade do processo havia aberto mão de tal opção.

Ninguém aguenta mais que revanchistas do teclado tentem privar um sexagenário do seu direito ao trabalho, em função de um episódio controverso  ocorrido 38 anos atrás. (por Celso Lungaretti)

Related Posts with Thumbnails