segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O CENTRÃO JÁ ESTUDA FÓRMULAS PARA TOMAR DOS TRABALHADORES O QUE ELES POSSAM GANHAR COM O FIM DA ESCALA 6x1

Em países que não estão na idade da pedra, as jornadas de trabalho são de 35 a 40 horas semanais (Alemanha), 35 horas (França), médias próximas a 32 horas (Canadá e Austrália) e média de 36,6 horas (Japão).

Já a semana de 4 dias foi assumida pela Islândia a partir de testes efetuados entre 2015 e 2019, com 90% dos trabalhadores hoje se beneficiando de jornadas reduzidas; a Bélgica foi a primeira nação a institucionalizar a opção de 4 dias, em 2022; na Alemanha, 73% das empresas já optaram pela jornada de 4 dias. 

Escócia, Espanha, Nova Zelândia e Reino Unido desenvolvem projetos pilotos visando à redução da jornada; e até no Brasil, que Torquato Neto definiu com um estribilho antológico (Aqui é o fim do mundo), algumas empresas já realizam projetos pilotos para se direcionarem à jornada de 4 dias. 

Como era de esperar-se, contudo, o fim da jornada 6x1 é mal visto pela parte mais retrógrada do empresariado, mas a Câmara e o Senado dificilmente ousarão flertar com retrocesso num ano eleitoral. Afinal, a prioridade máxima de deputados e senadores é sempre a reeleição, todo o resto vem depois.
No centrão há quem defenda que a jornada de cinco dias totalize 44 horas semanais. 

Pretexto: não aumentar o custo Brasil. Só que, nos países que estão atendendo os reclamos dos trabalhadores, houve ganho de produtividade, maior do que qualquer prejuízo 

O ministro Guilherme Boulos (Secretaria Geral) bate pesado nos recalcitrantes:
É claro que haverá oposição no Congresso, mas restrita à extrema-direita. Quem se opuser à redução da escala terá que prestar contas nas urnas em outubro.

Os setores empresariais contrÁRIOS Aos direitos dos trabalhadores repetem os mesmos argumentos surrados desde a abolição da escravidão, passando pela criação da CLT, 13º salário, férias etc.

Evidentemente, o capitalismo não se redime cada vez que cede algumas migalhas do seu banquete para quem lhe garante toda a riqueza da qual desfruta. Mas, os trabalhadores ainda não sentem-se prontos para irem buscar tudo que lhes é negado. É pena.
Como não rezo pela cartilha do quanto pior, melhor, estou ao lado deles nesta pendenga. Que tenham um pouco mais de tempo para curtir o que a vida pode lhes oferecer. Espero que o utilizem bem, não o vendendo de volta para os patrões.  

os privilégios e a DESIGUALDADE
De resto, quando comecei a trabalhar em 1973, a jornada já era de 40 horas semanais nas empresas de comunicação empresarial, 

Mais tarde, nas grandes redações, já se cumpria o estipulado numa lei de 1969:  5 horas diárias e, num eventual acordo com o patrão, poderia passar a 7 horas, mas remuneradas como se fossem 9 horas (as 2 extras eram pagas em dobro).

Eu me considerava merecedor de tudo que pagavam, até o último centavo; mas detestava que, atuando no setor terciário, desfrutasse de várias vantagens com relação aos trabalhadores rurais e aos operários industriais. Nunca vi motivo para, nem me sentia  feliz sendo, um privilegiado.

Essa desigualdade me incomodava ainda mais porque meu pai, contra-mestre de tecelagem, não só era obrigado a cumprir religiosamente as 48 horas semanais, como tinha de submeter-se à divisão por turmas que prejudicava muito seu sono: numa semana trabalhava das 5 às 13 horas. noutra semana das 13 às 21 horas. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

INÓCUO SOB O CAPITALISMO, O COMBATE À CORRUPÇÃO É UMA BANDEIRA QUE SEMPRE ALAVANCA O POPULISMO DE DIREITA.

Combater a corrupção no capitalismo = enxugar gelo
O
circo do combate à corrupção  reergueu suas tendas para o espetáculo caso Master, ora em cartaz

Desde já se sabe que os palhaços da política profissional não passarão maus momentos. Os histriões dos principais partidos já teriam até acertado uma trégua entre eles, para evitar que as denúncias mútuas façam mais cabeças rolarem). 

No final, apesar de estar esperneando um bocado, o principal me(r)dalhão punido deverá ser Dias Toffoli, um mero e medíocre lambari, que não deveria nem ter recebido de presente uma cadeira no Supremo Tribunal Federal,

Daí eu estar republicando trechos de um artigo de 2009, quando uma disputa por mercado recebeu inclusive o apoio de partidos de esquerda -- uma vergonha! 

Tenho orgulho da minha atuação na série de escândalos que conseguiram aviltar ainda mais a política brasileira; alertei sempre que eles beneficiariam principalmente a direita. Não fui ouvido, mas meu papel eu cumpri. A omissão e oportunismo de outros companheiros prevaleceu e nosso povo sofreu as consequências. 

O vilão supremo Jair Bolsonaro, inclusive, não chegaria onde chegou se a Operação Lava-Jato não tivesse predisposto eleitores a fazerem a escolha mais funesta de suas vidas. Tento evitar que o desatino se repita.
O powerpoint do Dallagnol, um descalabro da Lava-Jato.
Q
uando, na década retrasada, contingentes da nossa esquerda tomaram partido por uma facção de gangsteres do capitalismo, de preferência à outra que com ela travava uma disputa mafiosa pelo florescente mercado de telecomunicações, fui um dos poucos articulistas a alertar que tal imbróglio não nos dizia respeito e nele não havia ninguém com quem devêssemos nos alinhar. 

De inocente útil chegava o delegado Protógenes Queiroz, o personagem mais badalado da Operação Satiagralha, que tirou as batatas do fogo enquanto um ex-superior hierárquico dele, alinhado com uma das quadrilhas litigantes, evitava queimar os dedos. Detonou sua carreira policial, mas ganhou inesperado prêmio de consolação: uma cadeira na Câmara Federal... pela legenda do PCdoB! 

A tal populismo rasteiro se reduzia um partido que ousou pegar em armas contra a ditadura militar. E não estava sozinho: o Psol também estendeu o tapete vermelho para o ingênuo delegado Brancaleone, que, contudo, o rejeitou.

Foi quando recoloquei em circulação uma conclusão definitiva do Paulo Francis sobre o udenismo e o golpismo de meados do século 20: O combate à corrupção é uma bandeira da direita (mais tarde, cunhei eu também um bordão nessa linha, a corrupção é intrínseca ao capitalismo).

Eis minha argumentação de abril/de 2009): 
Diagnóstico correto. E cuidado, essa doença mata!
...
as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...

De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento.

Paulo Francis dizia e eu assino embaixo: denúncias de corrupção política são bandeira da direita, que acaba sendo sempre sua beneficiária final, a despeito dos ganhos momentâneos que proporcionem à esquerda.

Esta deveria, isto sim, demonstrar que o capitalismo em si causa prejuízos imensamente maiores para o cidadão comum do que os desvios de recursos dos cofres públicos; e que a moralização da política não se dará com medidas policiais, mas sim com uma transformação maior da sociedade.

Não o faz. Desatinadamente, algumas de suas tendências reforçaram as denúncias que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e as que deram pretexto à dita redentora de 1964 (que, claro, nada mudaram exceto melhorar a sorte dos beneficiários do butim ou ávidos de poder).

Então, digo e repito: em vez de pegar carona nos temas que a imprensa burguesa prefere magnificar, cabe à esquerda definir sua própria pauta e explicá-la aos cidadãos.
Em sua agonia, o capitalismo cada vez mais recorre à força.

A corrupção política não é nossa prioridade, mas sim o combate ao capitalismo, verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros.

Precisamos ter a coragem de assumir a posição correta diante do povo, ao invés de tentar combater o inimigo num jogo de cartas marcadas, travado no terreno que só a ele convém.

E por que a corrupção não pode ser erradicada sob o capitalismo? Porque este coloca como prioridade máxima da existência humana o enriquecimento individual, a vitória na luta de todos contra todos por um lugar ao sol, ainda que pisando no pescoço da mãe para alcançar tal intento, como diria o Brizola.

Se esta é a lógica do sistema, sempre haverá quem busque atalhos para alcançar o objetivo à margem das regras que o próprio sistema estabelece mas manda às favas quando lhe convém. 

A alternância de cruzadas moralizadoras com períodos em que a corrupção corre solta dá a tônica do capitalismo. 

Revolucionários não deveriam jamais vergar-se aos estados de ânimo popular produzidos pela lavagem cerebral permanente do sistema, mas sim esclarecer corajosamente a seus públicos que todas as Lava-Jatos da vida cumprem a mesmíssima função de enxugar gelo.

E, enquanto a ilusão não se desfizer, acarretará golpes de estado, impeachments, vitórias eleitorais de demagogos grotescos e outros desdobramentos nefandos. (por Celso Lungaretti)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

IMAGINE UM DONALD TRUMP DECIDINDO QUEM SOBREVIVE E QUEM MORRE

dalton rosado
A DESESPERANÇA
"...em meio a essa imensa confusão, apenas uma coisa
é clara: estamos esperando a vinda de
Godot" (Samuel Beckett) 
Reina um niilismo passivo diante do fracasso dos ordenamentos políticos.

É uma constatação que se impõe, ainda mais se levarmos em conta o descompasso com o enorme ganho do saber adquirido pela humanidade ao longo do lento processo de apreensão do dito cujo e que, aos poucos,  ganhou celeridade nos últimos 50 anos. Isto se deu, com velocidade extrema, a partir do advento da microeletrônica/cibernética e seu uso em todos os aspectos da vida social.

Certamente que a política, enquanto esfera de apoio jurídico-constitucional de uma ordem econômica escravista estabelecida como forma de relação social funcional a partir de uma lógica contraditória e, portanto, ilógica, tornou-se disfuncional em face dos parâmetros modernos de produção social que lhe são antagônicos.

O trabalho abstrato, fundamento da escravização indireta pelo salário e correspondente extração de mais-valia (que é a base primária de uma economia fundada na forma-valor e que se reproduz cumulativamente, segregando os próprios trabalhadores a partir desse fundamento), tornou-se disfuncional, substituído que está sendo em maior parte pela máquina. 

Como consequência, o edifício da ordem jurídico-constitucional desaba juntamente com a razão de ser de sua existência: o apoio jurídico-constitucional ao capitalismo.    

A política tornou-se disfuncional por invalidez; tornou-se inativa como serva obediente sem soberania de vontade que sempre decidiu em favor do capital porque, com o advento da máquina (trabalho morto), em substituição majoritária do trabalho abstrato (trabalho vivo, assalariado), é o próprio capitalismo que sofre de anemia profunda por esvair-se o sangue que lhe mantem vivo. 

Ou seja, vive o momento da impossibilidade de reprodução aumentada do valor nos níveis necessários por seus próprios fundamentos; assim, a política ficou órfã impotente com a doença terminal do seu amo, o capital.

Este é o ponto fulcral da desesperança, ou niilismo passivo: a espera de um Godot que está morto, qual seja a política.

Como estamos todos acostumados a buscar respostas na institucionalidade política (incapaz de nos oferecer tais respostas), reina a desesperança, que se traduz num niilismo passivo.

Vivemos sob uma forma de relação social destrutiva daquilo que se pode considerar como saudável, seja do ponto de vista da materialização do provimento equânime das necessidades de consumo e demandas sociais básicas, seja do ponto de vista da afirmação das virtudes humanas como tais, ou seja ainda pela questão ecológica.

Além disso, o estágio atual das contradições capitalistas aponta para a destrutibilidade da sua própria forma, traduzida na criação de entraves que impedem a consecução do seu objetivo teleológico: a autorreprodução vazia de sentido humano do capital expresso no dinheiro e das mercadorias sensíveis cujo valor de troca se expressa no tempo-valor.

Ora, com a mecanização preponderante na produção de mercadorias, extingue-se substancialmente o critério de mensuração de trocas destas na guerra concorrencial de mercado de modo a que apenas aqueles grandes conglomerados capitalistas detentores de capacidade de investimento em capital constante em grandes volumes poderão produzir.

É evidente, portanto, que para a sobrevivência desse sistema de verticalização do poder sob critérios de produção controlados pela máquina e seus proprietários, já não será o valor abstrato o critério de mensuração da riqueza, mas a força absolutista político-militar a fornecer um voucher sobrevivência como recentemente propôs Elon Musk. 

Imagine um Donald Trump decidindo quem come e como se obter o alimento? Quem manda e quem obedece?  Quem vive (ou sobrevive) e quem morre?  

É preciso compreender que a máquina e o saber que a criou representam a transição de um modo de produção baseado na força muscular humana para um modo de produção mais confortável e produtivo alterando substancialmente o caráter da sociedade para pior ou para melhor, dependendo do nível de consciência e unidade que os segmentos majoritários da população possam ter sobre seus próprios destinos.

O claro crescimento da direita nos processos eletivos mundo afora, com o surgimento de partidos flagrantemente defensores dos famigerados postulados nazistas deriva da falta de uma proposição de relação social que negue o capitalismo na sua raiz constitutiva: o valor e a dissociação de gênero.

Não há democracia (se se quiser emprestar ao termo uma conotação de livre exercício da soberania da vontade) sob o capital, e não é votando que se rompe com a mesmice, posto que as eleições burguesas mais não são do que um canal de positivação de uma estrutura política de positivação do capital e que somente leva ao descrédito das massas eleitoras diante do fracasso da tentativa bem-intencionada de humanização do capital pelos partidos ditos progressistas.

Então, por que se insistir numa forma jurídico-constitucional-eletiva que comprovadamente é incapaz de prover as demandas sociais de modo equilibrado e aperfeiçoado, e que se deteriora a olhos vistos?

Neste ano de 2026 temos eleições e vai se repetir a polarização entre a direita (que possivelmente virá com uma tentativa de revestir o lobo na pele de um cordeiro) e a social-democracia trabalhista lulista (cujo conteúdo reformista e conciliador propõe a retomada de crescimento econômico, ou seja, mais capitalismo, como forma de crescimento do bolo que possibilite a distribuição de algumas fatias, como queria Delfim Netto nos anos 60).

Mas há alternativa a isso, e passa pela compreensão de que um novo modo de produção requer um novo caráter de sociedade. Podemos conjecturá-la? (por Dalton Rosado)
"Só sinto frio na alma, estou vazio de sentimento.
Não sinto água no corpo, nem amor, nem ferimento"

domingo, 1 de fevereiro de 2026

"ERA UMA CANÇÃO, UM SÓ CORDÃO E UMA VONTADE DE TOMAR A MÃO DE CADA IRMÃO PELA CIDADE" (Chico Buarque)

Mestre Cartola na Comissão de Frente da Mangueira, em 1977.
"
A Estação Primeira
de Mangueira passa
em ruas largas, passa
por debaixo da avenida
Presidente Vargas"
(Caetano Veloso) 
A origem do carnaval perde-se na poeira dos tempos. 

Há quem tente remontá-la ao culto agrário praticado por povos que existiram 10 mil anos antes de Cristo: homens e mulheres mascarados, com corpos pintados e cobertos de peles ou plumas, saíam em bandos e invadiam as casas, fazendo terríveis algazarras.

Outros autores lembram as festas alegres do paganismo, como a de Ísis e a do Boi Ápis, entre os egípcios; e as bacanais, lupercais e saturnais dos romanos.

Suetônio, historiador da Roma antiga, refere-se às saturnais como desenfreada libertinagem, cínica palhaçada. E diz que, durante esse período todos pareciam enlouquecer. Armavam-se grandes mesas à frente das casas para senhores e escravos comerem à vontade, sem distinções. E os escravos tinham o direito de dizer verdades a seus donos, ridicularizá-los, fazer o que quisessem.

A componente libidinosa do carnaval é inegável em todos os textos antigos. Sabe-se, p. ex., que o termo carnaval deriva do latim carrum novalis, designação de um tipo de carro alegórico da Grécia e Roma antigas. Dezenas de pessoas mascaradas caminhavam a seu lado e ele trazia no bojo mulheres nuas e homens que cantavam canções impudicas.

A Idade Média, com a rígida tutela religiosa sobre a vida social, não poderia trazer acréscimos significativos ao carnaval. Mas, pelo menos, não conseguiu extinguir esses festejos, que continuaram existindo como um contraponto à monótona existência nos feudos.


Contam alguns textos, inclusive, que os padres, depois de pregarem em vão contra o carnaval, acabavam convidando os fiéis a concentrarem as comemorações na praça da igreja, para que tal logradouro não ficasse desvalorizado...

A Renascença viria libertar os europeus da sensação de culpa que a religião procurava insistentemente associar ao prazer e à alegria. Os distantes e etéreos paraísos prometidos nos púlpitos, bem como as dantescas descrições do inferno que esperava os pecadores, tornaram-se insuficientes para afastar o povo da folia. A grande festa pagã renascia em todo o seu esplendor.
.
O MEDONHO ENTRUDO PORTUGUÊS Para nós interessa, sobretudo, o carnaval português, conhecido como entrudo. Isto porque, até fins do século 19, o nosso carnaval teria as mesmas características do medonho entrudo português, porco e brutal a que se referiu uma historiadora, assim descrevendo-o:
Pelas ruas de Lisboa, generalizava-se uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos de gema, ou suas cascas contendo farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, cabaças de cera com águas de cheiro, tremoços, tubos de vidro ou de cartão para soprar com violência, milho e feijão que se despejam aos alqueires sobre as cabeças dos transeuntes...
A pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca, relaciona diversos casos para comprovar que, a exemplo do que ocorria na Roma de Suetônio, o carnaval aqui também se constituía no único período em que os escravos desfrutavam de uma certa liberdade

E conclui: Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores.

Os limites da democracia, entretanto, sempre foram muito exíguos no Brasil, então houve também medidas caracteristicamente autoritárias. Em 1857, o chefe de polícia do Rio de Janeiro lançou um edital proibindo o jogo do entrudo dentro do município. Qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com que satisfazer, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mande castigar no calabouço com cem açoites. Ou seja, multa para os brancos proprietários; xilindró e chicotadas para os escravos. A relatividade vem de longe...

A agressividade igualmente se evidencia em todos os textos da época. Sabe-se, p. ex., que o único objeto de divertimento do carnaval brasileiro era o limão de cheiro, uma imitação de laranja, com invólucro de cera e água fétida por dentro.

O pintor e engenheiro Jean-Baptiste Debret, que aqui veio com a Missão Artística Francesa em 1818, ficou estarrecido com a selvageria explícita: Vi jovens negociantes ingleses passearem, com orgulho e arrogância,  acompanhados por um negro vendedor de limões cujo tabuleiro esvaziavam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conheciam.

Episódios deste tipo o marcaram tanto que um de seus desenhos mais famosos, Cena de Carnaval (ao lado), mostra uma negra atacada na rua por um crioulo de cartola, que lhe esfrega no rosto um bocado de goma, enquanto o outro negro ensopa o primeiro com água de uma longa seringa.

Apenas no final daquele século a agressividade foi se atenuando e as bisnagas passaram a conter, ao invés de água suja, líquidos menos repugnantes, como vinagre, groselha e vinho; idem os limões de cheiro, cujas águas fétidas e até urina foram trocadas por inofensivos perfumes.
.
ZÉ PEREIRA! BUM, BUM, BUM! – O personagem mais característico do carnaval brasileiro surgiu em meados do século 19 e logo se tornou uma instituição popular. Trata-se do Zé Pereira, calcado na figura do sapateiro José Nogueira de Azevedo Pereira.

Português de nascimento, ele um dia entretinha-se com outros patrícios, recordando as romarias, estúrdias e estrondos da pátria distante. A saudade era tanta que eles resolveram sair à rua, ao som de zabumbas e tambores alugados às pressas, para fazer uma passeata pela cidade.

Foi um enorme sucesso, logo copiado por dezenas de grupos semelhantes, fazendo com que o Zé Pereira se transformasse num personagem mística, identificado com o próprio carnaval (“E viva o Zé Pereira/ Pois que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval”).

A historiadora Eneida assim avaliou o Zé Pereira:

Foi essencialmente o carnaval do pobre. Tão fácil, no meio da miséria reinante, sair à rua com bumbos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros!

Seu desaparecimento, no começo do século passado, é indício de que o carnaval perdia espontaneidade, tornando-se festa opulenta e regulamentada, sem espaço para os improvisos populares.

Mas, a alma do Zé Pereira sobrevive até hoje nos blocos de sujos, que insistem em se formar sem ensaios e mensalidades, para existir num momento e viver intensamente esse momento, na melhor tradição do carnaval.

SAMBA E UMBIGADA  – Até o início do século passado samba e carnaval tiveram trajetórias distintas, que foram convergindo no sentido de uma perfeita complementação. 

O samba remonta à chegada no Brasil de escravos negros, que logo foram introduzindo seus ritmos, danças, cantigas, costumes e crenças. Assim, após o trabalho exaustivo (ou nos raros dias de folga), eles dançavam e batucavam com seus instrumentos rudes, nos terrenos das fazendas, engenhos e canaviais. Alegria sofrida, ritmo de quem esforçava-se por esquecer a tristeza, as privações e os maus tratos.

O batuque tipicamente africano foi caindo em desuso com o desaparecimento dos nativos daquele continente. Uma variação abrasileirada espalhou-se por todo o País, já com a denominação de samba. 

E, na zona rural, o encontro de culturas deu origem a uma derivação pitoresca, os chamados sambas sertanejos, em que homens e mulheres participavam da roda cantando em coro, ao som de instrumentos de percussão e da viola de arame.

Segundo um cronista da época, os dançadores formam roda e, ao compasso de uma viola, move-se o dançador do centro, avança e bate com a barriga de outro da roda, uma pessoa de outro sexo. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão por que tem muitos inimigos, principalmente entre os padres.
.
LENÇO NO PESCOÇO – A fase heroica do samba foi a da pernada carioca, diversão a que se entregavam os remanescentes dos inúmeros grupos de capoeiristas existentes no Rio de Janeiro em fins do século 19.

Tratava-se de uma batucada braba, na base da pernada e cabeçada, regada com doses cavalares de cachaça (Samba de negro/ Não se pode frequentá/ Só tem cachaça/ Pra gente se embriagá).

                      
                                        
Os conflitos eram corriqueiros e a presença da polícia, também, dando origem a verdadeiras batalhas campais, em que instrumentos musicais serviam como armas e algumas cabeças acabavam sempre rachadas (Tava num samba/ Lá no Sarguero/ Veio a polícia/ Me jogou no tintureiro”).

O samba era tido como coisa de pretos, malandros e marginais. A posse de qualquer  instrumento de samba bastava como prova de que o indivíduo era vadio e merecia ser preso. E a brutalidade da polícia Era respondida à altura pelos bambas. Mortes ocorriam de lado a lado.

Foi a época do tipo celebrizado por Wilson Batista, com seu andar gingado, chapéu tombado, olhar dormente, fala cheia de gírias, lenço de seda no pescoço (para proteger-se das navalhadas), camisa listrada, calças largas (boca-de-sino) ou balão (bombacha) caídas sobre os sapatos de bico fino com salto carrapeta (mais tarde, tamancos) e, evidentemente, a inseparável navalha.

Os versos do sambista da Lapa o descrevem admiravelmente: Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho de ser vadio.

Trata-se de uma figura que, como o verdadeiro carnaval, sairia de cena entre as décadas de 1930 e 1940.
.
O PINTO E OS ÍNDIOS – O carnaval era uma pedra no sapato dos autoritários de todos os matizes. Os chefes de polícia, desde meados do século 19, lançaram uma interminável série de editais, ora proibindo, ora regulamentando os festejos.
No carnaval carioca de 1888, entre as muitas determinações draconianas, figurava a de que, sem a autorização do Chefe de Polícia, não podem aparecer críticas, principalmente ao Governo.

Episódios anedóticos ocorreram aos montes. Um delegado carioca chamado Alfredo Pinto, p. ex., notabilizou-se pela perseguição aos foliões. Em 1909, tentou proibir as passeatas e o Zé Pereira, sendo obrigado a voltar atrás por causa dos protestos da população e da imprensa.

Furioso, voltou à carga proibindo as fantasias de índio, sob a alegação de que os tacapes poderiam ser utilizados como armas. Os blocos contra-atacaram com refrãos provocativos que difundiram por toda a cidade, tipo Eu vou beber/ Eu vou me embriagar/ Eu vou sair de índio/ Pra polícia me pegar. Em outros, houve até alusões picarescas ao sobrenome do delegado...
.
DOMESTICAÇÃO E TURISTIFICAÇÃO – Nem a polícia do terrível Filinto Müller, durante a ditadura getulista, conseguiu pôr fim aos festejos de Momo. De repente, entretanto, o povo perdeu seu carnaval, que virou um próspero negócio para as escolas de samba e foi alçado a item prioritário da promoção do turismo.

Comemorações rigorosamente planejadas substituíram as iniciativas espontâneas do povão. Os foliões se tornaram passivos espectadores dos suntuosos e multicoloridos desfiles. Sambistas passaram a competir encarniçadamente por classificações espúrias.

Enfim, a festa do congraçamento cedeu lugar à disputa calculista. O que a polícia não conseguiu com seus cassetetes, conseguiram os negociantes com seus talões de cheque.


Como explicar essa transição negativa? Dizer que, com a industrialização, fecharam-se os espaços para a desordem remanescente da sociedade rural? Que o carnaval morreu ao se institucionalizar? Que nosso povo já não tem humor nem revolta? Explicações podem ser alinhavadas às dezenas. Mas, nenhuma servirá como consolo.

O certo é que uma genuína explosão de vida se tornou ritual de repetição. E o povo se conformou em não inventar mais seus festejos nem improvisar seus itinerários, recebendo como contrapartida lugares confortáveis nas arquibancadas dos sambódromos e o direito à licenciosidade em salões sufocantes.

Enfim, foi expulso das ruas e não se dispõe mais a lutar mais por elas.
Observação: desde que escrevi este artigo, voltou a haver mais carnaval nas ruas, com os blocos de sujos.  Contudo o velho espírito libertário e transgressor, este não voltou. Continua sendo uma festa consentida, com a diferença de que hoje se consente mais em alguns dias para que todos suportem engolir uma quantidade maior de sapos nos outros dias. (por Celso Lungaretti) 

sábado, 31 de janeiro de 2026

NINGUÉM ESTAVA OLHANDO, ENTÃO OS POLÍTICOS DO BRASIL E OUTROS PAÍSES TOSQUIARAM OS CONTRIBUINTES.

Ken Griffin discorreu sobre os riscos que o Brasil corre

Um assunto frequente nos artigos do Dalton Rosado é o de que o capitalismo agoniza, cada vez se aproximando mais  de um novo crash como o de 1929, que causou uma década de crise aguda nas principais economias do mundo, começando pela estadunidense .

É a mesma avaliação do Alexandre Borges em seu artigo deste sábado (31) na Folha de S. Paulo, no qual sustenta que a disparada da dívida pública é uma bomba relógio da qual ninguém fala, prestes a explodir nos EUA, França, Reino Unido, Japão e Brasil. 

Como se trata de um texto muito longo para as características deste blog, vou reproduzir apenas os trechos  de maior interesse para nós, brasileiros. (CL)

Em Davos, Ken Griffin, fundador e CEO da Citadel, levou o debate para um ponto pouco frequente no Fórum Econômico Mundial: a deterioração fiscal das grandes economias e o retorno da pressão dos mercados de dívida sobre governos. assunto árido, mas que representa um risco sistêmico, o mais urgente de todos.

Os dados mostram uma deterioração fiscal disseminada nas principais economias mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o déficit fiscal médio das economias avançadas passou de cerca de 3,3% do PIB em 2019 para mais de 5% em 2024...

...Nas (nações) emergentes, o Brasil aparece como um dos casos mais graves. O país encerrou 2024 com déficit nominal próximo de 8% do PIB, um dos maiores do mundo, segundo estimativas de bancos e organismos multilaterais. 

Em 2025, as projeções apontam déficit entre 8% e 8,6% do PIB, superado apenas por poucas nações em situação fiscal extrema. A dívida bruta brasileira saiu de 71,7% do PIB em 2022 para cerca de 79% no fim de 2025, segundo o Banco Central. 

Para efeito de comparação, a média da dívida dos emergentes passa dos 60% do PIB, e a de países com classificação de risco semelhante ao do Brasil fica abaixo de 55%.

O histórico recente do país reforça o alerta. Entre 2012 e 2015, o resultado primário do governo saiu de superávit de 2,4% do PIB para déficit de 1,9%. O déficit nominal ultrapassou 10% do PIB. A dívida bruta saltou de 51,5% para 66,5% do PIB. 

No mesmo período, a inflação atingiu 10,7%, o desemprego subiu de 6,5% para mais de 11% e o PIB acumulou retração próxima de 7% em dois anos. O país perdeu o grau de investimento...

...Num mundo em que todas as discussões racionais e relevantes foram eclipsadas por pautas elitistas, alienadas, emotivas ou identitárias, a política percebeu que ninguém estava olhando e meteu a mão no cofre do contribuinte. Os efeitos estão apenas começando, e os riscos não poderiam ser maiores. (Alexandre Borges é jornalista e analista político) 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O GRANDE IRMÃO TINHA UMA POLÍCIA DO PENSAMENTO; JÁ O GRANDE FANFARRÃO O CONTROLA COM RECURSOS CIBERNÉTICOS.

rui martins
GROKIPEDIA CONTRA WIKIPEDIA
O
alerta foi dado pelo governador democrata da Califórnia, Gavin Newsom, ao denunciar o TikTok, versão estadunidense, de praticar censura em favor de Donald Trump. 

Newsom recebeu denúncias de usuários do TikTok com dificuldades para postar vídeos sobre a morte do enfermeiro Alex Pretti pela polícia anti-imigração ICE.

O jornal suíço Le Temps publicou com destaque uma reportagem sobre acusações de censura e controle do TikTok, num estranho e perigoso conluio do Vale do Silício com a Casa Branca. 
 
1984 orwelliano vem chegando
Além disto, o próprio uso da inteligência artificial poderia ser manipulado politicamente, pois o ChatGPT passou a utilizar nos EUA, como fonte de informação, a enciclopédia Grokipedia, lançada por Elon Musk para concorrer com a Wikipedia.

O risco é o controle da informação pela IA segundo a versão dos seguidores de Trump, dispensando mesmo a necessidade de censura. Não será ainda o controle total previsto por George Orwell, mas um 1984 regional.

Outro perigo é o de uma enciclopédia desse tipo inventar e impor uma outra narrativa histórica, segundo a visão ideológica de Elon Musk.

Inicialmente serão os conservadores e fundamentalistas eleitores de Trump os utilizadores dessa enciclopédia, mas rapidamente suas interpretações serão difundidas em outros países (como o Brasil), e nas nações com movimentos ultradireitistas influentes e em expansão. 

Já existem mesmo previsões de um fim para a neutra Wikipedia, não se podendo excluir a potência financeira e tecnológica do grupo chefiado por Elon Musk. Os efeitos desses meios de doutrinação e controle se farão sentir nas novas gerações, a longo prazo. 

Estes autoritários são farinha do mesmo saco 
Trump, Musk e a extrema-direita fundamentalista, que deles já dispõem, poderão testá-los na preparação das eleições de novembro nos EUA.

Se já nas eleições brasileiras de 2918 as redes sociais da ultradireita despejavam fake news aos montes, pode-se imaginar o impacto do uso da IA nas de 2026. 

Vale lembrar que a propagação de mentiras e falsificações de notícias terão  o total apoio dos EUA, cujo presidente fanfarrão quer porque quer controlar os países sul-americanos. (por Rui Martins)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

SANTA CATARINA LAVA MAIS BRANCO... O CÉREBRO DOS SEUS ESTUDANTES!

Sabem a massa fecal, aquela que, quanto mais mexemos nela, mais fede? É o que acontece com a tentativa catarinense de extirpar várias modalidades de ações afirmativas do ensino estadual.

Tentando explicar o inexplicável e inaceitável, o governo de SC saiu-se com esta pérola: a norma seria constitucional por levar em conta as singularidades demográficas do estado, que tem a maior proporção de população branca do país.

Só não entendo por que Ira Levin, ao escrever Os Meninos do Brasil, colocou a Amazônia como a região brasileira na qual atuavam remanescentes do nazismo. Para algo assim eles escolheriam um estado com acentuada predominância de brancos. 

Adivinhem qual. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

DEPUTADOS BOLSONARISTAS DE SC QUEREM ACABAR COM AS AÇÕES AFIRMATIVAS NO ESTADO

Santa Catarina, que disputa com o Paraná a vergonhosa posição de Estado brasileiro mais reacionário, quer com uma mera lei estadual anular a vigência em território catarinense das leis federais número 12.711/2012 (que regulamentou o regime de cotas no ensino superior), 12.990/2014 (idem em concursos federais), bem como da Nova Lei de Cotas. 

Esta última, sancionada em junho de 2025, renovou e ampliou as cotas em concursos federais para 30% das vagas, incluindo negros, indígenas e quilombolas.

A Ordem dos Advogados do Brasil entrou nesta 2ª feira com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal,  pedindo a imediata suspensão da lei que proibiu a adoção de cotas e outras ações afirmativas em instituições de ensino de SC.

A entidade aponta que tal legislação estadual, aprovada na semana passada, é totalmente inconstitucional, por afrontar princípios da Constituição como a proibição de retrocessos sociais, a autonomia universitária e até o pacto federativo.

Como o governo federal já promulgou leis que instituem o sistema de cotas, incluindo o Estatuto da Igualdade Racial, o governo estadual jamais conseguiria derrubar esses mecanismos. Na verdade, a iniciativa do Legislativo catarinense não passa de uma provocação direitista, sem chance nenhuma de atingir seu objetivo.

Observação: meu prognóstico no último parágrafo foi rapidamente confirmado: nesta terça-feira (27) o Tribunal de Justiça de Santa Catarina suspendeu os efeitos da lei catarinense que proibia a adoção de cotas raciais e voltadas a outras minorias em universidades públicas estaduais ou que recebam verbas públicas em SC. 

A ligeireza com que a iniciativa de deputados bolsonaristas foi liminarmente fulminada por uma ação direta de inconstitucionalidade do Psol não deixa dúvidas quanto ao destino que a proposta terá quando do julgamento do mérito da questão: a lata de lixo. (por Celso Lungaretti)
"...só trago o amargo rumor / que o asfalto rumorejou. / Só trago a foto
da flor / que o beija-flor recusou. / E a terra em canto  minguante, /
 refrão de guerra crescente, / armado eu vim só de amor, camará"
Related Posts with Thumbnails