quarta-feira, 22 de abril de 2026

A GRANDE IMPRENSA E OS BANCOS ESTÃO UNIDOS NO LOBBY CONTRA O FIM DA ESCALA 6x1. DESCARADAMENTE!

O
 banco Inter, líder do ranking de reclamações do Banco Central, divulgou um estudo estimando que o fim da escala 6x1 acarretará no médio prazo uma redução de 0,82% no Produto Interno Bruto brasileiro.

Só isto? E por que esperaram tanto tempo? Já na década de 1930 a Dinamarca adotava a escala 5x2. 

Afinal, para que servem os bancos além de lucrarem uma enormidade parasitariamente (pois nada produzem) e de frequentarem o noticiário com um escândalo atrás do outro?

Há 110 anos Lênin disse tudo que importava sobre o capital financeiro no seu clássico O imperialismo, etapa superior do capitalismo. Eis alguns trechos:
Os bancos, de modestas empresas intermediárias que eram antes, se transformaram em monopolistas do capital financeiro. Três ou cinco grandes bancos de cada uma das nações capitalistas mais avançadas realizaram a "união pessoal" do capital industrial e bancário, e concentraram nas suas mãos somas de milhares e milhares de milhões, que constituem a maior parte dos capitais e dos rendimentos em dinheiro de todo o país.

A oligarquia financeira tece uma densa rede de relações de dependência entre todas as instituições econômicas e políticas da sociedade burguesa contemporânea, sem exceção: tal é a manifestação mais evidente deste monopólio.

O imperialismo é a época do capital financeiro e dos monopólios, que trazem consigo, em toda a parte, a tendência para a dominação, e não para a liberdade. A reação em toda a linha, seja qual for o regime político, é a exacerbação extrema das contradições
De resto, o destaque desmesurado dado a tal estudo na grande imprensa é pra lá de suspeito. Como editor que já fui, eu consideraria tal arremedo de notícia merecedor de 10 linhas, e olhe lá... (por Celso Lungaretti)

FAMOSOS HORROROSOS

Alicia Klein, colunista do UOL, revela até que ponto chegou a desumanização dos seres humanos sob o capitalismo:

Ana Paula Renault perdeu o pai. Tadeu Schmidt perdeu o irmão. Renato Gaúcho perdeu a irmã. Gabriel Brazão estava com o pai internado em estado terminal. Saúl estava com o filho de 3 anos na UTI. Todos eles escolheram, na última semana, trabalhar em meio à agonia.

Eu não tomaria uma cerveja com nenhum desses personagens gananciosos e ávidos por holofotes. Se fossem pobretões, eu até compreenderia a opção calhorda que fizeram. Mas, não são. 

T, S. Eliot fez uma poesia terrível, mas terrivelmente verdadeira, sobre esses homens ocos (vale para as mulheres também):
.
Nós somos os homens ocos,
os homens empalhados,
Uns nos outros amparados,
o elmo cheio de nada. Ai de nós!
.
Nossas vozes dessecadas
quando juntos sussurramos,
são quietas e inexpressivas
como o vento na relva seca,
ou pés de ratos sobre cacos
em nossa adega evaporada.

Fôrma sem forma, sombra sem cor,
força paralisada, gesto sem vigor.

(...) É assim que acaba o mundo,
é assim que acaba o mundo,
é assim que acaba o mundo:
não com estrondo, mas com um suspiro.

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 3)

Trocados pelo embaixador Charles Elbrick, da esq. p/ a dir., em pé: Luís Travassos, José Dirceu, José Ibrahim,
Onofre Pinto, Ricardo Villasboas, Maria Augusta Carneiro, Ricardo Zaratini e Rolando Fratti. Agachados:
João Leonardo Rocha, Agonalto Pacheco, Vladimir Palmeira, Ivens Marchetti e Flávio Tavares
.
Era, contudo, algo que eu não cogitava, nem sequer pretendia. Nunca tive obsessão pelo poder e. aos 18/19 anos, já possuía suficiente senso de autocrítica para perceber que não estava pronto para voos tão altos.

Mas, eu mentiria se não admitisse que o novo status me deslumbrou um pouquinho que fosse, principalmente após passar 1968 inteiro ressentido com o tratamento entre paternal e ligeiramente desdenhoso que os militantes universitários dedicavam a nós, secundaristas, colocando-nos ora no papel de tarefeiros, ora no de bois de piranha.

[Caso, p. ex., de quando nos escolheram para panfletar Osasco ocupada pela PM em junho de 1968, sob a alegação de que, presos, iríamos para o Juizado de Menores e não para o Deops. Mas isto não passava de papo furado: a ditadura não tinha melindres legais.]  

Quando a minha sorte de principiante acabou e a realidade crua da luta armada começou a desabar sobre mim, isso me abalou mais do que deveria. Primeira foi a morte de um companheiro da VPR a quem não conhecia, Carlos Zanirato, em junho. Preso, ele resolveu dar um fim às torturas pela via do suicídio. conduzindo a repressão a um ponto falso e atirando-se sob um veículo pesado. 
Fernando Ruivo, o azarado.

No mês seguinte vieram o Elias e um  ex-dirigente da Dissidência Estudantil de São Paulo, de quem eu muito ouvia falar quando fazia movimento secundarista na órbita dessa organização universitária em 1968: o Fernando Ruivo (Fernando Borges de Paula Ferreira). 

Um caso chocante porque ambos tiveram o azar de estarem num carro que empacou logo quando passava por uma boca quente paulistana. Havia policiais emboscados esperando surpreender traficantes, então os dois, sabendo que uma revista revelaria a existência de armas e munição no porta-malas, abriram fogo. 

O Ruivo morreu na hora e o Elias foi salvo pelos médicos mas expirou quando submetido a torturas prematuras.

Em outubro veio o pior baque para mim: a morte do meu colega de escola, amigo, companheiro de militância secundarista e um dos sete quadros que conduzi para as fileiras da VPR, Eremias Delizoicov. 

Eu estava longe, participando da equipe precursora do treinamento guerrilheiro na região de Registro (SP), mas me senti culpado mesmo assim: tornara-me comandante estadual graças aos que, como ele, me haviam escolhido como líder de nossa base e delegado ao congresso de 1969 da VPR. 

Mas, não zelara por nenhum dos sete, absorvido que estava pelas minhas novas funções. A morte do Eremias, que preferira trocar tiros do que entregar-se vivo, embora pouca participação tivesse até então na VPR e não fosse depositário de segredos valiosos para a Operação Bandeirantes (precursora do DOI-Codi), pesava sobre meus ombros. Apesar das normas de segurança em contrário, eu teria como contatar alguns dos sete, mas não o fizera. E o despreparo do Eremias terminara em tragédia.

O certo é que, após estar a um passo da expulsão durante o Congresso de Teresópolis e ver-me salvo na enésima hora  pela decisão do Lamarca de desfechar o racha dos sete, não me senti vitorioso, muito pelo contrário. A beligerância com que se travara a luta interna, com os neo-massistas utilizando um verdadeiro arsenal de meias-verdades e mentiras descaradas para prevalecerem contra o Moisés e eu me lembrou os piores momentos do movimento estudantil.

Não conseguia engolir o episódio pra lá de deprimente em que até a minha queda os adversários do nosso campo tramaram, como se fôssemos inimigos mortais. 

No alto, Devanir de Carvalho e Joaquim Seixas 


É que voltei de Teresópolis com a missão de apresentar aos militantes da VAR em SP  a visão dos refundadores da VPR, enquanto o Antônio Roberto Espinosa expressava a posição neo-massista. Isto só ocorreu, contudo, duas vezes.

Na primeira, apesar de o Espinosa ter sido do Comando Nacional enquanto eu era comandante estadual, sai-me melhor do que o outro lado esperava. 

Aí, finda a segunda dessas reuniões, fui  a um ponto com antigos companheiros secundaristas que eu queria atrair para a VPR; em seguida, deveria ser apanhado por pessoal da VAR, pois nós havíamos ficado sem aparelhos em SP  e competia a eles me abrigarem.

Faltaram ao ponto e também faltaram na alternativa horas depois, deixando-me entregue à própria sorte, com meu rosto nos cartazes de procurados vistos em todo lugar, sem documentos capazes de enganar policial algum e com um .38 embaixo do braço. E deixara de ser seguro enfiar-me num hotelzinho barato, como fizera meses antes, ao sair de casa para entrar na clandestinidade.

Mas, uma moeda caiu em pé. Andando por ruas menos movimentadas do centro velho de SP, enquanto refletia sobre como escapar daquela enrascada, dei de cara com o Devanir de Carvalho, do Movimento Revolucionário Tiradentes, mais procurado ainda do que eu (travara tiroteio com agentes da repressão que vinham prendê-lo e aos irmãos, acabando por escapar ferido no braço).

Encontrá-lo caminhando pela rua 7 de abril com o braço na tipoia, foi um inacreditável golpe de sorte. Ele me abrigou como pôde e reatou meu contato com a VPR. Mas, a solidariedade impecável do Devanir não foi suficiente para eu esquecer que aqueles que nem duas semanas antes pertenciam à mesma organização, acabavam de tentar entregar-me às feras.

Amargurado, nem quis participar do rápido encontro no qual alguns dos principais quadros da VPR refundada aprovaram basicamente as Teses do Jamil como plataforma doutrinária e elegeram um novo Comando Nacional. 

Em seguida, por estar muito queimado em SP (até na Biblioteca Central a Oban plantou agentes, na esperança de que eu aparecesse por lá, como fazia amiúde nos tempos de secundarista!), incumbiram-me de ajudar a preparar uma área de treinamento guerrilheiro para receber os primeiros aprendizes.
Livro que melhor reconstitui queda
das áreas guerrilheiras da VPR

Não fui tão mal no trabalho de campo como detratores exagerariam depois, mas o noticiário de cada dia me fazia tanta falta quanto o ar para respirar. 

Não suportava permanecer distante enquanto outros companheiros poderiam estar morrendo nas cidades. Quando chegava o motorista que trazia nossas provisões, mensagens e utensílios, eu simplesmente devorava os jornais recentes.

Então, quando o Lamarca decidiu que aquele sítio próximo a Jacupiranga tinha vários inconvenientes para nosso projeto e os trabalhos deveriam ser transferidos para outro município, supostamente longínquo, pedi para voltar ao trabalho urbano, pois avaliara que nele seria mais útil.

O Massafumi Yoshinaga, velho companheiro de militância secundarista (atuava na zona Sul e eu na Leste, mas ambos pertencíamos à mesma entidade), 

Também aproveitou a ocasião para sair, não para outro tipo de trabalho, mas para desligar-se da VPR. Não suportava o isolamento das massas, ficar ouvindo o dia inteiro papo sobre assuntos militares.

Iniciei 1970 no Rio de Janeiro, novamente designado para criar e comandar um serviço de Inteligência integrado por aliados e simpatizantes. Era um momento em que tinha até receio de abrir o jornal a cada manhã, pois eram cada vez mais frequentes as notícias de quedas e mortes de companheiros que eu conhecia pessoalmente.  

Organicamente ligado apenas a dois comandantes nacionais e a dois comandantes de unidades de combate. aos quais municiava com informações e análises, tinha uma visão bem clara de que nossa luta estava nos estertores: ou conseguiríamos virar o jogo com o lançamento da coluna móvel estratégica, ou definharíamos aos poucos. 

E chegou a mim uma mensagem familiar: um tio rico estava disposto a bancar a minha fuga para algum país da América do Sul ou Europa. 
Massafumi Yoshinaga

Pensei um pouco no assunto e conclui que, ficando no Brasil, apostaria num fio de esperança e possibilidade muito maior seria a de acabar preso, torturado, morto. Não tinha ilusões quanto a isto. 

Se partisse, minha utilidade para a revolução seria praticamente nenhuma. Como já queimara as pontes com a sociedade burguesa, eu alhures me tornaria um estranho numa terra estranha, perdendo inclusive a auto-estima.

Decidi ficar, até a improvável vitória ou até o mais amargo fim. (por Celso Lungaretti) 

terça-feira, 21 de abril de 2026

O REVOLUCIONÁRIO TIRADENTES MERECIA UM POVO MUITO MELHOR DO QUE A PARVA GENTE BRASILEIRA

"Tiradentes foi um revolucionário no seu momento como o seria em outros momentos, inclusive no nosso. Pretendia, ainda que romanticamente, a derrubada de um regime de opressão e desejava substitui-lo por outro, mais capaz de promover a felicidade do seu povo

...No entanto, este comportamento essencial ao herói é esbatido e, em seu lugar, prioritariamente, surge o sofrimento na forca, a aceitação da culpa, a singeleza com que beijava o crucifixo na caminhada pelas ruas com baraço e pregação.... 

O mito está mistificado.

Brecht cantou: Feliz é o povo que não tem  heróis. Concordo. Porém nós não somos um povo feliz. Por isso precisamos de heróis. Precisamos de Tiradentes" (Augusto Boal, Quixotes e Heróis). 

Liberdade, ainda que tardia... Mas a
tardança precisava ser de 3 décadas?!
"
Os heróis são a personificação das virtudes de um povo que alcançou ou está buscando sua afirmação. Encarnam a vontade nacional.

Já os brasileiros, parafraseando o que Marx disse certa vez sobre os camponeses, constituem tanto um povo quanto as batatas reunidas num saco constituem um saco de batatas...

O traço mais característico da nossa formação é a subserviência face aos poderosos de plantão. 


Os episódios de resistência à tirania foram isolados e trágicos, já que nunca obtiveram adesões numericamente expressivas. 

Demoramos mais de três séculos para nos livrar do jugo de uma nação minúscula, como um Gulliver imobilizado por um único liliputiano.

E o fizemos da forma mais vexatória, recorrendo ao príncipe estrangeiro para que tirasse as castanhas do fogo em nosso lugar; e à nação economicamente mais poderosa da época, para nos proteger de reações dos antigos colonizadores.

Isto após assistirmos impassíveis à execução e esquartejamento de nosso maior libertário" (CL)
"Esse traidor [Joaquim Silvério dos Reis] foi correndo falar com o governador. Fez
uma tal cena que o Visconde de Barbacena soltou os milicos na rua, 
mandou sentar pua, pegar e bater e matar e prender"

segunda-feira, 20 de abril de 2026

BIG SHIT BRASIL EXTRAPOLA EM SORDIDEZ

Em 2022 eu qualifiquei o Big Brother Brasil de uma atração televisiva que coloca o grande público a espiar pelo buraco da fechadura os chiliques e baixarias de um catado de medíocres inglórios.  

Bati pesado demais? Não. Aquele show de voyeurismo é uma das atrações mais repulsivas (e lucrativas) da TV brasileira. 

Hoje eu poderia acrescentar que o BBB reúne pessoas desumanas a ponto de considerarem mais importante a grana e o holofote do que a morte do pai, pois nem no momento de maior luto desistem de continuar chafurdando na lama  daquela pocilga global. 

Haverá algum limite para a pequenez dos responsáveis pelo Big Shit Brasil e dos seus participantes? Infelizmente, não. (por Celso Lungaretti)

domingo, 19 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (parte 2)

Jamil (Ladislau Dowbor) era um militante brasileiro de ascendência polonesa que, após absorver novidades importantes em teoria revolucionária durante seus estudos acadêmicos em Israel e na Europa, voltara ao Brasil para participar da luta armada, ingressando na VPR.

Não vejo necessidade de expor aqui, mais de meio século depois, a fundamentação econômica de suas teses. Exatamente pela difícil compreensão, não haviam despertado o interesse da grande maioria dos quadros da organização.

O que me pareceu um verdadeiro ovo de Colombo foi sua conclusão. Se não, vejamos. 

A esquerda brasileira se dividia de forma exacerbada entre dois segmentos. Um, o que prevalecia acentuadamente antes do golpe de 1964,  acreditava na necessidade de uma etapa inicial, democrático-burguesa na nossa revolução, para extirpar resquícios feudais que ainda continuariam existindo no campo. 

Como consequência, os camponeses também estariam entre os sujeitos revolucionários e haveria uma burguesia nacional que poderia ser nossa aliada durante tal fase.

O outro, cujos adeptos eram principalmente os esquerdistas empenhados em aprofundar os motivos da derrota infame diante da quartelada castellista, via o Brasil como um país definitivamente capitalista, cuja burguesia se atrelava à sua congênere internacional e cujos sujeitos revolucionários seriam os explorados das cidades e dos campos (os últimos lutando não pela posse individual da terra, mas para dela disporem visando à produção coletiva).

Dowbor hoje leciona economia na PUC
O Jamil simplesmente quebrou o brinquedo predileto dos scholars de esquerda, que adoravam discutir se quem estava certo era Nelson Werneck Sodré com sua revolução inicialmente popular ou Caio Prado Jr. com sua revolução socialista desde o início.

Argumentou que, ao contrário dos modelos estrangeiros (principalmente a revolução russa de 1917), não havia no Brasil nenhuma força de esquerda capaz de ser a dominante naquele momento, como o Partido Comunista Brasileiro havia sido durante quase meio século, após vencer a disputa com os anarquistas na década de 1920 e incorporar parte deles aos seus quadros. 

Então, a revolução brasileira só teria alguma chance de êxito se iniciada pelo conjunto de forças de esquerda, cada uma dando a contribuição a seu alcance, até que, ao longo do processo, alguma se afirmasse (ou não) como a principal.

E seria também o próprio transcurso do processo revolucionário que daria a última palavra sobre se haveria ou não uma etapa democrático-burguesa. Os que a pregavam lutariam por ela, mas certamente não se deteriam caso tal etapa fosse ultrapassada de passagem e o processo seguisse adiante; nem os adeptos do socialismo direto tinham motivo para ficar querendo comprovar sua estratégia no blablablá se poderiam fazê-lo na prática.

Assim, cada partido e organização de esquerda começaria perseguindo seus objetivos por si só, no seu território próprio e com os recursos que possuísse, depois alianças iram se forjando ao sabor da luta.
Os ferimentos reabriram e
Elias morreu. Assassinado!
Enquanto isso, os néo-massistas continuariam procurando atuar simultaneamente na luta armada e no trabalho de massas, embora a segunda tarefa ensejasse vulnerabilidades enormes para a primeira. Tanto que desempenhou papel secundário nas lutas travadas dali em diante. 

Seria ocioso relatar de novo, detalhadamente, como transcorreu este novo processo de luta interna nas fileiras da VPR (com o acréscimo dos quadros do Colina, durante aqueles poucos meses em que ambas as organizações estiveram unidas na VAR-Palmares). Já o fiz no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005), então vou resumir:
-- a queda e morte sob tortura do quarto integrante do Comando Estadual de SP, João Domingos da Silva, o Elias, responsável pelas ações armadas, deixou nós outros três à volta com uma enorme crise de segurança, pois o bravo guerreiro não compartilhara com ninguém a localização de depósitos de armas, aparelhos de reserva, dinheiro para emergências, etc. Companheiros se amontoavam nos aparelhos ainda tidos como seguros;
-- nessas circunstâncias, os três remanescentes do Comando Estadual decidimos não realizar a conferência preliminar do Congresso da VAR-Palmares na qual seriam escolhidos os dois delegados de SP, avocando a indicação (eu e o Moisés optamos por nós mesmos);
-- o terceiro comandante de SP se uniu, então, aos dois comandantes nacionais que víamos como néo-massistas, dando-lhes a justificativa para um contra-ataque em que fomos, eu e o Moisés, apresentados como golpistas e tivemos nossa delegação anulada;
-- no transcurso do Congresso da VAR-Palmares, contudo, o comandante Carlos Lamarca concluiu que a organização estava mesmo esvaziando a montagem da coluna revolucionária e priorizando implicitamente o crescimento nas cidades, então encabeçou o chamado
 racha dos sete (o Moisés e eu inclusos), que encampou as principais propostas de nós dois: a volta à identidade de VPR e a adoção das Teses do Jamil como plataforma revolucionária.

No fundo, aquela nossa iniciativa apenas direcionou um terço da VAR-Palmares para a única posição possível para a esquerda armada continuar lutando depois das derrotas terríveis que estava sofrendo, enquanto os dois terços restantes, sem seus melhores combatentes, rapidamente seriam tragados pelas circunstâncias extremadas que a luta assumiu. 
Logo, a união de várias forças da esquerda se tornou não uma opção escolhida, mas um imperativo para a concretização das ações armadas mais ambiciosas que nenhuma delas conseguia mais realizar sozinha.

De resto, eu não poderia deixar de reivindicar o papel que desempenhei no racha dos sete. Ele foi geralmente escamoteado nas histórias contadas por outros autores, pois nada do legado que pretendo a duras penas ter deixado para a esquerda brasileira faria sentido sem levar-se em conta a origem da estigmatização que eu sofreria, nem o porquê de eu ter-me tornado uma espécie de lobo solitário. (por Celso Lungaretti)    

sábado, 18 de abril de 2026

CHANTAGISTA ASSUMIDO, LULA USARÁ DE NOVO A REJEIÇÃO AO BOLSONARISMO COMO ESPANTALHO ELEITORAL.

A decadência política e pessoal do Lula se traduz nos sucessivos sincericídios que comete, passando recibo daquilo que deveria esconder. Já não chega o Trump como presidente boquirroto e ridículo?

Neste sábado (18), por exemplo, o Lula confirmou o que há muito a verdadeira (mas minoritária) esquerda proclama: tanto quanto o Bozo, ele só se elege graças à polarização política: 
Posso dizer para vocês, companheiros, no meu Brasil nós acabamos de derrotar o extremismo. Nós temos um ex-presidente preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez.
Lembram daquele passado no qual a direita não conseguia ganhar eleições e recorria o tempo todo ao anticomunismo? Mais uma vez o PT copia as piores mazelas do inimigo.  Que fim de feira!

Mas, como decaiu tanto? Sendo um mero partido reformista que precisa do apoio da direita para continuar no poder.
Para quem não se lembra, foi apenas após o lançamento do manifesto pró-democracia da elite empresarial, e
ncabeçado pela Fiesp e Febraban, que Lula assumiu a dianteira na última corrida eleitoral.

O documento foi divulgado por meio de anúncios de página inteira nos principais jornais e revistas, além da mídia eletrônica. Seria cômica se não fosse trágica a cara de pau daqueles que em 2022 haviam colocado o Bolsonaro no poder, mas ficaram desapontados com as loucuras da extrema-direita e saíram em busca de um serviçal mais equilibrado e confiável.
 
Ao invés de uma festa cívica, estamos passando por momento de imenso perigo para a normalidade democrática, risco às instituições da República e insinuações de desacato ao resultado das eleições. Tal catilinária não cabia na boca daquela gente sórdida, mas funcionou tão bem em 2022 como havia funcionado em 2018.

Lula hoje não passa do cavalo de Troia infestado de direitistas que vêm destruir as cidadelas populares para escancarar os portões aos exploradores do povo. (por Celso Lungaretti) 

DALTON DECLARA SEU AMOR A FORTALEZA

Era 16 de março de 1970 e eu tinha 19 anos e 10 meses de idade. 

Entrei pela avenida 13 de maio e, no cruzamento com a rua Jaime Benevolo, estava uma casa branca de esquina, bem pintada e cuidada, simples e bela como são as coisas sem ostentação e com grande significado. 

Nela havia uma placa de advogado que atendia na residência.

Eu, como legítimo rapaz latino americano, sem dinheiro no banco e vindo do interior para cursar a Faculdade de Direito, pensei com meus botões: se conseguir como advogado ter uma casa como essa já estará muito bom...

Consegui muito mais do que a minha modesta pretensão podia alcançar.

Mas a minha maior gratidão não reside nas coisas materiais que a cidade me deu, mas sim no acolhimento que se expressa em ter-me tornado em 1982 oficialmente cidadão de Fortaleza por lei municipal e de haver nela construído o bem mais importante de todos: minha família. juntamente com Albeniza, companheira por 51 anos e que era também uma fortaleza
Clique aqui  para ver o vídeo de Vou pra Fortaleza,
composta pelo Dalton e cantada por Graça Santos.

Minha esposa, a Albeniza, foi uma grande companheira por 51 anos. Ela era também uma fortaleza. Juntos geramos três filhos e fomos por eles contemplados com oito netos maraviliosos.

Fortaleza é nome feminino que expressa a força da mulher; é uma cidade-mulher com coração de mãe.

56 anos após, você, como é próprio às mães nordestinas, transformou-se na terceira capital do Brasil (Brasília, como Distrito Federal, não conta) e bairrismo incluso, esse texto é só pra dizer que te amo!  

Poderia acrescentar que você é a melhor cidade do mundo, mas não quero repetir tal obviedade. 

Digo-a apenas nessa música que compus para você e é cantada pela Graça Santos, que nasceu e vive por aqui e empresta a sua voz nessa homenagem: Obrigado! (por Dalton Rosado)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

LEGADO DE UM REVOLUCIONÁRIO (PARTE 1)

Nunca superestimei a duração da minha existência, mas um grave atropelamento e duas hospitalizações por problemas cardíacos me alertaram de que estar vivo era um acaso e eu poderia morrer de um momento para outro, às vezes sem sequer perceber. 

Tal consciência me fez ficar bem mais preocupado com o legado que deixaria para os pósteros, pois não tinha certeza de quanto tempo me restava para produzi-lo, nem sabia se teria condições para reproduzir fielmente o que vivenciara lutando pelos ideais revolucionários.

Talvez haja sido mais eficiente em forjar meu legado na ação concreta do que em colocá-lo na tela e no papel como uma espécie de autobiografia precoce (lembrando o livro de Yevgeny Yevtushenko que tanto me impressionou quando eu ainda era um aprendiz nas lutas sociais). Pois é disto que se trata: dar, ainda vivo, uma interpretação final da minha trajetória no bom combate.

Espero que este balanço da minha jornada sirva da inspiração para os que virão depois, já que é remota a perspectiva de ver em vida germinarem as sementes revolucionárias que plantei. 

Tudo começou na virada de 1967 para 1968, quando, depois de uns poucos dias de imersão, junto com outros recrutas, nas obras dos papas do marxismo (bem no estilo do filme A Chinesa, do Godard), decidi dedicar a minha vida à revolução.

Mal acabara de completar 18 anos, portanto poderia estar apenas lançando palavras ao vento. Mas, no meu íntimo, já a considerava uma missão para a vida inteira. 

Colegas no primário e depois 
companheiros de militância
 
Rico em aprendizado, o ano de 1968  daquele grupo de oito secundaristas da zona leste paulistana não diferiu dos de tantos outros companheiros que iam às ruas confrontar a ditadura militar. Aceitávamos todas as missões e nos desincumbíamos delas com o arrojo próprio da idade. 

A coisa começou a mudar de figura com o AI-5, que marcou a transição da ditadura militar para o terrorismo de estado pleno, tornando a militância revolucionária quase kamikaze. Não ignorávamos os riscos que correríamos com a radicalização repressiva e, mesmo assim, os oito líderes  da Frente Estudantil Secundarista na zona leste paulistana optamos por seguir adiante. 

Aí sim se estabeleceu uma diferenciação, pois muito maior foi o número dos passeateiros que se omitiram quando a radicalização ditatorial deu um salto qualitativo com a assinatura do AI-5, preferindo não encarar o combate nas trevas. 

Nosso grupo de jovens (o mais novo com 17 anos e o mais velho com 21) preferiu os perigos bem maiores que passaram a existir para quem estava na linha de frente, descartando a autopreservação pusilânime. As mortes de dois dos nossos, Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, foram um dos preços que pagamos por nosso destemor. A prisão e as torturas  que cinco de nós sofremos, outro. 

Tereza Ângelo foi poupada de ambas, mas mesmo assim se tornou paranoica, imaginando estar sendo perseguida pela repressão mesmo após o fim da ditadura. Não foi por pouca coi: teve seu companheiro e seu irmão assassinados pelos exterminadores do regime.

Mal acabávamos de ser admitidos na Vanguarda Popular Revolucionária, em abril de 1969, fui surpreendido pela surpreendente designação para criar um setor de Inteligência em São Paulo, ou seja, fui alçado de imediato ao segundo escalão da VPR. Acima, só estava o Comando Nacional.

Visto por alguns veteranos como um estranho no ninho, pois não possuía os méritos que eles haviam acumulado em duras batalhas nas fases anteriores (muitos deles vinham na luta desde a vitoriosa resistência à tentativa golpista de 1961), me tratavam, quanto muito, com condescendência.
Gerson morreu baleado na rua


Era, ao que eu saiba, o mais jovem comandante de uma organização revolucionária brasileira nos anos de chumbo, mas isto não me iludia: percebia claramente que a minha participação no congresso de abril/1969 da VPR, embora vistosa, não  promoção tão precoce

Ademais, tinha sido designado para um trabalho pioneiro (não havia comandante de Inteligência nas demais organizações) e sem peso real na correlação interna de forças da VPR, já que eu não comandava militantes, apenas coordenava simpatizantes e aliados.

Os acasos, no entanto, me projetaram muito acima do que eu pudesse imaginar ou, mesmo, quisesse. Começando por ter alugado um apartamento em parceria com outro comandante estadual, José Raimundo da Costa, pelos prosaicos motivos de que a grana estava curta para nós ambos e meu nome real poderia ser usado no contrato de locação, pois ainda não caíra.

A convivência com o Moisés (seu codinome), remanescente das escaramuças da marujada contra a direita golpista no pré-1964. me permitiu tomar rapidamente conhecimento da história da VPR e de suas lutas internas. 

Ele tinha na ponta da língua cada detalhe e eu sede de conhecer o passado da organização. Também me interessavam muito os acontecimentos do período em que a esquerda deixara a épica vitória de 1961 se transformar na derrota sem luta de 1964. 

Graças ao Moisés, fiquei conhecendo a encarniçada disputa de poder interno ao longo de 1968, entre as chamadas tendências militarista massista, a primeira priorizando as ações armadas contra a ditadura e a segunda insistindo na manutenção de vínculos orgânicos com os movimentos de massa.

O acerto de contas acabou ocorrendo no início de 1969, paralelamente à pior crise de segurança até então enfrentada pela VPR, com quedas de alguns de seus quadros mais importantes. 

Houve, em seguida, um congresso na praieira Mongaguá, para colocar a casa em ordem. Foi quando Carlos Lamarca se tornou o líder explícito da organização. E eu, que deveria apenas presenciar as discussões como convidado, acabei tendo o mesmo direito de palavra dos 12 participantes.

O Moisés foi executado na 
Casa da Morte de Petrópolis
O Comando Nacional da VPR passou a ter quatro integrantes incumbidos de preparar o desencadeamento da guerrilha rural e um à ligação com os comandos estaduais. 

A fusão pouco depois com o Comando de Libertação Nacional, uma organização congênere, manteve o mesmo desenho: quatro comandantes incumbidos da luta principal e dois de fazerem o meio de campo com as cidades.

Começamos a divagar sobre a possibilidade de, aproveitando a realização do congresso nacional convocado pela VAR-Palmares para legitimar a união VPR-Colina, colocarmos em xeque a própria fusão, preconizando a retomada da identidade de VPR. Parecia-nos que fora o ingresso dos militantes de origem Colina que impulsionara o fortalecimento da ala massista

Ademais, os comandantes estaduais de São Paulo passamos a ter vários motivos de insatisfação com os dois comandantes nacionais aos quais estávamos subordinados, Antônio Roberto Espinosa e Carlos Franklin da Paixão Araújo. Até que o Moisés e eu chegamos à conclusão de que eles, na prática, agiam para sabotar a luta principal e inchar a organização nas cidades, ressuscitando a derrotada tendência massista

Mas, é quase certo que ambos desistiríamos de dar um passo tão maior do que nossas pernas se uma munição inesperada não houvesse caído do céu. Ao percebermos que circulava internamente, mas sem ser levado a sério, um texto que propunha a melhor resposta aos impasses da esquerda armada naquele momento, eu não vacilei, endossando-o de imediato com um artigo que, sem ser brilhante, cumpriu a função de tornar mais compreensível o que Jamil (Ladislau Dowbor) teorizava.

A coisa então mudou de figura, pois se tratava da concordância estridente de um comandante estadual (o Moisés, mais discreto por natureza, era um comandante paulista que pensava igual, mas só deu a conhecer mais tarde o seu posicionamento).

Eu era, certamente, o mais subestimado de todos, mas o meu patamar hierárquico inspirava respeito. As chamadas 
Teses de Jamil já não podiam ser ignoradas e mantidas desdenhosamente à parte do debate das propostas estratégicas a serem discutidas no Congresso de Teresópolis, tanto que neo-massistas correram a lançar documentos refutando-as agressivamente. A luta interna voltava com força total. 
Com a indispensável ajuda do Moisés, eu coloquei em movimento a roda do destino de uma forma insólita, ainda mais por isto estar provindo de quem tinha tão pouca influência, prestígio e poder dentro da organização. 
E, claro, atraí sobre mim os piores pesadelos imagináveis.

Mas, toda vez que alguém me pergunta se isso valeu a pena, eu respondo que o Brasil seria um país patético se pelo menos uns 3 mil dos seus 9,05 milhões de habitantes de então não houvessem arriscado a vida na luta desigual contra uma ditadura bestial e infame. 

Assim como a Resistência francesa na segunda guerra mundial, não vencemos, mas salvamos a honra do nosso país. (por Celso Lungaretti) 
"O que sou nunca escondi/ Vantagem nunca contei/ Muita luta já perdi/
Muita esperança gastei/ Até medo já senti/ E não foi pouquinho,
não/ Mas fugir, nunca fugi/ Nunca abandonei meu chão"
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